Um novo olhar sobre os passos de dança

O desafio era ensinar apenas algumas crianças cegas a dançar balé clássico, mas Fernanda Bianchini foi além. Transformou a arte visual em sensorial e hoje acolhe mais de 350 bailarinos com deficiência na única companhia de balé para cegos do mundo

Texto: Ingrid Queiroz | Foto: Dirso Barelli

Um novo olhar sobre os passos de dança | <i>Crédito: Dirso Barelli
Um novo olhar sobre os passos de dança | Crédito: Dirso Barelli

“É possível cego aprender balé clássico?”, perguntou uma das irmãs – ou freiras – do Instituto de Cegos Padre Chico, em São Paulo, para Fernanda Bianchini quando ela tinha 15 anos e já saltitava na ponta dos pés. Essa pergunta se fixou em sua mente (e também no coração) como o maior desafio da sua vida: ensinar balé clássico para crianças com deficiência visual. Na época, a adolescente que dançava balé clássico desde os 3 anos de idade visitava com frequência o instituto onde era voluntária com seus pais, Antonio Clovis Bianchini e Vera Lucia Bianchini. Fernanda nunca havia dado aula de dança antes – nem para crianças sem deficiência – e, por se achar incapaz de ensinar uma técnica tão exata a quem não vê, relutou quase desistindo da missão. No entanto, não importava a pouca idade da menina: seus pais não a pouparam. Pelo contrário, a incentivaram. “Não desista do desafio, minha filha. É de desafios como esses que partem os maiores ensinamentos que temos na vida”, disseram. Parecia que eles já sabiam o que estava por vir. Diferente da menina, que ainda nem desconfiava da reviravolta – ou melhor, das piruetas – que ela provocaria na vida de tantas bailarinas.

E, assim, há 22 anos, começava naquele instituto a história da Associação Fernanda Bianchini, uma escola de balé localizada no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, que nasceu para transformar a vida de crianças cegas por meio da dança. Entender as dificuldades e limitações de cada criança foi o desafio inicial da nova professora. “Um dos momentos mais marcantes para mim foi quando tive de ensinar pela primeira vez um passo de balé chamado echappé sauté, em que a bailarina precisa saltar abrindo as pernas e saltar, de novo, fechando as pernas”, lembra Fernanda. Para facilitar o processo, pediu que as alunas se imaginassem pulando para dentro e para fora de um balde. “Mas como as crianças poderiam imaginar esse balde se elas nunca nem viram um balde?”, questiona. Nesse momento, ela percebeu que precisava ir além da técnica que havia aprendido na sua tradicional escola de dança e se deu conta de que o balé clássico, para ela, não era mais uma arte visual, e sim uma arte sensorial. Foram muitas tentativas e adaptações em aula até surgirem os caminhos e as respostas certas para cada contratempo. Uma dessas respostas, Fernanda lembra, foi quando ela se preparava para explicar a leveza que as bailarinas precisavam colocar nos braços em cada movimento da dança. “Uma noite – justamente durante um período da minha vida em que pensei em desistir do projeto por achar que eu não era capaz de transmitir tais ensinamentos, sonhei que meus braços eram duas folhas de palmeira que dançavam pelo espaço. Essa metáfora foi a solução que encontrei para levar às bailarinas e superar todas as nossas expectativas”, comemora – e ainda conclui: “Percebi aos poucos que precisava entrar cada vez mais a fundo no mundo de cada uma delas. Tenho certeza de que aquele sonho foi uma conversa que Deus teve comigo”.

