Entre o foco e a distração: a arte de perseverar

Encarar com naturalidade tanto os momentos de entusiasmo como os períodos de desânimo ajuda a tornar qualquer prática de interiorização um hábito. O importante é não desistir

Texto: Marina Fontanelli (Associação Palas Athena)

Entre o foco e a distração: a arte de perseverar | <i>Crédito: iStock
Entre o foco e a distração: a arte de perseverar | Crédito: iStock
Tenha ela viés espiritual ou não, toda prática de interiorização nos faz sentir revigorados. E percebemos o quão benéfico pode ser incorporar essa atividade ao dia a dia. Num primeiro momento, o ânimo e a motivação se mostram capazes de transpor as dificuldades e damos início à tarefa como algo vital à rotina. No entanto, passado algum tempo, fatigados com o peso dos desa os diários, o entusiasmo inicial esmorece e as desculpas para deixar a atividade pra lá aumentam. Alguns chegam a se convencer de que a prática nem é tão transformadora assim. Como lidar com o desânimo que nos contamina e nos afasta do caminho da interiorização?

Árido refúgio

Há muito tempo a humanidade se depara com esse desafio. Na tradição cristã, por exemplo, os monges do deserto – homens e mulheres que perambulavam pela região do Egito por volta do século IV em busca de aproximação com o sagrado – reconheceram os demônios (termo usados por eles) que os afastavam do contato com o mundo espiritual. Entre eles, a acídia, termo originário do grego akedía, que significa negligência, e se associa a sensações como desânimo, preguiça e torpor, além de ansiedade e agitação. Posteriormente simplificada e incorporada aos sete pecados capitais apenas como preguiça. No século IV, esses precursores do monaquismo
cristão (religiosos que se dedicam à vida monástica) eram procurados por pessoas que buscavam palavras de sabedoria e de orientação.“Eles tinham um profundo conhecimento da natureza humana e de si próprios. Isso se devia, em parte, à própria vida no deserto, que oferecia poucas distrações”, explica o monge beneditino
dom Alexandre de Andrade, do Mosteiro de São Bento, em São Paulo. “Nossa vida nas cidades, ao contrário, é cheia de distrações, desfocamos com facilidade e perdemos a habilidade de lidar com os nossos dilemas pessoais. Por isso, com frequência, precisamos buscar ajuda”, compara o religioso. No livro Palavras de Poder (ed. Alaúde), que reúne entrevistas do jornalista Lauro Henriques Jr. com grandes nomes da espiritualidade, o monge beneditino dom Laurence Freeman, do Mosteiro de Cristo Rei, em Londres, e diretor da Comunidade Mundial para Meditação Cristã, afirma que a distração é parte da condição humana e nos acompanha há milênios. “Para o ser humano, sempre foi mais fácil se distrair do que permanecer atento. O problema é que hoje nós aperfeiçoamos a arte da distração, com a saturação imposta
pela mídia e a tecnologia (...). Ou seja, estamos todos cronicamente distraídos”, lamenta o líder religioso que no início de dezembro irá conduzir o seminário Da Aridez ao Florescimento na Associação Palas Athena, em São Paulo.

Eventuais devaneios, contudo, fazem parte da existência. “Não é saudável considerar a vida como uma distração, mas precisamos de momentos de lazer, relaxamento e celebrações. As distrações compõem a vida. Dão cor. A vida não é só foco. A virtude está no meio”, pondera dom Alexandre. Além disso, as distrações podem ser
um recurso válido para descansar a mente. Para lidarmos melhor com a coexistência do foco e da distração, da ação e da contemplação, o importante é parar por alguns minutos e exercitar o silêncio. Já reparou como o barulho e a agitação sugam nossa força de vontade? “Não paramos nunca, não conseguimos ficar quietos e temos dificuldades em deter esse fluxo ininterrupto de atividades. É assim que nos esgotamos tão rapidamente. Não percebemos que perdemos a experiência do silêncio, e que isso é vital para a nossa vida emocional e espiritual”, alerta dom Laurence.

Além de abrir janelas de quietude no dia a dia, para nos alimentar a alma e reequilibrar as emoções, o religioso sugere a prática de retiros. Principalmente no  nal ou início do ano. “O retiro nos faz alcançar profundidade muito mais rápido e nos traz inúmeros benefícios. Uma viagem espiritual para um destino associado à paz
e à natureza, en m, um lugar sagrado, pode nos dar poderosos insights”. E ajudar a recuperar o foco espiritual perdido.

Mantra cristão

Muitos desconhecem, mas há setores da tradição cristã que recomendam a prática de um mantra muito simples: “maranatha”, que em aramaico quer dizer “vem, senhor”. A instrução para essa espécie de meditação é apenas recitar mentalmente as quatro sílabas (ma-ra-na-tha) com o mesmo comprimento continuamente. “Caso se distraia – o que é bem comum no início –, apenas volte a repetir silenciosa e interiormente a palavra, gentilmente, sem ansiedade ou julgamento”, ensina dom Laurence, que recomenda o exercício por 20 minutos diariamente.

O ciclo da jornada interior

É interessante percebermos que esse caminho de busca interior respeita um tempo cíclico, que pode ser mais bem entendido como uma espiral, pois nada retorna ao mesmo ponto. Esse trajeto nada tem a ver com o modo linear progressivo ou com uma escalada em direção ao topo, pois não há um lugar predeterminado a ser alcançado. Quando compreendida em profundidade, essa re exão traz imenso conforto. E fica mais fácil aceitar como sendo natural o vai e vem do entusiasmo e do desânimo.

Até mesmo aqueles que meditam há muito tempo atravessam esses ciclos. “A questão aqui não é a perfeição, mas a perseverança”, incentiva dom Laurence. É por isso que alguns líderes espirituais comparam a prática da interiorização com o treino de uma atividade física. Há dias que estamos motivados, outros nem tanto, mas é no processo e na repetição diária que os resultados se dão. Afinal, não somos máquinas passíveis de serem programadas. “Nossa vida tem um mistério muito maior que rege tudo: o mistério da liberdade. Nessa liberdade, você pode calcular uma parte, mas não é possível manipular tudo. Então, em vez de se frustrar porque sempre há surpresas, o mais sábio é acolher esse elemento misterioso que faz parte da natureza humana”, destaca o monge Alexandre. Apesar de a jornada interior ser um caminho
individual, o apoio de pessoas queridas pode trazer grande motivação. E, se a prática solitária se mostrar penosa, é o caso de participar de grupos de meditação ou de qualquer outra linha que leve à introspecção. Afinal, o espírito de comunidade e a sensação de pertencimento têm a capacidade de renovar – e potencializar – nosso entusiasmo.


09/01/2017 - 09:00

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