Plural como a família humana

Por não ter se sentido representada na infância, Joyce Venâncio realizou o sonho de criar bonecos que espelham a diversidade. Começaram negros, tom de sua pele, mas logo abarcaram todo o tema da inclusão – motivo de sucesso da ideia

Texto: Raphaela de Campos Mello / Foto: Priscila Tavares

Joyce Venâncio | <i>Crédito: Priscila Tavares
Joyce Venâncio | Crédito: Priscila Tavares

“Nunca deixem ninguém dizer que vocês não podem realizar algo”, repetia Maria Francisca, a avó negra que, valendo-se da sua sábia simplicidade, estruturou a autoestima das netas Joyce, Lucia e Cristina. Desde cedo, as irmãs Venâncio compreenderam que deveriam se orgulhar de suas raízes ainda que o mundo dissesse o contrário. Algo, contudo, não fazia sentido. Se havia tanta força e beleza na negritude, por que não encontravam bonecas como elas nas grandes lojas?

Décadas atrás, a única boneca negra presente nas prateleiras, dentre tantas com feições europeias, era a Nega Maluca, extremamente estereotipada – a começar pelo nome –, com traços exagerados e vestido de chita. “Era muito ruim não me sentir representada. Eu queria me ver na boneca e levar uma extensão da minha família para a escola”, lembra Joyce Venâncio, diretora da Preta Pretinha, a loja de bonecas fiel à diversidade humana, um sonho de infância que ela e suas irmãs, hoje suas sócias, tiveram a satisfação de concretizar.

A inspiração veio da avó, que, certa vez, ao fl agrar as lágrimas da netinha, tratou de confeccionar uma boneca que espelhasse a pequena. Dona Maria Francisca comprou uma cabeça de plástico no comércio popular, revestiu-a com meia de seda tingida por ela de marrom, delineou o rosto com traços harmoniosos e fez o corpo de tecido. “Foi lindo receber aquele presente. Quando cheguei com a boneca na escola, senti muito orgulho”, rememora.

Cada boneca “parida” pela matriarca era recebida com festa por toda a família. “Nós realizávamos batizados com direito a festa, bolo e docinhos. Crianças e adultos participavam”,
conta Joyce, saudosa. Esse espírito de congraçamento e inclusão permeia até hoje as criações da Preta Pretinha, localizada na Vila Madalena, em São Paulo, bairro de nascença das irmãs Venâncio. Quando o ateliê foi inaugurado, em 2000, sete tipos de bonecas artesanais se espremiam numa garagem de 15 m2. Hoje, uma casa de 120 m2 abriga mais de 60 modelos feitos de pano, vinil e plush. Negras e orientais, ruivas, castanhas e mestiças. “As pessoas ficavam felizes em se sentirem representadas. É aquilo que aprendi lá atrás com a vovó: saber me colocar na posição do outro. Assim começamos a trabalhar a diversidade”, contextualiza.

Curiosamente, foi o cansaço que levou Joyce a finalmente propor às irmãs que realizassem o antigo sonho. “Nos lugares onde trabalhei, sempre tive que provar meu valor dez vezes, pois ainda existe muito preconceito dentro de grandes empresas”, desabafa a empresária, que também é psicóloga. Quando apresentou a proposta às futuras sócias, anunciou, entusiasmada: “Vamos fazer bonecas lindas como a população negra e com diversos tipos de penteados”. Àquela altura, ela não desconfiava que o projeto abarcaria tantas outras nuances.

A linha de produção cresceu ano após ano e hoje os bonecos dedicados ao tema da inclusão são um sucesso. Tudo ali é muito criterioso, já que o respeito é a alma do ateliê. “Fazemos pesquisas e conversamos com especialistas para entender como é o dia a dia das pessoas que passam por essas situações”, revela Joyce. Assim surgiram bonecos cadeirantes, amputados, deficientes visuais acompanhados por cão guia ou bengala, personagens com síndrome de Down, nanismo, em hemodiálise, além de autistas, albinos e com sobrepeso.

Tamanho compromisso em reproduzir a realidade como ela é atraiu a atenção de educadores, psicólogos, fonoaudiólogos e juízes da vara da infância e da família, que encontram nos bonecos da Preta Pretinha ferramentas valiosas para realizar seus respectivos ofícios. Brincando os pequenos conseguem expressar toda a sorte de sentimentos, o que seria mais
difícil se apenas estivessem cara a cara com esses profissionais. E também acabam dramatizando situações vividas em casa ou nos abrigos. O lúdico suaviza o que pode ser bastante traumático. E abre caminho para a cura e para a dissolução de conflitos.

