No princípio, a música

Tocar um instrumento ou se deixar levar pela mais linda composição é uma forma de treinar a alma para ser livre – e deixar que os outros também possam ser

Texto: Nina Campos e Ligia Maciel (Associação Palas Athena) | Ilustrações Tiago Gouvêa

No princípio, a música | <i>Crédito: Tiago Gouvêa
No princípio, a música | Crédito: Tiago Gouvêa
Na Pré-História, os sons e ritmos que cercavam um ambiente eram ainda mais vitais para a sobrevivência do homem. Como os diferentes barulhos emitidos pelos pássaros ou pelas ondas que se quebravam na praia, anunciando uma tempestade e a necessidade de abrigo. Informação que chegava pelos ouvidos, a “música” era um dado
da natureza e uma expansão impulsiva e instintiva do ser humano ligada à voz, aos ritos e à dança.

Foi só na Grécia antiga que essa expressão começou a ser teorizada, traduzida em arte e reconhecida como algo mais do que meio de comunicação. Graças a Pitágoras. Esse importante pensador, tão famoso por suas teorias matemáticas, foi o primeiro a estabelecer analogias sonoras para explicar a ordem do Universo. “Na Grécia
daqueles tempos, acreditava-se que a origem do mundo era o fogo, a água, o ar, enfim, algum dos elementos da natureza. Pitágoras – na verdade, não se sabe com certeza se Pitágoras existiu ou se as ideias a ele atribuídas surgiram de um grupo de matemáticos (os pitagóricos) que vivia ao sul da Itália, região pertencente ao mundo grego da Antiguidade – rompeu com essa teoria ao dizer que o princípio de todas as coisas estava nos números”, conta a musicista e filósofa paulista Cynthia Gusmão, autora de
Pequena Viagem pelo Mundo da Música (ed. Moderna).

Através de um instrumento que possuía uma única corda, Pitágoras pôde observar que as divisões feitas nessa corda exprimiam sons diferentes. Ele considerou o som emitido pela corda solta (sem nenhuma divisão) como fundamental e o chamou de tom. Em seguida, dividiu a corda em doze partes iguais. Segurou a corda na metade do comprimento com uma mão e a tocou com a outra. Ouviu um outro som. Depois, segurou a corda na marca correspondente a três quartos da corda e ouviu uma nova nota. Ao tocar na marca correspondente a dois terços da corda, mais uma nova nota surgiu. As proporções encontradas por ele (de 1:2, 2:3 e 3:4) representaram a oitava, a quinta e a quarta parte de um tom. Pitágoras percebeu também que os sons produzidos quando tocava outras marcas da corda não eram tão agradáveis ao ouvido e acabou chamando esses sons de dissonantes.

Esse estudo permitiu surgir o embrião do que viria a ser a ciência musical. “Assimilando a música com a matemática era possível explicar todas as vibrações do Universo como estando em consonância, encontrando uma explicação plausível para o Cosmos”, explica o filósofo Renan Rossini, de São Paulo. E importante detalhe: naquele tempo, a música tinha uma função de purificação. Colocava o corpo em equilíbrio com uma ordem suprema como se a sensibilizá-lo e prepará-lo para a aparição do deus superior.

“Segundo Pitágoras, a música era o elo entre o homem e o divino”, ensina Rossini. E tinha ainda uma função mimética e condutiva. “Na filosofia desse matemático, a harmonia surge como um parâmetro ordenador. Em primeira instância, como aquilo que agrada aos ouvidos. Posteriormente, ela passa a ser tomada como a perfeita sintonia entre a alma, o corpo e o Cosmos. Ou seja, como o som do movi mento inaudível que emitem o corpo, a alma e os corpos celestes”, explica.

Diversos campos do conhecimento foram influenciados por esse modelo de pensamento pitagórico. Especialmente a arquitetura e a escultura, que, na maioria das vezes, baseiam seus objetos de criação em relações de proporções e estética. Inclua-se ainda no pacote a física e a medicina.

