O que o nosso quintal tem a nos dizer?

Plantas que nascem ao redor de uma casa espontaneamente são poderosas mensageiras. Quando nos conectamos a essa paisagem, abrimos espaço para um diálogo afetuoso com a natureza e repleto de saudáveis surpresas

Texto: Giuliana Capello / Ilustrações: Tiago Gouvêa

O que o nosso quintal tem a nos dizer? | <i>Crédito: Tiago Gouvêa
O que o nosso quintal tem a nos dizer? | Crédito: Tiago Gouvêa

Em um jardim, tudo aquilo que não conhecemos, de maneira geral, chamamos de mato. E não conhecer esses matinhos, de maneira geral, nos torna pouco empáticos em relação a eles. Talvez isso explique por que muitas dessas plantas sejam tratadas como ervas-daninhas, invasoras ou pragas apenas por nascerem espontaneamente em vasos, canteiros e até em uma mínima fresta de concreto. Mesmo sem semeadura, rega ou adubação, elas chegam, crescem e resistem a longos períodos de seca, frio, chuvas ou indiferença.

Por causa da falta de conhecimento, essas plantas são, com frequência, arrancadas dos quintais e jardins, em insistentes investidas de eliminá-las, de uma vez por todas. Mas urtigas,
dentes-de-leão, serralhas e outras folhas, flores e tubérculos são grandes guerreiros, guardam sementes em solo profundo, e têm seus truques de resiliência. Sua enorme rusticidade para sobreviver em ambientes, por vezes, hostis, costuma ser proporcional às propriedades nutritivas e medicinais que carregam consigo e que merecem nosso respeito e admiração.

Há quem diga ainda que são pedacinhos da natureza que contêm recados importantes e estão mais ligados aos moradores daquele quintal do que podemos imaginar. Cavalinha, capuchinha e quebra-pedra, por exemplo, podem aparecer com ganas de virar chá para ajudar a dissolver cálculos renais. (Esta que lhe escreve pode dar um breve testemunho. Estranhei a presença das plantinhas no meu jardim e logo descobri que o chá delas – em combinação com a acupuntura – ajudaria no tratamento que estava fazendo por conta de uma crise renal.)

Em um âmbito muito sutil, existe uma verdadeira troca entre as plantas de um jardim e seus moradores. Emoções e energias capazes de vivificar flores ou tornar quase impossível o cultivo de algumas espécies. Pequenos segredos que se mantêm ocultos até que alguém, tocado pela terra, resolva investigar essa relação – seja regido por encantamento, curiosidade, seja por uma razão científica. O pesquisador Kleber Antonio, criador do projeto Quintal Panc (iniciais de plantas alimentícias não convencionais), é apaixonado por essas plantinhas misteriosas para a maioria de nós, parecidas com mato, mas comestíveis e medicinais. Ele mora em Matinhos, no litoral paranaense, e ministra palestras e oficinas sobre o tema em diversas cidades do país há alguns anos, sempre disseminando a ideia do quintal como espaço de cultivo de alimentos e também de uma conexão com a natureza. Tempos atrás, ele morava numa casa em Cambé, também no Paraná, onde cultivava cerca de 90 tipos de plantas, de várias regiões do Brasil. Tinha entre elas algumas raras. Por outro lado, uma hortaliça bem comum não vingava no seu terreno. “Tentei por três vezes cultivar chuchu e simplesmente não ia em frente, mesmo com um parreiral enorme do mesmo legume no vizinho”, relata.

Dedos verdes à parte, na visão de Kleber havia um outro motivo para a tal resistência do chuchu. “Cada sítio tem sua individualidade”, afirma, citando um conceito trazido no início do século XX por Rudolf Steiner, o pai da antroposofia. “E essa individualidade se constitui a partir da interação única e específica daquele local e seu contexto mineral, climático, com todos os interagentes, ou seja, as outras plantas, os animais, as pessoas, as influências que vêm dos astros etc.”, explica. Há mix que dá certo, mix que não dá. Mas é inegável, quando essa interação entre as pessoas e um quintal é consciente e voluntária, todos se elevam. “De nossa parte, podemos contribuir para o fluir harmônico dos ciclos daquele quintal, observando, respeitando e compreendendo sua individualidade. O quintal, por sua vez, pode ajudar no nosso equilíbrio, pois também oferece cura”, completa Kleber.

De fato, sentar-se no jardim por alguns momentos promove uma cascata de efeitos. A respiração torna-se mais serena, os aromas chegam trazendo paz e os matizes coloridos acabam nos envolvendo por todos os sentidos. Pegamos um raminho de manjericão e esfregamos entre as mãos, inspirando profundamente seu óleo essencial. Ou colhemos uma folhinha de alecrim e colocamos na boca. Mastigamos devagar, saboreando cada nuance.

Quando nossos olhares estão dispostos a notar essa fartura de sensações, tudo se expande. Experimente e verá: o quintal cria em nós um ambiente banhado de gratidão enquanto
a razão baixa a guarda e a intuição aflora. É aí, nesse instante especial de conexão, que as tais plantinhas espontâneas – antes ignoradas ou vistas como um problema a ser corrigido – ganham o frescor daquilo que descobrimos pela primeira vez.

