Na arena do bom combate

Ex-boxeador amador, o antropólogo inglês Luke Dowdney se vale das artes marciais e da educação para dar outro horizonte aos pequenos cidadãos acuados pelo crime e pela violência na capital carioca

Foto: Harry Dowdney / Texto:Raphaela de Campos Mello

Luke Dowdney | <i>Crédito: Harry Dowdney
Luke Dowdney | Crédito: Harry Dowdney
Aos 22 anos, o londrino Luke Dowdney desembarcou no ensolarado Recife. Era 1995. Seria compreensível se ele tivesse se regalado com as belas praias da região e com a atmosfera festiva da cidade. Mas não. O então estudante de antropologia social pela Universidade de Edimburgo, na Escócia, tinha uma missão muito séria: investigar a situação das crianças de rua para a dissertação de mestrado. “Três crianças foram mortas durante a minha pesquisa e me vi bastante envolvido com aquela dura realidade”, conta.

Finda a pesquisa, o britânico retornou a Edimburgo. Já planejando um retorno ao Brasil. Em 1997, o boxeador amador, campeão no circuito universitário, dirigiu-se ao Rio de Janeiro, onde se estabeleceu, levantou a guarda da resiliência e sonhou grande. Algo precisava ser feito para além dos muros da universidade. No ano 2000, com apenas
15 alunos instalados na Associação de Moradores do Complexo da Maré, nascia a ONG Luta pela Paz, que combina boxe e artes marciais com educação e desenvolvimento pessoal para desabrochar o potencial de crianças e jovens de 7 a 29 anos em comunidades que sofrem com o crime e a violência. Sete anos depois, surgia a filial em Londres.

Newham, no leste da capital inglesa, foi o bairro escolhido devido aos altos índices de criminalidade juvenil, pobreza e falta de escolaridade. Em 2011, nova vitória.
O Complexo da Maré recebia dois outros polos da Luta pela Paz para que mais moradores pudessem ter acesso aos programas da ONG. Quem entra nesse ringue de
crescimento e esperança é amparado por cinco pilares bem definidos: esporte, educação, empregabilidade, suporte social e liderança juvenil.

A porta de acesso é a prática de boxe e artes marciais, que promove autocontrole, sentimento de pertencimento e autoestima, além do respeito e da disciplina. Uma vez integrados, os aprendizes podem se servir à vontade de reforço educacional, orientação vocacional, cursos profissionalizantes e encaminhamentos para o mercado de trabalho, além de assistência social e da possibilidade de fazer parte dos Conselhos Jovens, encarregados de aflorar o protagonismo juvenil. Os representantes, eleitos pelos próprios colegas, discutem e formulam políticas específicas para a Luta pela Paz. Nesse posto, os alunos entendem o que é ter uma voz que espelha os interesses da maioria.

“Os valores que norteiam as lutas são verdadeiros agentes de transformação social”, defende Dowdney, se referindo à disciplina, à dedicação e ao respeito. Toda a estrutura oferecida pela entidade se baseia no que o antropólogo batizou de “teoria da mudança”, segundo a qual o comportamento e as escolhas dos jovens estão ligados diretamente à forma como eles se veem, se relacionam com os outros e enxergam o futuro.

estratégia de ataque não poderia ter sido mais certeira. Hoje a Luta pela Paz está presente em 25 países e, através de 148 organizações parceiras, beneficia mais de
250 mil jovens em todo o mundo. “Nosso objetivo é prepará-los para enfrentar e superar os desafios do cotidiano. Queremos que eles sejam campeões no ringue e
também na vida”, esclarece o inglês. As estatísticas mostram que os alunos estão rumando nessa direção. Segundo pesquisa realizada em 2014 com os matriculados
das academias cariocas, 100% se sentem mais confiantes sobre o futuro, 87% se sentem mais confiantes sobre si mesmos, 87% cooperam mais com os demais e 82%
se sentem mais calmos, sem falar na melhora do rendimento escolar e do comportamento dentro e fora de casa. 

“Agora tenho um objetivo.” “Sei aonde quero chegar.” “Serei alguém na vida.” Assertivas como essas estão na boca de jovens que poderiam perfeitamente se encolher em face do tráfico de drogas, do medo e da descrença. “A questão social é relevante, mas a situação que mais nos prejudica em nosso cotidiano são os tiroteios”, desabafa Dowdney, sem cogitar desistir do seu projeto. “É o que digo para mim e para os outros frente a qualquer dificuldade. Acima de tudo, prevalece nossa persistência em sermos relevantes na história dessas pessoas.”

