Ela é tão bonita

“Hoje percebo que não faço o diferente. Faço o natural. Diferente é fazer errado, poluir o ambiente, desvalorizar as pessoas”, resume a estilista Flávia Aranha, dona de uma marca de roupas que emociona pela sutileza de traços e conceitos

Texto: Kátia Stringueto | Fotos: Daniel Malva

Ela é tão bonita | <i>Crédito: Daniel Malva
Ela é tão bonita | Crédito: Daniel Malva
Vai longe no tempo o hábito de vestir uma roupa cujo tecido era feito à mão, por pessoas conhecidas, ali de pertinho. Ou cuja padronagem seguia a da melhor roupa que vimos nossas avós (ou bisavós) vestindo – sem entender na época, o valor da trama e do traçado. Ao ver e tocar uma peça do ateliê Flávia Aranha, no bairro da Vila Madalena, na capital paulista, contudo, esse delicado universo vem à tona arrastando memórias e confortando o coração.

Um casaco de algodão com repasse gravatinha enternece. Pois a peça de roupa deixa de ser só vestimenta. É expressão de uma gente. Um conjunto de 40 famílias de Pirenópolis, GO, fornece o tecido a partir do algodão plantado no quintal de casa. Elas descaroçam a planta, fiam na roca, tecem. Valorizadas de seu saber, se sentem à vontade para trocar ideias com Flávia. “As meninas é que me mostram, me ensinam sobre os repasses. O gravatinha, por exemplo, é um padrão supertradicional – minha bisavó fazia. Os desenhos, que lembram um tracejado, são controlados no pedal dos teares manuais”, explica a estilista de 31 anos. A partir daí, ela dá destino e corpo ao tecido e paga um preço mais relevante por ele do que se fosse comprado apenas o algodão. “No fundo, as meninas e eu criamos juntas. A gente co-cria”, diz.

Beleza assim não poderia ser de estação. Por isso o casaco com repasse gravatinha, que fez parte da primeira coleção de Flávia, continua à venda. Fará parte da
próxima coleção e da seguinte e talvez nunca seja descontinuado. Pois a ideia não é inovar a qualquer custo, mas oferecer o belo, com sentido e valor. Coerente com o modo de ser e de pensar dessa jovem estilista que nasceu em Campinas, interior paulista,  lha de uma psicanalista e de um empresário afetuosos. E que sempre soube olhar para as oportunidades que existem ao redor de forma orgânica. Flávia pode fazer um jantar para amigos e, com a casca das cebolas roxas que usou para preparar o ceviche, encontrar uma solução para tingir um vestidinho seu e uma camisa do marido. Escolheu a moda porque desde criança amava brincar com baús de roupas e fazer fantasias. Era um meio de expressar sua criatividade. Verdade que em 2005, recém-formada pela Faculdade Santa Marcelina, quase desistiu da carreira. “Fiquei chocada quando tive que ir à China visitar vários fornecedores de uma grande indústria brasileira para a qual eu trabalhava. Da água suja que liberavam no rio sem qualquer
tratamento até o comportamento do dono de uma fábrica, que não tinha a menor vergonha de mostrar as péssimas condições em que seus funcionários trabalhavam, crianças e idosos entre eles, tudo me fez mal”, recorda. “Entrei em crise. Pensei que não dava mais para fazer moda.”

Não daquele jeito. Felizmente, por conta de outras viagens, também pôde ver, principalmente na Índia, pessoas lidando com tecelagem manual e tingimento natural, e isso renovou suas crenças na profissão. “Hoje, as pessoas dizem: ‘Ah, você entrou na onda da sustentabilidade, né?!’ Mas não, eu pensei em fazer um negócio da maneira que eu acho justa, correta e honesta. Não levanto uma bandeira de moda sustentável. E eu espero que vá chegar um momento em que a gente não precise se vangloriar disso. Porque já vai ser natural.”

