Prazer responsável

O que você come não determina só sua saúde. A decisão de comprar alimentos orgânicos, priorizar a agricultura local ou saber extrair tudo o que um ingrediente tem a nos oferecer pode ser o primeiro passo para tornar o mundo muito mais sustentável. Se comermos direito, poderemos salvar o mundo

Texto: Rafael Tonon

Prazer responsável | <i>Crédito: iStock
Prazer responsável | Crédito: iStock
“Não existe conflito entre uma refeição melhor e um mundo melhor”, escreveu em artigo ao jornal  e Guardian, da Inglaterra, o chef dinamarquês René Redzepi.
Ele é o chef e proprietário do restaurante Noma, considerado pela revista inglesa Restaurant, a mais conceituada no ramo, um dos melhores do mundo. Redzepi sabe o que diz. Ele já organizou um importante evento para falar de comida e sustentabilidade em um prado próximo a Copenhague, sua terra natal. Conseguiu reunir produtores locais, fazendeiros, gastrônomos e chefs renomados do mundo todo para discutir os rumos da alimentação e da gastronomia nesses tempos de comida superprocessada, globalizada e quimicamente alterada. “Precisamos aprender muito mais sobre as questões que são críticas para o mundo hoje: a história da culinária, a relação entre a comida e os sistemas de fornecimento de alimentos, a sustentabilidade e a relevância social de como comemos”, defende.


Ao criar menus com ingredientes exclusivamente retirados da sua região e organizar um simpósio no meio do nada para discutir a origem dos alimentos, o chef quer se tornar um dos líderes de um movimento que envolve muito mais do que aquilo que colocamos ou não no prato. Segundo estudiosos e ambientalistas, a alimentação é um dos primeiros e mais acessíveis passos para fazermos uma verdadeira revolução sustentável. E isso tudo começa na sua mesa.

Comer é um ato muito pessoal e particular – íntimo até, se lembrarmos que tudo aquilo que ingerimos é o que vai constituir nosso corpo, nossas células, nossos neurônios. Mas, ao mesmo tempo, esse ato tão pessoal tem um grande impacto coletivo. Imagine que você vai a um restaurante e pede pelo prato do dia: arroz, legumes grelhados e bife. Cada um desses alimentos possui uma cadeia produtiva: consumo de água, uso do solo (mesmo no caso do boi, que come o pasto), geração de empregos, biodiversidade, emissão de gases do efeito estufa... Uma infinidade de relações que envolvem desde questões ambientais (pegada de carbono, recursos hídricos) a sociais (trabalho adequado, pagamento justo). Tudo isso é afetado por aquela simples refeição. Imagine agora o impacto que teriam as refeições de 7 bilhões de pessoas do mundo que se alimentam por 365 dias (e aqui vamos fingir um mundo ideal em que não existe fome).

Claro que outras coisas que fazemos – viajar de avião, comprar um notebook, usar sacolas plásticas – podem ter um impacto maior no meio ambiente que um só prato de comida. “Mas quantas vezes compramos um notebook novo? Ou andamos de avião? No entanto, comemos todo dia, mais do que duas ou três vezes”, afirma o coordenador de meio ambiente e sustentabilidade do Centro Universitário Senac, Alcir Vilela Jr. Sem dúvida, a refeição é uma das formas mais tangíveis de alcançar muitos dos conceitos da sustentabilidade. “Ela leva ao extremo o pensamento do ‘aja localmente e pense globalmente’, porque realmente consegue ter uma enorme influência na nossa vida e impactar nosso planeta”, complementa. É preciso, portanto, pensar em outras formas de nos relacionarmos com aquilo que comemos. E isso começa com uma maior conscientização.

