Quero falar de amor

A fascinante arte de amar é para todos, independentemente da idade. Só exige presença absoluta: é preciso, não duvide, estar atento e forte

Texto: Malga Di Paula

Malga Di Paula | <i>Crédito: Cadu Pilotto
Malga Di Paula | Crédito: Cadu Pilotto
Não é tão simples como parece abordar este tema, pois, da psicologia aos mitos, das relações pessoais às artes, das religiões à filosofia, o amor é objeto das mais
variadas abordagens. Quero, no entanto, compartilhar com você um pouco das minhas crenças sobre esse sentimento tão desejado por todos e de uma grande experiência amorosa que eu tive o privilégio de vivenciar.

Concordo com o sociólogo e filósofo alemão Erich Fromm. Segundo ele, o amor deve ser aprendido. Como uma faculdade a ser estudada, uma arte a ser desenvolvida como a própria vida. Não é algo fácil de acontecer. No meu caso, tive a sorte de encontrar o primeiro marido aos 28 anos, casar com ele 12 dias depois e viver um grande amor até que a morte nos separasse. Ele, por sua vez, tinha 67 anos e tinha tido outros cinco casamentos até nos encontrarmos. Mesmo que suas relações anteriores
tenham sido breves, foram experiências necessárias para que ele aprendesse a arte de amar alguém a ponto de querer estar ao seu lado até o último segundo de sua vida.

Tivemos muitas conversas a respeito das razões pelas quais as relações anteriores duravam tão pouco. Ele concordava que teria idealizado o seu amor em suas outras mulheres, sem perceber que o amor ideal não existia “no outro”. Ele, infelizmente, foi vítima de violência na infância. Cresceu em um ambiente que não contribuiu para que ele sentisse dignidade e estima por si mesmo. A ausência desses sentimentos fez com que buscasse sempre “no outro” a sua autoestima.

Eu tive mais sorte. Cresci em um ambiente amoroso e nunca encontrei problemas em amar aquela garotinha magrela que crescia em mim. Nunca acreditei que um príncipe encantado chegaria para me completar – ao contrário, sempre acreditei que o amor é algo que cresce dentro de nós mesmos até o ponto de transbordar e acabar se fundindo ao amor de alguém. Não sei exatamente o que as ex-mulheres de Chico, meu falecido marido, esperavam de seu relacionamento, mas talvez também tenham idealizado nele o seu grande amor. Se idealizamos “no outro” o amor que acreditamos merecer, criamos expectativas que talvez nunca sejam atendidas, já que o outro pode estar esperando a mesma coisa de nós.

Eu o conheci e me apaixonei loucamente, mas é claro que nosso casamento não teria sido tão maravilhoso se nossa relação não tivesse evoluído profundamente.
Fomos mestres um do outro nesse aprendizado. Compartilhamos 14 anos. Acredito que foi comigo que ele entendeu a real necessidade de amar a si mesmo primeiro, para, então, deixar o amor transbordar para fundir-se ao meu.

Foi maravilhoso viver essa experiência ao lado de um homem de 67 anos que teve a humildade de reconhecer sua necessidade de aprender sobre o amor. Nunca é tarde para essa fascinante arte.

20/06/2017 - 09:00

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