Tingimento natural

No começo do ateliê, numa casinha simpática da Rua Aspicuelta, eram só os chás que tingiam as peças de roupa de algodão, lã artesanal e linho. Camomila, carqueja, ruivinha, picão, mate, chá-preto. “Era muito engraçado porque as pessoas chegavam e perguntavam: ‘Não tem outra cor?’ E eu respondia com convicção: ‘Tem, sim, são dez tons’”, ri timidamente. “Agora eu entendo que aquilo era um momento de desintoxicação meu. Eu saí da indústria e passei eu mesma sem usar preto por muito tempo. Então, a minha coleção era toda nude. Queria traduzir com leveza essa relação natural com que as coisas devem acontecer.”

Com o tempo, e à medida que foi aprofundando o conhecimento acerca do tingimento natural com um dos papas no assunto, Eber Lopes Ferreira, as cores foram chegando mais vivas. Ele conseguiu uma tecnologia que consegue usar o pigmento natural para tingir em grande escala. Sem isso, não conseguiria sustentar o negócio.
No Canadá, a estilista aprendeu mais sobre o índigo, o único pigmento vegetal azul, e se apaixonou por ele. “Esse extrato vem da anileira, um arbusto que lembra a grama amendoim. E só funciona com oxidação. Quando você olha para a água onde ele foi diluído, vê um tom amarelo flúor. Mas na hora em que retira a roupa da água, ao ser exposta ao oxigênio, vai se tornando azul”, conta. Em suas pesquisas, descobriu ainda que o pigmento, na África, simboliza a fertilidade. Quando os negros vieram para cá trouxeram essa cultura que ficou restrita a Minas Gerais e agora, por falta de uso, está se perdendo.

Alianças que fazem sentido

Embora reconheça o valor do pigmento indiano, carregado ainda do contato que ela fez com aquela cultura, a estilista está tentando criar um índigo aqui no Brasil. E fez uma parceria com o laboratório têxtil da USP leste (precisamente com a coordenadoria da pós-graduação). A universidade está ajudando a identificar em quais lugares a produção do pigmento poderia gerar renda. É que para produzir o produto necessita-se de um agente redutor. No Canadá, Flávia aprendeu com o especialista Michel Garcia que isso pode ser feito com frutose no lugar de soda cáustica. “Para fazer isso, a gente compra a frutose industrializada. Porém, no Vale do Ribeira, que produz muita banana, há um grande desperdício desse tipo de açúcar presente nas frutas que estragam. Pensamos, então, em como fazer esse descarte virar matéria-prima para um novo negócio. Assim, o mesmo grupo de pessoas que cultiva a banana poderia cultivar a anilera. Toda a cadeia produtiva do índigo  caria no mesmo lugar”, idealiza a empreendedora.

Vale saber que alguns pigmentos usados em suas coleções, o próprio ateliê produz (nos fundos da loja, como você pode ver na última página desta reportagem). De
outros grupos produtivos, Flávia adquire o tecido já tingido, como acontece com a lã que vem da Fazenda Caixa d’Água, em Dilermando de Aguiar, no RS. Já com a estilista Mayume Ito, de Muzambinho, MG, nasceu outra parceria. Mayume coordena um grupo de capacitação de mulheres para o tingimento de algodão com café, romã, rosa, eucalipto e tudo o mais que existe na região. Elas fazem a  ação, o tingimento, a tecelagem e mandam o tecido pronto para Flávia.

Por atrair pessoas que pensam parecido, alinhada com o universo de um consumo mais consciente, a própria loja acaba sendo um núcleo de novos projetos. “Uma das minhas clientes, antropóloga, fez o doutorado baseado em uma comunidade de Urucureá, em Alter do Chão, no PA. Ela me falou de um trabalho muito bonito de tingimento natural lá. Foram os Doutores da Alegria que recuperam isso e  zeram uma o cina para resgatar esse processo com urucum, jenipapo, açafrão e estão usando”, conta Flávia, que aproveitou suas férias para conhecer o lugar e já está bolando um meio de aliar-se à comunidade produtora. Costurar diferentes aprendizados e unir pontas a deixa feliz.

