Feito para redescobrir o ritmo da natureza

No interior do Paraná, esta morada é testemunha de que gente do mato partilha uma relação singular com o tempo

Fotos: Rodrigo Ramirez | Texto: Izabel Duva Rapoport

Feito para redescobrir o ritmo da natureza | <i>Crédito: Rodrigo Ramirez
Feito para redescobrir o ritmo da natureza | Crédito: Rodrigo Ramirez

Tudo na natureza é um ciclo. O que se planta cresce, o que dá fruto abastece e o que um dia foi forte padece. Essas etapas descrevem muito bem a vida da flora, mas para quem vive no mato servem também como metáfora para a existência do homem. Na
primavera, a natureza brota e germina até o verão, e, no outono, tudo se encolhe e declina para secar no inverno. Com o ser humano não é diferente. É através das estações do ano que o planeta manifesta seu ritmo, e quem vive em meio à natureza vê tudo de perto, enxerga vidas ao redor e comunga com elas enquanto tudo se transforma. “Não só a gente mas a casa também muda quando a natureza muda: aqui sentimos as estações passando, cada uma com suas peculiaridades. O tempo dos besouros que aparecem em bando na varanda, os sapos que moram embaixo do deck, a sinfonia das cigarras, o barulho da chuva nas telhas, o mutirão de vagalumes iluminando o céu sem a luz da cidade, enfim, são muitas coisas que nos fazem ter de volta um ritmo mais natural na vida”, conta a jornalista Daniélle Carazzai, que construiu cada detalhe dessa morada ao lado do marido e fotógrafo, Rodrigo Ramirez. Quando casaram, em 2006, foram morar em um apartamento em Curitiba. Porém, como ambos tiveram quintal em casa na infância, voltar à realidade de pés na grama era um desejo em comum.

“Um dia meu pai nos trouxe um pequeno recorte de jornal com o anúncio de uma área rural de 11 mil m² em Campo Largo (região metropolitana de Curitiba) e resolvemos conhecer. No caminho pensamos em desistir três vezes, mas, quando chegamos ao local, adoramos”, lembra. Não tinha nada, nem luz, nem água, nem esgoto. Só uma cerca de arame farpado, árvores e uma nascente nos fundos. Era sábado e o casal voltou com a promessa de responder o anúncio na segunda-feira. “Mas ficamos tão encantados que dissemos sim nesse mesmo dia”, confessa.

Foram dois anos se instalando, aos poucos, enquanto faziam incursões pontuais nos finais de semana. “A vontade de ficar lá era tão grande que em 2008 construímos uma churrasqueira antes mesmo da casa”, diz Daniélle. Nesse período, o casal começou a repensar a vida. “Quando a natureza chama para perto, a gente se descobre muito apressado na cidade, cheios de tarefas e quase sem tempo”, recorda. O projeto da casa ficou pronto, mas não foi aproveitado. Rodrigo refez o desenho da churrasqueira transformando- a na “churrascasa”, como é chamada – até hoje – a morada de 97 m². Pequena e aconchegante, ela tem grandes vãos que refrescam e mostram todo o verde lá fora. Aliás, reflorestar a área que estava degradada também era prioridade. De lá para cá, a dupla já plantou mais de 300 mudas de espécies nativas verdejando ainda mais o pedaço de terra. Diego, filho de Daniélle que morava com o casal e os dois cachorros (Fidel e Tumi), mudou-se para Curitiba em 2012 deixando seu quarto livre para a realização de um novo ofício da mãe: o de artista visual por meio da cerâmica, pintura e o que mais ela inventasse. Nasceu, então, o Estúdio Boitatá – hoje, conduzido a quatro mãos, incluindo as de Rodrigo. “O ateliê tem uma relação íntima com a casa: era o quarto do meu único filho. E, além dessa questão emocional, existe a sensação de que o ninho não ficou vazio, foi preenchido com minhas emoções que dão forma para a argila e levam meus pincéis a criar com mais
sensibilidade”, conta a dona da casa de cinco cômodos: quarto, sala-churrasqueira, ateliê, banheiro e lavanderia. Tudo lá tem história. “Nossa mesa de jantar, por exemplo, é uma porta doada por uma amiga. O sofá, construído pelo Rodrigo com partes de um guarda-roupa que ele tinha, recebe almofadas vindas do Peru, de onde vem seu pai.” Na área externa, Daniélle e Rodrigo fazem compostagem, reaproveitam tudo o que podem e cultivam diversas plantas, com direito a uma estufa e uma horta – que, com muita dedicação, sempre abastecem o lugar. É que gente do mato é assim: não para de trabalhar, apenas deixa a vida cuidar.

02/02/2018 - 10:31

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