Não se trata só de um banquinho...

Juliana Amorim faz banquetas exclusivas pintadas à mão, mas sua história – e a de sua marca – fala sobre muito mais: nunca desistir de ser feliz, por exemplo

Texto: Kátia Stringueto / Fotos: Paulo Santos

Juliana Amorim | <i>Crédito: Paulo Santos
Juliana Amorim | Crédito: Paulo Santos
Em uma rua tranquila do paulistano bairro de Perdizes, a placa indica: Ateliê Ju Amora. Você entra e é recebido por Juliana, seu sorriso largo e um ambiente instantaneamente agradável. Bastante iluminado, com o aconchego da parede de tijolinhos descascados, plantinhas aqui e ali (uma delas com a palavra “respire” no vaso) e diversos bancos. Um pintado com o rosto de Pagu, outro com o de Frida Kahlo, mais um com a frase “The Future is Female”, para citar alguns exemplos. Há grandes, médios e pequenos. Pendurados (e um desenhado) na parede ou arrumados no chão, todos sugerem: é para ficar à vontade.

Em março, aniversário de 31 anos de Ju, o ateliê completa dez meses. Novinho, novinho. Mas será que é isso que faz a energia ali ser tão boa? Senta, que a história da dona explica.

Tudo começa com um feliz acaso – daqueles que coroam muita batalha afinando a percepção para sintonizar os sinais que a vida dá. Durante uma viagem a Paris, Ju foi ao cemitério Père-Lachaise, templo que desde a infância queria conhecer porque um amigo da família falava muito a respeito. Lá estão sepultados poetas, escritores, músicos, pintores – de Proust a Oscar Wilde, de Maria Callas a Jim Morrisom, de Delacroix a Modigliani – e muitas outras personalidades que sempre fascinaram a atriz de
formação, apaixonada pelo teatro e pela arte. “Estava em um corredor quando vi uma pedra sobre um túmulo segurando um bilhete. Aquilo foi como um ímã para mim e fui até lá ver o que estava escrito. Era a lápide de Modigliani, e o bilhete – na verdade, um cartão-postal – tinha a seguinte frase do pintor: ‘Seu real dever é salvar o seu sonho’”, lembra ela, rindo. “Eu estava sem emprego, sem grana, e quase desisti da ideia de ir a Paris [Ju acompanhou seu marido na época, o artista Loro Verz, que
tinha sido chamado para uma exposição]”, conta. “Mas aquela frase mudou tudo.” Aquela frase, ou sinal, devolveu a autorização para a jovem seguir em frente na missão de encontrar uma atividade em que trabalhasse feliz.

“Sou filha de comerciantes, criada atrás de um balcão, e meu negócio era lidar com gente, vender, e ao mesmo tempo mexer com arte”, diz. Ela já tinha trabalhado em lojas de móveis indianos e galeria de arte, participado de feiras de design, e, logo depois daquele dia no Père-Lachaise, veio o questionamento: “O que eu gostaria
de ter em casa e que todo mundo pode gostar e precisar também? Banquetas!”, pensou. “Pesquisei na internet e não vi ninguém fazendo aquilo, o que me deu mais coragem ainda pra começar. Forrei alguns, vendi. Depois vi que era mais legal personalizar de acordo com a história de cada pessoa.”

Foram dois anos árduos tentando– enfrentando, inclusive, a preocupação dos queridos. “Você vai viver de pintar banquinho, menina?” Ninguém entendia que ela queria fazer disso seu emprego formal. “Como não tinha dinheiro, pintava o mesmo banco 15 vezes, de diferentes formas, para fotografar e ir criando um portfólio. Abri uma página no Face e mandei uma mensagem para minha lista de amigos convidando-os, um a um, a conhecer meu trabalho. Vendi algumas peças na loja da minha mãe, bati na porta de outras lojas, que não gostaram da proposta, até que a galeria Urban Arts me deu o primeiro sim”, conta. Depois veio um pedido da Westwing (de vendas de objetos de decoração online): duzentos bancos! “Quando o caminhão com as banquetas cruas chegou e começamos a descarregar, não contive o choro. Foi o nascimento, de fato, da marca”, lembra Ju, que logo depois estaria se separando do marido e precisaria fazer nascer também a vida a sós.

“Ao passar por Perdizes, vi esta casa. Ela estava destruída, com astral pesado, paredes marrons, onde está o jardim era um depósito, cheio de entulho, mas alguma coisa me disse que eu seria capaz de transformá-la e ser feliz. Só que trouxe meus pais para verem a locação e ficaram tão assustados que acabei desistindo. Outra pessoa
alugou. E três meses depois saiu. Aquilo me encheu de ânimo, parecia que a casa tinha me esperado. Tendo ao otimismo, então tive a certeza de que este lugar era para ser meu”, ri. No dia da inauguração do ateliê, quando viu os convidados chegando, a confiança na marca já estava sedimentada. A emoção só não deu trégua e transbordou na hora que seus pais, maravilhados com o que viam, confirmaram: “Filha, você conseguiu”.

A casinha é resultado de tudo isso que Ju viveu. Nãos, dificuldades, muros para quebrar. “Não sei quanto tempo vou ficar aqui. Mas, enquanto estou, é uma troca. Uma amiga diz que a casa deve estar supergrata porque agora é cuidada. Antes, estava esquecida”, diz a artista. Ju sabe que a ideia dos banquinhos pode esgotar. Por isso não para e diversificou sua atuação: dá oficinas de criatividade, criou kits de banquinhos para crianças pintarem e agora também faz ilustrações em paredes. Essa é a tônica de sua mais nova marca, a Garota Silvestre. “Tudo vem em decorrência de uma certeza: quanto mais estou em sintonia com quem eu sou, quanto mais prazer eu sinto, mais eu crio”, diz. E mais as coisas parecem fluir.


17/04/2017 - 09:00

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