Saboroso e saudável, para nós e para o planeta

A conscientização tem a ver com a escolha do que você come. Claro que, diante de um cardápio, você pode escolher o que deseja. Mas seu poder de seleção para por aí. Quer ver como? Voltemos ao exemplo do prato de arroz com legumes e bife. Se você não quiser mais o bife, por exemplo, pode pedir um frango, um peixe. Mas não pode de fato escolher de onde quer que esse peixe venha, que tipo de cuidados ele tenha tido. “É um contrassenso que possamos optar pela origem de um celular, mas não de um peixe. Aceitamos o que é colocado em nosso prato sem maiores questionamentos, desconhecemos o processo de produção do que ingerimos”, afirma o ambientalista Georges Schneyder, um dos idealizadores da Carta de São Paulo, documento criado em 2010 no Brasil que prega alguns preceitos de uma gastronomia mais sustentável. Para mudar isso, precisamos conhecer o alimento em todos os seus processos: ele precisa ser saudável, saboroso, rico em nutrientes; sua produção não deve destruir o ecossistema, não pode prejudicar a fertilidade do solo e deve ser econômica e socialmente justa, com a valorização de quem trabalha para produzi-lo. Esses, aliás, são os mandamentos do movimento slow food, criado pelo italiano Carlo Petrini no  m dos anos 1980. O movimento foi um dos primeiros a discutir mais efetivamente o que se cunhou como ecogastronomia, primando pelas conexões entre o prato e o planeta. Em resposta ao consumo massificado e à agricultura industrializada que passou a dominar o mundo a partir da década de 1960, com a globalização dos fertilizantes e da comida industrializada, Petrini propõe a tranquilidade (o conceito “slow”) para fazermos nossas escolhas alimentares conscientes, para conhecermos os processos da natureza, as tradições do lugar onde vivemos. Prezarmos, tal qual nossos avós, por uma maior relação com a terra, com o cultivo e com os alimentos.

Contra a monocultura, pela biodiversidade

A família Dervaes resolveu seguir à risca esse princípio. Moradores de Pasadena, na Califórnia, eles criaram um sítio urbano de cerca de 350 m² onde cultivam 400 tipos de vegetais, além de manterem a criação de animais como galinhas e cabras e a produção de ovos, leite e mel.

A ideia surgiu do pai, Jules Dervaes, um ex-hippie, e contou com o apoio dos  lhos Justin, Anaïs e Jordanne para a empreitada. Mais que fazer o projeto render, literalmente, frutos (eles produzem cerca de 3 toneladas de alimentos orgânicos por ano), ele resolveu transformar sua experiência num panfleto em prol de uma agricultura de subsistência nesses tempos de plantações a perder de vista. (A história da família se tornou conhecida graças a um documentário dirigido por Jules chamado Homegrow Revolution, disponível no YouTube, e que mostra o estilo de vida adotado pela família.)

A radicalização de Jules, assim como a de um grupo crescente de pessoas, é uma forma de protesto contra um sistema de produção de alimentos que se mostra a cada dia mais agonizante. As monoculturas que ocupam hectares e mais hectares de plantações exigem enormes quantidades de fertilizantes e pesticidas. As plantas, fertilizadas, crescem mais rápido, o que não permite que desenvolvam raízes longas nem que acumulem nutrientes além daqueles que são fornecidos pelo
fertilizante. E isso tem tornado nossos alimentos menos nutritivos – hoje é preciso comer cerca de três maçãs, por exemplo, para ingerir a mesma quantidade de
nutrientes que uma maçã fornecia há alguns anos. Sem contar que há o consumo de defensivos agrícolas, que deixam resíduos nos alimentos e podem causar intoxicação – em nós e nos animais que os comem. Para quem ainda não descobriu essa incômoda verdade, sentimos informar que o Brasil sustenta a marca nada confortável de primeiro lugar no mundo em consumo de agrotóxicos do mundo, passando até os Estados Unidos.

Mais variedade

Mas mais do que somente garantir a saúde, a interação com o cultivo pode ser social e ambientalmente transformadora. E você não precisa, como os Dervaes, só comer aquilo que produz. Existem maneiras de se aproximar da terra e garantir a procedência do que você leva à mesa por meio de iniciativas como as novas fazendas de “colha e pague” (que consistem em cooperativas de agricultores que permitem que você retire da terra os alimentos que quiser e pague por eles, sem precisar ter um terreno para cultivá-los) ou comprando de produtores locais. “Essa interação, em plena era do agrobusiness, pode ajudar que pequenos fazendeiros sobrevivam financeiramente. Eles também podem representar um pequeno passo contra o declínio da biodiversidade, que não só ameaça o meio ambiente mas também explica por que é tão difícil encontrar um tomate que tenha o mesmo gosto daqueles que comíamos na infância”, diz o engajado chef René Redzepi.

