Camilas, Capitus...

Por vezes, a obsessão por um aval da própria existência deixa de recheá-la com experiências frutíferas que brotam à volta

Texto: Mônica Manir

Mônica Manir | <i>Crédito: Paulo Santos
Mônica Manir | Crédito: Paulo Santos
Dia desses, folheando Machado de Assis, encontrei Camila. “Ela era daquela casta de mulheres que riem do sol e dos almanaques. Cor de leite, fresca, inalterável,
deixava às outras o trabalho de envelhecer. Só queria o de existir.”

Virei a página. Camila, aos 40 anos, tinha ar de 30 e poucos. A questão é que a filha, Ernestina, crescia a olhos vistos. E cada aniversário dela acrescia, por tabela,
alguns números a mais no calendário que a mãe fazia questão de ocultar.

Camila, então, infantilizava a filha para ela própria não amadurecer.

“Dir-me-á o leitor que a beleza vive de si mesma, e que a preocupação do calendário mostra que esta senhora vivia principalmente com os olhos na opinião. É verdade, mas como quer que vivam as mulheres do nosso tempo?” Esse tempo de Machado de Assis era 1883. Foi quando publicou o conto Uma Senhora na Gazeta de Notícias, jornal do Rio, então capital da República. Mas me diga o leitor: como vivem as mulheres no século XXI? Podem envelhecer tranquilamente, por exemplo? Podem se comportar fora da curva? Podem se comportar dentro da curva? Ou continuam preocupadíssimas com o que vão pensar, dizer ou julgar de si? Será essa a eterna ansiedade
de Camilas, Carolinas, Carmens, Capitus? Difícil generalizar. O fio de cabelo branco pode tanto ser o telegrama desesperador da velhice, como diz Machado, como o sinal de que a vida corre para o encanecimento, mas não para o esquecimento. Depende de como conduzimos nossos interesses e a alma ao longo das décadas.


Confesso que me angustia ver tantas meninas, desde cedo, se contorcendo para agradar ao escrutínio alheio. Nesse mundo exasperador das curtidas, o processo é
intenso. Postam uma selfie e checam os polegares pra cima. Não querem opinião, mas aprovação. Aplausos fazem bem, claro. Mas por vezes essa obsessão por um
aval da própria existência deixa de recheá-la com experiências frutíferas que brotam à volta – experiências que não necessariamente precisam ser divididas com toda a
galáxia de olheiros virtuais.

Ocorre que, com o passar da idade, é preciso capitular: ganhamos todas olhos de ressaca. E, de novo, pode ser tanto a vista cansada quanto um olhar cheio de
energia. Não raro, porém, caímos na armadilha do culto ao corpo, às plásticas, às dietas. Conjugar isso dá um trabalho considerável, e me pergunto se não desejamos
atender mais à aritmética de outras mulheres do que ao crivo dos homens.

Eles, aliás, também têm seus escrutínios, talvez tão pérfidos quanto. Mas nosso tema aqui são as Camilas, e a de Machado não conseguiu abafar Ernestina. A filha se casa e logo engravida. Camila aguarda o neto com um misto de amor e repugnância. Quando ele aparece com as flores de setembro, ela se dá conta: avó. E agora, o que vão pensar de Camila? O final está lá, escrito por Machado há mais de 100 anos. Atual, irretocável...

26/05/2017 - 09:00

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