Pessoas como Paulo Vinícius, o Paulão, 25 anos, que frequenta a unidade do Complexo da Maré há dez anos. Apaixonado por judô e jiu-jítsu, o dono de 25 medalhas nessas modalidades sonha com vontade. “Quero ter uma carreira no esporte, fazer faculdade de educação física e ser campeão de MMA.” Em um mundo desigual e
carente de oportunidades, jovens como Assim Beg, frequentador da academia de Londres, encontram na iniciativa o esteio que, não raro, lhes falta na família e na sociedade. “A Luta pela Paz é minha segunda casa, me dá confiança para atingir meus objetivos e tem mostrado que eu sou a única pessoa capaz de mudar minha vida”, revela. Antes de começar a treinar, ele confessa, não tinha a quem recorrer. “Aqui você sempre pode contar com alguém”, garante.

Há casos felizes em que a entrada de um garoto na instituição afeta toda a dinâmica familiar. Foi assim na família de Katlyn Rose. Em 2010, orientada por um psicólogo, ela levou o filho Herbert, então com 9 anos, para a academia da Maré. O menino era muito agitado e gostava de bater nas pessoas. “Aqui eles ensinam que a luta é um esporte, não uma briga, e que quem luta não briga”, relata. Certa vez, Herbert brigou na rua e, por esse desvio de conduta, foi proibido de treinar por um período. A lição foi assimilada. Hoje, aos 15 anos, o jovem estuda e treina. Está mais defendido dos perigos da rua que ainda ameaçam o futuro de boa parte de seus
amigos de infância. Os progressos do primogênito encorajaram a mãe a apostar no muay thai. De 2014 pra cá ela já ganhou duas medalhas e um cinturão. Os outros três filhos também entraram no ringue. Com o foco e a determinação afiados pelos treinos e torneios, a lutadora sabe bem o que deseja: “Sair da comunidade, morar
em um lugar sem tiros e proporcionar um futuro melhor para as crianças”.

O mentor dessa cadeia de desenvolvimento humano e social segue considerando o plano maior. Como bom antropólogo, ele acredita que a paz e a dignidade sonhadas por tantos dependem de, pelo menos, cinco fatores. Um governo responsável, que sirva a população, segurança pública efetiva, um sistema refratário à corrupção, mais oportunidades de educação e emprego e uma distribuição mais igualitária da riqueza entre as raças, os gêneros e as diferentes camadas socioeconômicas.

Aquele jovem de 22 anos inconformado com a falta de horizontes angariou muitas vitórias. Dowdney é autor dos livros Crianças do Tráfi co: Um Estudo de Caso de Crianças em Violência Armada Organizada no Rio de Janeiro (2003), sobre o envolvimento de menores de idade em facções do tráfico; e Nem Guerra Nem Paz (2005), que compara a violência armada envolvendo crianças e jovens em dez nações dos quatro continentes, ambos pela editora 7 Letras. Em 2014, em reconhecimento ao seu trabalho, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Edimburgo e, das mãos da rainha Elizabeth II, o título MBE (Member of the Most Excellent
Order of the British Empire). Mas o obstinado lutador está pouco preocupado com os louros pessoais. Prefere seguir aperfeiçoando seu mais importante combate. “Trabalhamos com pragmatismo e preparo para sermos os melhores em tudo que fazemos”, finaliza.

Luke Dowdney
Idade: 44 anos
Função: fundador e diretor da ONG Luta pela Paz
Como se define: um cidadão que só quer servir
Mantra: nunca desistir
Como gostaria de ser lembrado: como um trabalhador dedicado 
Eu tive um sonho... “combinar boxe e artes marciais com educação e desenvolvimento pessoal a fim de desabrochar o potencial de jovens em comunidades que sofrem
com o crime e a violência”

Manual do sonhador

Luke Dowdney transformou a indignação em potência criadora de uma nova realidade. O psicólogo Marcelo Rosenfeld analisa algumas das características que fizeram sua luta gerar tantos frutos 

1: Ainda bem jovem, ele soube capitalizar seus conhecimentos e sua experiência para criar um projeto ambicioso que envolve diálogo entre diferentes.
2: O segredo talvez tenha sido partir de um repertório que dominava (o boxe), pensar grande e nunca desistir. Foco, disciplina e paciência foram suas guias.
3: Luke desenvolveu uma aguda visão de processo, o que faz com que não espere resultados imediatos e aprenda com os erros cometidos.
4: Por empregar seus valores como o norte para definir condutas, tem flexibilidade para adaptar as práticas às diferentes realidades culturais.

11/07/2017 - 09:00

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