Não são poucos os pequenos que entram na loja e se emocionam ao se reconhecerem em determinadas criações. Segundo Joyce, esse momento é dos mais gratificantes. Muitas são as histórias que a empresária poderia contar com os olhos marejados e a certeza de que suas “crias” transformam vidas. Uma delas tem como protagonista Miguel, um garotinho de 7 anos que, três anos atrás, foi diagnosticado com um tumor raro no rim. Justo ele que tinha pavor de perder os cabelos. “A primeira coisa que me veio à mente foi que teria de trabalhar o emocional dele”, conta Joyce Simões, mãe de Miguel. Nesse instante, ela lembrou da Preta Pretinha, pois havia recorrido à marca quando trabalhou o tema da inclusão numa escola onde dava aulas de inglês. “Providenciar um boneco carequinha para ele ir se acostumando com a ideia foi a melhor coisa que fiz”, comemora. Assim que segurou seu mais novo companheiro, o garoto anunciou: “Ele vai se chamar Miguel”, nome de “batismo” posteriormente bordado na camiseta da “mascote”. Não se desgrudaram mais. Juntos, iam para todos os lugares, inclusive para as sessões de radio e quimioterapia. Encantadas com a dupla, as enfermeiras entravam na brincadeira e atendiam primeiro o boneco para só então se ocuparem de seu dono. “Ele era um amigo, uma segurança. Então, quando meu filho ficou careca, já tinha aceitado. Agiu com naturalidade”, relata a mãe.

Passados oitos meses de um tratamento invasivo e doloroso, chegou a hora de o pequeno voltar para a escola. Mais uma vez, a “mascote” mediou o processo. Uma semana antes, ela foi apresentada aos coleguinhas, e a questão da inclusão, trabalhada pela professora em sala de aula. Assim, quando Miguel reapareceu, não houve espanto; pelo contrário, a criançada queria mais era passar a mão em sua cabeça e brincar com o “Miguelzinho”, que virou uma sensação na turma. Quando os cabelos do garotinho voltaram a crescer, seu amigão retornou ao ateliê para ganhar madeixas. Nada mais justo, já que um é a extensão do outro.

O que aconteceu na escola de Miguel não é novidade para Joyce Venâncio. Paralelamente ao comércio, ela dá voz ao Instituto Preta Pretinha, criado em 2008. Em nome da entidade, viaja o Brasil ministrando palestras em escolas e empresas. Nessas ocasiões, leva um arsenal de bonecos, os mais diversos. Esse é o gancho para abordar questões como autoestima, aceitação, igualdade racial e de gênero. Afinal, “o que é belo?”, “O que é perfeito?”, a empresária costuma indagar. A refl exão germina. É potente. E logo se desdobra.

Mais do que brinquedos, os bonecos são, na visão de sua criadora, representações de uma realidade que segue invisível para muitos. “As pessoas precisam tomar consciência do
que acontece”, sustenta. Para celebrar nossos múltiplos tons e sotaques, ela incluiu no portfólio modelos característicos de cada região do Brasil e também de outros países. Porém, 89% das vendas são de bonecas negras, prova de que ainda existe significativa carência desse perfil no mercado. Dona Maria Francisca estava certa ao encorajar suas meninas a persistir diante das difi culdades acarretadas pela cor da pele. Há muito a ser feito a esse respeito. E suas netas estão mais do que preparadas para aconchegar, num imenso abraço, toda a família humana.

Manual do sonhador
Os bonecos da Preta Pretinha estão profundamente ligados à identidade de Joyce Venâncio, que, segundo o psicólogo Marcelo Rosenfeld, soube aliar seu negócio a uma importante causa

1: Mais do que identificar um nicho de mercado e nele investir, Joyce partiu da sua própria história e abraçou uma causa. Desfraldou uma bandeira, como se dizia. Essa escolha foi uma
demonstração de ousadia.

2: Precisou de muito jogo de cintura para redirecionar seu modelo em função de novas necessidades. Por outro lado, a visão do que pretendia fez com que diversificasse sua linha de produtos sem nunca perder o foco principal.

3: Seu lado “embaixatriz” é movido pelo desejo de contagiar os outros e de provocar mudanças.

21/11/2017 - 09:05

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