A amizade de Jiji e Kinako

Ensaio fotográfico mostra como aparentemente simples momentos ao lado de um animal estimado fazem bem para o corpo e a mente

Texto: Júlia Reis

A amizade de Jiji e Kinako | <i>Crédito: Akiko DuPont
A amizade de Jiji e Kinako | Crédito: Akiko DuPont
Quatro anos atrás, quando a fotógrafa japonesa Akiko DuPont trouxe para sua casa, em Tóquio, um filhote de gato, ela não imaginou que estaria também acolhendo uma companhia importante para seu avô Jiji. Aos 94 anos e diagnosticado com Alzheimer, ele estava gradativamente perdendo o interesse pela vida e “ficando cada vez mais ranzinza”, como ela diz. Batizado de Kinako, o gato laranja e branco viveu por um mês escondido da família até que foi descoberto pelo avô – e ali começou uma inusitada parceria: “Ele entrou no meu quarto e viu o gatinho. Seus olhos brilharam de alegria”, conta a fotógrafa de 30 anos. E ela nem sabia que o avô gostava dos felinos.

Jiji já era personagem recorrente nas fotos da neta, mas sua nova rotina, agora acompanhado do gato, deu origem ao ensaio Jiji e Kinako, que pode ser visto no site da artista: www.akiko-dupont.com. Ali ela mostra como o gatinho trouxe o entusiasmo de volta aos dias do avô, um veterano da Segunda Guerra Mundial e recém-
aposentado do trabalho no escritório. Desde então, a dupla compartilha os momentos “importantes” do dia: enquanto Jiji recorta as notícias do jornal, o gato chama sua atenção, o atrapalha. Eles brincam, brigam e continuam ali: “Jiji a cortar, Kinako dormindo em cima da mesa”. E, quando os dois cansam, dormem juntos. Tiram sonecas no meio do dia – e às vezes fazem isso em posições parecidas, ressalva Akiko. “Além de engraçado, é reconfortante assisti-los.”

A apatia, um sintoma comportamental dos acometidos por Alzheimer, se foi. E Kikako tornou-se um estímulo importante para a saúde física e mental de Jiji. Um
animal afetuoso é uma fonte de interesse e interação que auxilia também no combate da solidão e da depressão – e, detalhe, se pesquisas e médicos já reconhecem os benefícios físicos e psicológicos disso, com os idosos o impacto positivo pode se tornar ainda mais sensível.

Uma pesquisa publicada no jornal da Sociedade Americana de Geriatria analisou recentemente 1300 pessoas com mais de 65 anos e mostrou que aqueles sem a companhia de um cão ou gato têm uma perda maior de autonomia nas atividades do dia a dia em comparação com os donos de animais. A relação principal parece ser
que este último grupo acaba se mantendo mais ativo. A dificuldade está nas faixas de idade mais avançadas, que não conseguem cuidar sozinhas do animal. Por isso, estimula-se cada vez mais sessões de contato com animais (terapia assistida) e guardas compartilhadas.

Jiji não precisa cuidar sozinho de Kinako. Eles passam o tempo que querem juntos e depois voltam a tomar conta de suas próprias vidas, como relata Akiko: “Eles fazem de tudo pra ter certeza de que o outro está tendo um ótimo dia”.


06/07/2017 - 10:50

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