Em favor do salmão que reina absoluto nos cardápios dos restaurantes (principalmente japoneses) e da alface-americana que acompanha o hambúrguer, queijo e molho especial ao redor do mundo, o pargo, o tambaqui e a alface-mimosa, por exemplo, perderam espaço na produção. Alguns deles, inclusive, correm o risco de sumir do mapa não por serem explorados demais, mas de menos, como a castanha de baru e o caranguejo aratu, no Brasil. Daí a massificação da produção acaba com todo o equilíbrio da natureza. “O bacalhau, por exemplo, é um peixe que estará rapidamente extinto se não nos conscientizarmos. Temos que aprender a usar nossas águas. Trocar o bacalhau da Páscoa por um bom pirarucu salgado criado em cativeiro é exemplo da valorização de uma gastronomia local”, pontua o chef Julien Mercier.

O gado passa por um problema de massificação semelhante. Nos países desenvolvidos, a carne vem das fazendas de confinamento, onde os bois permanecem comendo ração à base de milho e soja, que é mais calórica que o capim, a dieta habitual desses animais. Para dar conta de “produzir” uma quantidade enorme de carne bovina, a ração faz com que eles engordem rápido, mas causa uma série de problemas digestivos nesses animais, que podem levá-los à morte. No Brasil, o problema é outro. Aqui, 94% do nosso gado vive em pastos. A questão é que nossos pastos são formados a partir do desmatamento da Amazônia e do cerrado, acabando com muitas espécies e levando o Brasil a um dos primeiros lugares no ranking das maiores emissões de carbono no mundo. Mesmo assim, o consumo de carne, aqui e no mundo, só aumenta, o que agrava a questão. Parar de criar gado não é uma opção viável. A solução, então, é diminuir a demanda por essa carne.

Há algum tempo, tem ganhado visibilidade o movimento chamado de semivegetarianismo, que prega diminuir o consumo de proteína animal sem a necessidade de aboli-la totalmente. Além de chefs engajados já terem diminuído a quantidade de carne nas receitas, a questão vem sendo adotada como bandeira por uma alimentação
mais sustentável. Cada vez mais pessoas engrossam a Segunda sem Carne, campanha mundial que incentiva as pessoas a deixar de consumir o ingrediente por pelo menos uma vez na semana.

A proposta é que, ao diminuir a quantidade de carne ingerida, a pessoa possa ajudar a reduzir os impactos que a criação tem sobre o meio ambiente, a saúde humana e os animais.

Sem desperdício

O italiano Dario Cecchini, açougueiro artesanal da pequena cidade de Panzano in Chianti, na Itália, acredita que a melhor saída é o não desperdício. Ele defende que muitas vezes mata-se um animal para comer apenas as que são consideradas suas carnes mais nobres, e o resto é descartado. “Aprendi que é um ato de respeito com o animal que foi morto aproveitar toda a carne”, afirma ele, que vem de uma família de açougueiros. Em seu restaurante é servido o menu da vaca inteira, que leva um desenho do animal e mostra que toda a carne dela é aproveitada. Baseado nesse princípio, tem ganhado espaço a prática do cowpooling, em que vizinhos se juntam e compram um boi ou um porco inteiro, direto da fazenda de produtores locais, e partilham os cortes da carne, com a chance de criar receitas novas com eles.

O uso integral dos alimentos é, talvez, a espinha dorsal desse debate. É importante lembrar que, para produzir mais, também é necessário gastar mais insumos, mais energia, mais água, que também serão desperdiçados, em vão, caso esse alimento não cumpra sua função. “Vivemos num mundo onde quem dita as regras é o consumo, e ele pressupõe o desperdício”, afirma Carlo Petrini. É uma lógica absurda, se levarmos em conta que, no Brasil, enquanto 39 milhões de quilos de alimentos são jogados fora todos os dias, mais de 50 milhões de brasileiros vivem em insegurança alimentar. “Essa quantidade daria para alimentar 19 milhões de pessoas com as três refeições básicas diariamente”, afirma Luciana Quintão, presidente da ONG Banco de Alimentos. Caminhamos para um planeta que baterá os 10 bilhões de habitantes até 2100, segundo as estimativas. E, ao contrário do que se fala, não existe falta de alimentos no Brasil (produzimos 127% de nossas necessidades) nem no mundo. “O que existe é pobreza, é falta de acesso. Poupar e usar o alimento integralmente é uma questão de consciência, o que promoverá sustentabilidade e um mundo mais justo e e ciente”, defende ela. Na próxima vez que você se sentar para comer, pense nisso. Você está com a faca e o garfo nas mãos – as armas necessárias para começar essa revolução.

24/10/2016 - 09:00

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