Apesar de todos os avanços e da coragem que Fernanda já demonstrava, muitas pessoas – entre professores de balé e outros profissionais – não acreditavam no sonho e na possibilidade de cegos dançarem com a precisão que o balé clássico exigia. Mas a professora seguiu em frente. Graduou-se em fisioterapia e se especializou na área. No mestrado, publicou e patenteou a tese O Ballet Clássico para Deficientes Visuais: Método Fernanda Bianchini, uma metodologia que virou referência para o ensino do balé a pessoas com deficiência visual no mundo todo. Fernanda conseguiu unir, assim, os passos da dança com técnicas específicas de alongamento (chamadas de stretching global ativo), reeducação postural, equilíbrio e fortalecimento, entre outras alternativas que proporcionam para seus alunos uma melhor estabilidade. “Já no primeiro mês é possível notar uma evolução no equilíbrio e um aumento da noção espacial e corporal”, afirma. As conquistas – da professora e de seus alunos – não demoraram a chegar. Fernanda Bianchini, que no início ensinava para apenas cinco meninas cegas, hoje atende mais de 350 alunos desde os 3 anos até a terceira idade, gratuitamente, com o patrocínio de empresas como a global BD, de tecnologia médica, e a brasileira farmacêutica Libbs, além de doações de amigos, parceiros e familiares. Há oito anos, a escola abriu as portas para outros tipos de deficiência, como
a auditiva, a física, a motora e a intelectual, oferecendo não apenas o balé clássico mas também teatro, sincronismo e expressão, sapateado, dança do ventre e dança de salão.

Com 19 professores, a Associação Fernanda Bianchini (AFB) é, atualmente, a única companhia de balé para cegos do mundo. Além da trajetória de Fernanda, a escola reúne outras histórias inspiradoras, como a da pernambucana Geyza Pereira, de 31 anos, que perdeu a visão aos 9 após o diagnóstico de uma neurocriptococose. De aluna, Geyza virou bailarina profissional e também professora de balé da associação de Fernanda, que sempre seguiu a mesma meta. “Meu objetivo é que os bailarinos da escola sejam aplaudidos por sua disciplina, por seu talento e por dançarem com qualidade como artistas. E não porque não enxergam da mesma forma que nós. Aqui, não tem indefesos deficientes visuais recebendo caridade. Aqui tem bailarinos profissionais que aprendem e também ensinam”, descreve a dona da escola. Júlia Carruci, outro exemplo inspirador, foi a primeira criança com deficiência física e motora a dançar no local. Acompanhada pela avó,
ela entrou na sala enxergando, mas sem conseguir realizar nenhum movimento no corpo. Hoje, graças ao pedido
especial da família e das aulas que passou a receber, já consegue movimentar a cabeça, os braços e as pernas.
Assim como a avó de Júlia, outros familiares de pessoas com deficiência encontraram no projeto de Fernanda
um espaço de inclusão, de acolhimento e de amor. “A verdadeira inclusão só acontece quando nos colocamos no lugar do outro, aprendendo suas limitações e dificuldades”, diz a professora, que coloca em prática, na vida, todo o seu discurso. Ao longo dos anos, a escola já realizou mais de 1500 apresentações para 700 mil espectadores ao redor do mundo, passando por Londres, Argentina, Alemanha, Nova York, Los Angeles e Polônia. Além disso, já impactou mais de mil famílias e também professores, voluntários e parceiros. Números como esses apenas comprovam que aquela ideia de ensinar crianças cegas a dançar balé foi muito além na biografia da professora. Hoje, ao olhar para trás, percebemos que sua história tomou um rumo ainda maior diante de seus pés: o de transformar vidas. “E é isso que me inspira todos os dias”, afirma.

Fernanda Bianchini

Idade: 39 anos
Função: fisioterapeuta, fundadora e professora da AFB
Como se define: persistente
Mantra: “Ter sido escolhida e capacitada por Deus para algo tão especial e transformador”
Como gostaria de ser lembrada: alguém que sempre acreditou no ser humano e em um mundo melhor
Eu tive um sonho... “No lugar dos meus braços, havia folhas de palmeira. Essa foi a solução que levei para ensinar leveza às bailarinas”

Manual do sonhador

Fernanda Bianchini é empática, capaz de entender as pessoas e seus sentimentos em diferentes perspectivas e situações, segundo a psicóloga Fabiana Guimarães

1) Sua habilidade para o bom convívio e para a ajuda mútua implica inspirar, cuidar e deixar o outro bem. Isso permite que pessoas se sintam valorizadas, capazes e respeitadas no ambiente social em que vivem.

2) 2 Fernanda confiou em seu objetivo, característica que a destacou, pois confiar naquilo que se sonha
aumenta a capacidade de resiliência e ajuda a superar os momentos de dificuldade.

3) Enxerga e respeita as pessoas pelo que realmente são. O empenho em usar as qualidades do outro em vez de tentar mudar suas características e condená-lo pelas deficiências é importante para todos.

18/01/2018 - 09:00

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