Capacetes brancos

Em sua coluna de estreia, Mônica fala sobre sentimentos e reflexões desencadeados logo após um episódio tão particular quanto comum

Texto: Mônica Manir

Capacetes brancos | <i>Crédito: Paulo Santos
Capacetes brancos | Crédito: Paulo Santos
Era um domingo para festejar. Fazíamos dois anos de namoro e estávamos circulando pela cidade de moto. A velocidade era baixa. Nenhum dos dois queria correr. Nenhum dos dois precisava correr. Aconcheguei meu peito nas costas dele. Sol bom do meio-dia. Bora sorrir! Bora viver! 

Foi então que, numa rua mais erma, o domingo virou segunda. Outra moto cortou nosso caminho e dela apeou o carona com uma arma na mão. A transição ocorreu num átimo. Éramos quatro capacetes negociando a forma de passar um bem – a moto. E de não perder outro – a vida. Quando nos demos conta as duas motos seguiam na contramão, cada ladrão em cima de uma, enquanto buscávamos um norte no meio do asfalto. Não havíamos perdido apenas a locomoção. Foram-se os documentos, as chaves, os celulares, os óculos de grau, as fotos de criança da fi lha dele, a medalhinha de Nossa Senhora que ganhei da minha mãe.

Talvez você já tenha passado por situação parecida. Infelizmente, ela não é novidade nas nossas cidades sitiadas. Mas minha intenção, nesta primeira coluna para a BONS FLUIDOS, não é começar com um trauma. É começar com a celebração da vida. Tendemos a achar que nosso comportamento faz diferença em estados de emergência – e, de fato, naquele dia, com calma, cumprimos o script prescrito para as vítimas de um assalto. Parafraseando Cecília Meireles, inutilizamos o gesto possuidor das mãos. Mas há quem deixe levar tudo de material e, ainda assim, lhe tiram a existência. Então só posso colocar as mãos em prece.

 Acalmado o redemoinho, ficam flashes daquele domingo. Um deles é a conversa entre capacetes. Provavelmente nunca saberemos quem são aqueles moços. Nosso retrato falado deles foi pífio. Tinham tatuagens? Provavelmente. Mas isso também não deu para comprovar. Eu me lembrei de um ensaio do fotógrafo Wagner Almeida, de Belém. Moços entre 15 e 19 anos, vítimas diretas ou indiretas do tráfico de drogas, muitos com tatuagens de devoção a dois senhores: Deus e o dinheiro. 

Naquele dia, faltaram nossos rostos inteiros, boca larga ou miúda, sobrancelhas caídas ou em riste, cabelo curto ou nos ombros. E os olhos. Faltaram os olhos. O anonimato mútuo cria lacunas no roteiro. Tenho curiosidade de saber se o moço que pilotava a moto sentia qualquer algo por nós. E se aquele com a arma é agressivo ou se desempenhava um papel. 

Tenho curiosidade em saber suas identidades. Numa sociedade de tantos espetáculos, temos visão lateral prejudicada. Vivemos a miséria da distração pelo celular, do medo. Ficamos alheios uns aos outros.      Se não jogou minha mochila no rio, o moço da arma tem minha identidade. Mas ela acaba de mudar. Tenho um novo documento e registros atualizados daquele domingo: de um casal desconhecido de olhos generosos que nos deu carona após o acontecido; e do abraço forte do meu namorado, os dois com os capacetes brancos em mãos. Bora sorrir! Bora viver!



17/03/2017 - 11:04

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