Memória das coisas

Entender que nossos objetos são repletos de histórias e afetos podem nos ajudar a ter uma relação melhor com aquilo que possuímos e a viver com o necessário. Nem mais nem menos

Texto: Daniel Vilela

Memória das coisas | <i>Crédito: iStock
Memória das coisas | Crédito: iStock
“Nossas coisas carregam de valor histórico nosso espaço cotidiano e nos permitem sentir que nossa existência se dá em um lugar onde se desenvolve um continuum histórico do qual também fazemos parte”, diz o professor Carlos Etchevane, arqueólogo e doutor em geologia quaternária e paleontologia humana pelo Muséum National D’historie Naturelle, em Paris. Desde que nos entendemos por gente, os objetos que carregamos por toda a vida nos ajudam a contar a história de quem somos, a formar
nossa identidade e a moldar como nos apresentamos ao mundo. E o melhor: isso pouco tem a ver com os seus valores em dinheiro, mas com os laços que nos atam a eles.

As coisas que nos cercam, é preciso entender, não são feitas unicamente de matéria. “Elas têm também uma carga simbólica para quem as produz e as usa”, afirma o professor Etchevane. Esse é o ponto exato capaz de transformar cada peça de um antiquário, por exemplo, em uma história única. Não são relíquias distantes, protegidas por vidros blindados de museus. São objetos marcados pelas relações do dia a dia, em uso, que nos ajudam a localizar memórias como pequenos fósseis que carregam narrativas repletas de afeto e de paixões.

A teórica canadense Laura Marks se dedicou a entender como esses pequenos fósseis atuam no nosso cotidiano. Em seu livro The Skin of the Film (sem tradução para o português), ela analisou diversos filmes procurando entender como objetos cenográficos podiam ajudar a contar histórias e afetar os sentidos dos espectadores. A solução soa engenhosamente simples. Nossas coisas funcionam como um reservatório, acumulando tudo o que ali despejamos: nossas dores, alegrias, um dia triste e outro alegre, um beijo.

E isso tudo não é só coisa de cinema. “É possível observar essa relação entre os nossos sentidos, a memória e os objetos agindo em outras instâncias da arte e da
vida”, afirma Laura. Para isso, nada de esconder aquele velho anel em um cofre ou esquecer aquele casaco herdado dos avós dentro de um armário. Assim, eles são
apenas fósseis comuns, isolados da luz, sem poder para contar suas lembranças.

A grande diferença entre os nossos fósseis e aqueles dos museus, para Laura, é que nossas coisas possuem uma propriedade que ela chama de radioatividade.
“Gosto de pensá-la como uma forma benigna de contaminação, como a que acontece quando um perfume demarca o caminho de alguém”, afirma ela. Assim como um cheiro nos lembra da presença de uma pessoa, um objeto pode trazer à tona sentimentos e lembranças que jurávamos soterrados lá dentro da gente.

Ao tirar aquele casaco antigo da gaveta, mais do que receber um longo abraço que rememora a todo o tempo a relação com os avós, somos levados a dividir essa
sensação com os outros. Entender isso nos ajuda a ter uma relação de posse “menos fetichista”, para usar as palavras de Laura, com as nossas coisas. Elas não são exatamente “nossas”, mas uma colagem que reúne um pouco de cada um que já esteve ligado àquele objeto.

Uma mesma moeda Sim, às vezes, para preservar um bem, o escondemos. “Quando você tem medo de usar qualquer coisa, é lógico que ela vai terminar em cacos”, afirma o galerista Lélio Cimini, que comanda o Empório das Artes. No seu dia a dia, Lélio usa um antigo aparelho de jantar. Claro, um objeto pode perder o seu valor de venda ou de troca pelo desgaste, mas ele não se torna especial exatamente pelo seu custo. Pratos e xícaras que um dia participaram das festas de alguma senhora do século 20 hoje são testemunhas do cotidiano de Lélio.

São essas memórias que tornam único o objeto. Muitas vezes, também é essa mesma experiência que nos leva a nos desfazer de determinado objeto. “Quando
comecei o Empório, boa parte das coisas veio da minha coleção pessoal”, comenta Lélio. “Fiquei apenas com aquilo de que não conseguiria me desfazer, pelo apreço”,
diz. Esquecer e lembrar, como nos faz recordar o historiador francês Michel de Certeau, são faces de uma mesma moeda. Em seu livro A Invenção do Cotidiano, comenta que os processos de apagamento, de esvaziamento da memória, são tão necessários quanto os de escrita. Alguns estudos recentes da Universidade de Illinois, inclusive, revelam que o nosso cérebro precisa desse processo de apagamento para reter informações novas. Da mesma forma, necessitamos deixar para trás as coisas que já não nos preenchem para deixar o novo entrar. Em seu dia a dia à frente do antiquário, Lélio convive com esses dois extremos. “Lido com a felicidade de
duas pessoas: a que se desfaz do objeto que já não faz mais sentido em sua vida e aquela que vai dar utilidade para ele.”

Talvez, por isso, arrumar os nossos armários soe como uma espécie de rito de passagem. É o momento de decidirmos o que continua conosco e o que não nos serve mais. Fazemos um balanço das coisas, das memórias. Um exercício não só de desapego mas também de aparar as próprias arestas.

*Conteúdo publicado em Vida Simples

18/08/2017 - 09:00

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