Não importa o estilo

“À medida que as ideias de Pitágoras são demonstradas – auditivamente –, tudo aquilo que ele estava falando se torna mais facilmente compreensível. E, portanto, mais facilmente empregável”, traduz Cynthia. “Dizer que um conhecimento desse pode mudar o ser humano é complicado, embora eu, particularmente, acredite que sim.
O que posso afirmar é que a ideia das vibrações pode ser aplicada no tratamento humano.” A profissional classifica os pitagóricos como os primeiros musicoterapeutas. “A música é dividida em consonância e dissonância. E essas articulações podem afetar o ser humano”, explica. “Uma prova disso é que, se há dois violões numa sala, basta tocar a nota Mi em um dos instrumentos para que o outro vibre também. É o chamado movimento simpatético, de ressonância entre as coisas. A música causa vibrações físicas que, mais do que sensíveis para o homem, podem organizar as emoções dele”, sintetiza.

Som e virtude Com seu alto poder de ordenamento material e imaterial, como dizia Pitágoras, a música pode ajudar ainda na beleza dos gestos em sociedade. Portanto, na civilidade. Assim, na Grécia antiga, a educação musical foi extremamente valorizada. Uma vez que seu objetivo é conferir ritmo, harmonia e temperança à alma,
tocar um instrumento, aprender noções de musicalidade, seria um meio de influenciar beneficamente o caráter dos indivíduos. Platão ressalta essa ética em muitos de seus trabalhos - sua preocupação primordial era formar cidadãos atentos desde muito cedo para buscar a verdade, praticar o bem e contemplar o que é belo.
“Platão, aliás, considerava a música importante para o equilíbrio do Universo. No entanto, não permitia qualquer tipo de música. É Aristóteles, seu discípulo, quem amplia essa compreensão”, esclarece Cynthia. “Aristóteles desengessa essa teoria e a expande quando diz que ‘Nada está no pensamento que não passe antes pelos
sentidos’”, compara a pesquisadora.

Segundo ela, que também é flautista, fazemos música há muito tempo, desde antes de ao menos sabermos o que significava aquilo. O gesto de beliscar as cordas de um violão, por exemplo, vem de várias atividades. Uma delas: o beliscar das cordas de uma embarcação. “Ao ouvir o tom das amarras, os marinheiros sabiam se o barco estava pronto ou não para zarpar”, descobriu Cynthia em seus estudos. O belisco vai se repetir nas harpas, nas cítaras, no alaúde (que teria sido inventado no Oriente Médio e chegou à Europa durante as cruzadas). Este último, tataravô do violão, foi a estrela da época renascentista. Um pouco antes, durante a Idade Média, o
que se permitia de música era o canto. E o único instrumento admitido era o órgão, que imitaria o sopro divino – já que são tubos por onde o ar passa.

Não importa o instrumento, a região, o estilo, o ser humano sempre fez música para adormecer seus monstros, acessar mundos mais sutis e se conhecer melhor. “E para chegar a uma coisa inexplicável que vai direto ao coração”, conclui Cynthia.

Entenda mais sobre o universo da Grécia antiga Entre os dias 5 e 26 de abril, a musicista e mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo, Cynthia Gusmão ministrará o curso Música e Filosofia na Antiguidade Grega, na Associação Palas Athena (palasathena.org.br). O objetivo do curso é falar de uma das matrizes culturais humanas, a grega, tendo como fio condutor a música, propiciando um mergulho nessa cultura afim de ultrapassar os lugares- -comuns a respeito dela, e perceber as
suas nuances e seus múltiplos dissensos. “Os participantes vão fazer uma viagem no tempo e no espaço conduzidos por obras musicais, ampliando assim a sua experiência de sentir, ouvir e compreender a cultura humana, especialmente as artes, as ciências, a magia e a espiritualidade”, explica Cynthia. O curso é para interessados em geral, mas principalmente para quem deseja conhecer uma nova forma de abordagem, um novo horizonte, algo que não se restringe à racionalidade
e vai além.

08/05/2017 - 09:00

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