Para tocar e confortar

O crochê está na moda, é lindo e cheio de boas intenções. Por isso, não importa o estilo – se é você quem faz ou se é você quem o valoriza –, toda forma de trama vale a pena

Texto: Kátia Stringueto

Para tocar | <i>Crédito: Divulgação
Para tocar | Crédito: Divulgação
“Os objetos do dia a dia, por mais simples que sejam, devem ter o poder de reter os olhos e provocar um mínimo de encantamento. Assim dão um pouco mais de poesia a cada momento”, diz Madalena Ioneda, crocheteira e tricoteira de mão cheia. Por isso, Madah, como é mais conhecida, adora criar delicadezas para a casa e para a vida. E fica mais feliz ainda quando vê uma moçada antenada em moda e tecnologia – meninas e meninos – interessada em suas oficinas. “Quanto mais pessoas fazem crochê, mais a vida se enfeita, se humaniza, se adoça”, defende. “Quem se dedica ao fazer manual vivencia momentos de absoluta descompressão, quietude e satisfação, enquanto quem o recebe ganha um bem único, carregado de boas energias.”

Se depender de Nicole Tomazi para mais gente se juntar ao fazer manual, o crochê, o bordado e o tricô estão salvos – e com um toque autoral. Desde pequena, a gaúcha tem um vínculo forte com o território onde nasceu, a cultura local e a ancestralidade. E sabe dar valor a tudo isso. “Nasci na cidade mais longeva do país, Veranópolis, RS. Lá, o idoso é atuante e respeitado na sociedade. Isso faz aprendermos os ofícios manuais desde cedo, como brincadeira de avós e netos”, conta a designer, que aprendeu a
bordar, tricotar e crochetar com a avó Vera.

Nicole só não imaginava que ia viver disso. “Fiz faculdade de arquitetura, mas, na época em que me formei, destruía-se um piso, uma parede de azulejos antigos sem cerimônia ou necessidade. Queria seguir no caminho oposto”, conta. Seu jeito de construir foi aliando o fazer manual ao design. “Aproveitei a tradição do crochê, mas, em vez de trabalhar com réplicas, passei a usar essa plataforma para usos diferentes”, conta. Daí surgiram suas pesquisas com fios e cálculos que permitiram subir a trama e torná-la volumétrica. “Tivemos um boom do industrial. Hoje, estamos vivendo uma volta ao manual”, diz. “Seja a comida caseira, o objeto feito à mão, o homem é um ser fazedor. Sobrevivemos até hoje neste planeta porque fazemos coisas. Principalmente com as mãos. É a nossa maneira de exprimir o que sentimos”, conta ela. Não podemos nos afastar disso.

Quando vemos que o homem tocou alguns espaços públicos com algo bonito feito pelas próprias mãos percebemos sua tentativa de dar carinho à cidade e nos sentimos melhor. Há uma mensagem subliminar, um convite que diz: “Vem, pode chegar mais perto. Fiz isso para você”. É com esse objetivo que atua o Coletivo Agulha, uma rede de cerca de 20 pessoas que veste as áreas mais cinzentas de São Paulo com a maciez do crochê bem colorido. “Sempre me interessei pela forma como as pessoas
se relacionam com a cidade. E o artesanato foi um dos caminhos que encontrei para exercitar essa reflexão”, diz a roteirista Teca Eça, membro do grupo.

“A maior recompensa é ver que aquele espaço, aquele objeto passou a ser encarado com outros olhos. Transformamos, chamamos a atenção e causamos sensações por meio da aplicação de simples fios, e isso é muito gratificante”, diz Keka Carrara, do Coletivo meiofio, também paulista. O meiofio trabalha com a recuperação, apropriação e construção de narrativas para espaços públicos considerados não lugares (termo usado pelo antropólogo Marc Augé para se referir a espaços que não possuem significado suficiente para serem definidos como “um lugar”). “Tudo é feito com yarnbombing (bombardeio de fios), técnica que faz um contraponto à velocidade urbana”, detalha a crocheteira ativista.

Assim como a intervenção urbana, que comove muita gente, um polvo de crochê colocado dentro de uma incubadora neonatal enternece famílias e profissionais
de saúde. A ideia nasceu na Dinamarca em 2013 e acaba de ser reproduzida aqui na Maternidade Brasília, no Hospital Santa Maria e está em vias de ser implantada no Hospital Regional de Taguatinga, todos no Distrito Federal. “Embora não exista comprovação científica, os dinamarqueses observam que os bebês prematuros se acalmam quando abraçam o polvo. Parece que os tentáculos lembram o cordão umbilical”, esclarece Mchilanny Bussinguer, terapeuta ocupacional da UTI neonatal do
Hospital de Taguatinga. “Na presença do brinquedo, os prematuros não retiram as sondas ou outros dispositivos”, destaca ela. “Só pra lembrar, esses bebês são manipulados cerca de mil vezes ao dia. Ou seja, é muito estresse. O bichinho oferece um pouco de afeto.” O possível naquele momento.

16/06/2017 - 09:53

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