Quando vê uma dificuldade, pensa em como sair dela. E essas soluções fazem parte do que considera a criação. “Meu trabalho não é só o design. A criação para mim começa bem antes, no conceito, na história desse produto, no material que escolhi. Não é só fazer uma manga assim ou assado. É muito mais a origem, as pessoas envolvidas.”

Que moda é essa?

Pode não se tratar exclusivamente de moda. Mas uma estrutura de pensamento que poderia estar presente em qualquer produto. É uma maneira de viver. “O nosso casaco pode ficar no seu guarda-roupa por 20 anos. Claro que há um desejo estético embutido, porque se não for belo, ninguém se interessará por comprar. Mas minha roupa é muito simples. Porque o projeto para ela existir é tão denso que eu queria que ele fosse o protagonista do meu trabalho. Criei superfícies limpas para poder contar essa história”, diz.

Quando, surpreendida, lhe perguntam se se sente comovida com todas as alianças que faz fica com os olhos cheios d’água. É muito grata por ter seguido esse caminho e estabelecido parcerias consistentes. As meninas de Pirenópolis colaboram desde a primeira coleção. É preocupação do ateliê criar projetos duradouros pois Flávia sabe que interfere no dia a dia dos colaboradores. Isso não significa que não precise lidar, às vezes, com uma iniciativa que deu errado. “Conheci um grupo em Rondônia, de ex-seringueiros, que desenvolve um trabalho lindo com látex, manipulado de tal forma que o resultado fica semelhante a uma palha. Desenhei bolsas, acessórios, cintos com ele, mas não vendeu. Para você ter uma ideia a Hermes já foi nesse mesmo grupo buscar látex. Aqui não interessou.”

Para usar o linho que tanto ama, a estilista também precisa fazer uma concessão: importa da Rússia, opção preferível à China. “Depois que a Braspérola quebrou, o linho morreu no Brasil. Aí a linhaça entrou na moda e os agricultores começaram a usar a fibra, que poderia virar fio, como adubo da própria plantação”, revela, já emendando que sua questão agora é calcular quantos metros de linho usa por ano, quanto precisaria produzir em fibra e quantas famílias precisariam se engajar no projeto para chegar a esse resultado. Quem sabe articulando com outros designers interessados na mesma matéria-prima.

Nada complicado para essa jovem cuja vocação é criar elos, encontrar saídas e embelezar o mundo do modo mais natural possível. “Vamos nos apaixonando por tingimentos complexos, raros, cores marcantes. E acabamos desdenhando das possibilidades cotidianas”, menciona no final da reportagem. Por isso, Flávia entrou em contato com o Ceagesp para recolher as cascas de cebola roxa no final da feira e pediu à Marcenaria Baraúna permissão para recolher a serragem. “Faz todo o sentido criar pigmentos a partir desses resíduos. E faz todo o sentido ensinar ao consumidor como incorporar o hábito de tingir roupa em casa. É fácil.”

PASSO A PASSO

Ingredientes
• 50 g de chá-preto (medida para tingir uma camiseta de algodão)
• Detergente neutro
• Água
• Panela de aço inox (na panela de ferro o tom fica cinza)

1. Coloque o chá em 5 litros de água e deixe ferver por 40 minutos. Desligue.
2. Coe e devolva a água colorida ao recipiente.
3. Pegue uma roupa de algodão úmida (previamente fervida em detergente neutro para limpar bem a fibra). Cozinhe na água com chá por 40 minutos.
4. A roupa precisa ficar totalmente submersa na panela. Vá mexendo como se fosse uma sopa, para impedir o surgimento de bolhas e manchas.
5. Desligue e deixe a peça descansar por uma noite (no dia seguinte use a água para regar o jardim).
6. Retire a roupa e enxague até remover os resíduos.
7. Pendure para secar à sombra.

01/04/2016 - 10:00

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