Confie na História

Aos poucos, encontramos saídas alternativas. Agora, por exemplo, estamos passando de sociedade do consumo para sociedade do cuidar. E isso é fantástico

Texto: Lala Deheinzelin

Lala Deheinzeli | <i>Crédito: Divulgação
Lala Deheinzeli | Crédito: Divulgação
Nossas conversas têm focado muito no processo de mudança de tudo o que estamos vivendo. O que, sem dúvida, dá um frio na barriga. É natural. Mas na verdade existem muito mais razões para celebrar essa transição do que para temê-la. 

Para começar, pense nos seus pais, avós e bisavós. Compare a vida deles com a sua – e de seus filhos, caso os tenha. Note como hoje temos mais escolhas de vida e acesso a informação, bens, lugares, pessoas, tudo. Mais mobilidade em todos os sentidos: geográfica, social, cultural  etc., etc. Fazemos mais, com menos esforço. Antes, silêncio era sinal de respeito: maridos e mulheres, pais e fi lhos, professores e alunos quase não se falavam. E o amor? Há apenas poucos anos podemos gostar livremente. Até a violência é menor do que jamais foi. Sobre isso, sugiro assistir à palestra do TED em que o linguísta Steven Pinker fala sobre o declínio da violência dos tempos bíblicos até hoje, apesar da obscenidade do que vemos na Síria e no Iraque (www.ted.com/ talks/steven_pinker_on_ the_myth_of_violence). Ou seja: o curso da história gera melhorias. Principalmente se observado em médio ou longo prazo. As guerras do século XX foram monstruosas? Sim. Mas resultaram numa repulsa à guerra sem precedentes: hoje, ir para a luta não é desejo nem motivo de orgulho. Quer mais? Destaco que a transição que vivemos é de uma sociedade e economia do consumo para uma sociedade e economia  do cuidar. Explico: quando consumimos algo, esse algo se esgota, então nosso modelo é de escassez e competição. Mas, quando cuidamos, esse algo se multiplica e, como há infinitas formas de cuidar, a abundância e a colaboração são possíveis.  

A transição do competir para o colaborar e da escassez para a abundância é ainda mais possível nas novas economias. A economia criativa tem como “matéria-prima” a criatividade, que nunca se esgota. Ao contrário, o conhecimento só se multiplica. A economia compartilhada, por sua vez, otimiza todo tipo de recurso que é subutilizado. Seul, na Coreia, resolveu o problema da falta de estacionamento na cidade com um app que indica quais garagens ficam vazias enquanto os donos trabalham fora e que, portanto, podem ser alugadas. E por meio da economia colaborativa conseguimos resultados gigantescos, impossíveis antes de estarmos todos conectados em rede. É o caso da Wikipédia.

Essa combinação de criativo + compartilhado + colaborativo tem revelado aquilo que ninguém imaginava: o bom senso e a capacidade de autogestão dos coletivos. A eficiência e eficácia daquilo que é feito pela coletividade organizada e autogestionada é muito maior do que a das instituições. Principalmente porque não tem burocracia, extremamente custosa porque resulta em perda extraordinária de tempo, recursos, pessoas, entusiasmo, engajamento. Em contraponto, quem opera a partir de relações de confiança tem tudo a ganhar. Note que apenas a transparência já seria sufi ciente, por exemplo, para acabar com a corrupção. Estamos a caminho.

09/06/2016 - 10:13

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