Sensibilidade e saúde

Para a herborista Sabrina Jeha, consultora em fitoterapia na empresa Sabor de Fazenda, de São Paulo, existem motivos de sobra para gostar delas. “Quando despertamos para nosso quintal descobrimos um maravilhoso universo de cura. São plantas como a serralha e o dente-de-leão, extremamente medicinais graças a seus poderes detox e remineralizadores, e a beldroega, que é quase tão rica em ômega 3 quanto a linhaça. Tem ainda o caruru, que é parente do amaranto e contém muito ferro, e a tanchagem, altamente bactericida. Entre muitas outras”, exemplifica.

A experiência de Sabrina em cursos e atendimentos mostrou a ela que as pessoas querem ter um cantinho verde em casa, mas, na maior parte das vezes, não têm a menor ideia
das plantas que estão ao seu redor. “Mesmo não sabendo nada de científico sobre elas, podemos observá-las minuciosamente. Perceber que algumas se repetem, tocá-las para identificar a textura, observar suas flores, seu perfume”, sugere. E vale muito pesquisar com quem conhece. O livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, dos pesquisadores Valdely Ferreira Kinupp e Harri Lorenzo, reúne dezenas de espécies espontâneas e traz uma descrição morfológica de cada uma, além de fotos, informações sobre como usar e receitas culinárias. É um primeiro passo. Mas não se arrisque a ingerir nada sem ter a certeza do que se trata, pois há plantas que liberam substâncias tóxicas dependendo da forma de preparo.

Algumas Pancs são também consideradas espécies indicadoras da condição do solo. Quando surgem, dão pistas sobre a saúde da terra naquele lugar, se está muito seca, compactada, pobre ou saturada de certos nutrientes. Pensando assim, notar seu quintal pode incluir olhar para a terra, elaborar analogias entre a condição desse solo e nossa condição emocional ou mesmo física. Será que, algumas vezes, ficamos secos demais? Ou compactados de tanta informação, precisando arejar um pouco? Brincar com esse diálogo pode
trazer respostas e insights surpreendentes – ainda que você tenha apenas alguns vasinhos em casa. Mire nos pequenos detalhes. Há sempre alguma plantinha crescendo entre aquelas que foram escolhidas para serem o centro das atenções...

“Dizem que no nosso quintal nascem as plantas de que precisamos. Assim, outro bom exercício é olhar internamente para você, sua saúde e, na sequência, investigar o seu entorno, perceber se algumas plantinhas se repetem pelo seu caminho e, em caso positivo, tentar descobrir quem são elas”, convida Sabrina.

Foi exatamente essa vontade de conhecer mais sobre a relação entre as pessoas e as plantas de seu habitat, mais especificamente em comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia, que motivou o trabalho do professor Moacir Biondo, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas. Especialista em plantas medicinais e apresentador do programa de TV Ervas e Plantas, da Amazon Sat, Biondo saiu do interior de São Paulo ainda jovem, para uma viagem que começou há 40 anos. Ao longo desse período, ele se aprofundou no conhecimento das tradições e rituais que usam plantas medicinais e, dessa forma, começou a notar que muitas comunidades estavam perdendo esses saberes. “As pessoas estavam esquecendo suas raízes, e os tratamentos para diversas enfermidades, antes cuidadas com conhecimento florestal, estavam ficando à mercê de remédios alopáticos e de profissionais de saúde que quase inexistiam nas profundezas da floresta”, relata o pesquisador.

Preocupado, ele decidiu criar o projeto Paisagens do Conhecimento (vale muito a pena assistir ao documentário homônimo, disponível no YouTube). O trabalho consiste em ir até um vilarejo (inclusive dentro de terras indígenas) e reunir as pessoas para alguns dias de conversas sobre as plantas e ervas que elas usam no dia a dia, matinhos que estão por toda parte. “Cada pessoa sabe um pouco, vai lembrando de algumas plantas e usos. Cada um corresponde a uma peça de quebra-cabeça que, depois de montado, mostra a paisagem do saber daquele lugar”, explica o professor, que também ensina muitos remédios naturais em suas visitas.

O resultado de cada um desses levantamentos é reunido em um pequeno livro, que fica para a comunidade, como um registro que pode ser, a qualquer momento, consultado. “O que era desvalorizado passa a ser motivo de empoderamento de seus conhecedores”, completa o pesquisador, que já ajudou a montar centenas de paisagens coletivas.

Nessa jornada de uma vida inteira, Biondo conta que uma das lições mais lindas que aprendeu com curandeiros tradicionais da Amazônia peruana é que, nesse mundo de dualidade,
não poderia haver a doença sem existir a cura, e que os quintais das pessoas geralmente revelam a planta de que elas estão precisando e dão a pista necessária para o curador começar seu trabalho. “Passei a observar esse ensinamento e pude perceber sua riqueza. Nas casas onde há jardins que não são excessivamente ‘limpos’ ou gramados, a Mãe Natureza se revela e insiste em mostrar sua eterna bondade. Nada foi criado em vão. A cura nos é oferecida o tempo todo”, defende.

 

01/11/2017 - 09:00

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