Ao outro, como a mim mesmo

Transcender o egoísmo e estender ao próximo aquilo de bom que desejamos nos permite fazer a diferença e levar o mundo para um ambiente de maior entendimento e paz, defende a inglesa Karen Armstrong, pesquisadora das religiões

Texto: Raphaela de Campos Mello

Karen Armstrong | <i>Crédito: Michael Lionstar
Karen Armstrong | Crédito: Michael Lionstar
A prova de fogo de sua lealdade a determinada religião pode residir na capacidade de participar da dor do outro e de agir de modo a amenizar esse sentimento – definição pura da palavra compaixão. “Nesse estado, retiramo-nos do centro do nosso mundo e colocamos lá outra pessoa. Uma vez livres do ego, estamos preparados para ver o divino”, afirma a inglesa Karen Armstrong.

É por isso que as principais tradições espirituais partilham a mesma Regra de Ouro, proposta primeiramente pelo sábio chinês Confúcio, cinco séculos antes de Cristo: “Não faça aos outros o que não gosta que façam a você”. “Sem isso, duvido que tenhamos um mundo viável para passar à próxima geração”, desafia a pesquisadora, que nos ensina a trilhar esse caminho de benevolência no livro 12 Passos para uma Vida de Compaixão (Companhia das Letras). A primeira providência para se conectar ao próximo é ler, aprender mais sobre o tema da compaixão e assim expandir os conhecimentos acerca dessa causa tão premente. Depois, olhar para o entorno, sua família, sua comunidade, sua cidade. Gente generosa e compassiva persegue brechas para transformações positivas. Não sem antes ser capaz de sentir compaixão por si mesma. “Quem não consegue amar a si próprio não consegue amar aos outros”, sublinha. 

Karen lembra que ninguém está sozinho em seu sofrimento, já que a vulnerabilidade é ponto pacífico da existência. A arte é outra via de sensibilização. “Por meio dela, nos identificamos com realidades diferentes das nossas e ampliamos a percepção”, aponta. A prática da consciência plena também é de grande valia. 

Com a mente apaziguada conseguimos nos distanciar do ego e enxergar as demandas do próximo. Daí desponta a ação, que não precisa ser grandiosa. “Um pequeno ato de bondade pode mudar uma vida”, reforça. Tudo fica mais fácil se abrirmos espaço para o outro, se nos interessarmos por suas particularidades, se validarmos seu modo de vida. Só assim o diálogo pode fluir como via de mão dupla: dois se escutam, dois se consideram. E tudo isso precisa valer para o macro, não só para a nossa aldeia. Precisa valer ainda mais para religiões distintas, numa época em que elas não se entendem e causam grande parte dos conflitos. “A preocupação com todos é um reconhecimento da absoluta igualdade dos seres humanos”, elucida a estudiosa.

Nessa perspectiva global, ter boa vontade para “descobrir o que nos faz sofrer e recusarmo-nos, em quaisquer circunstâncias, a infligir esse sofrimento a outra criatura” é fundamental para um mundo que clama a paz. “A essa altura, alcançamos a etapa do reconhecimento,  ou seja, passamos a sentir a dor alheia quase tão intensamente como sentimos a nossa”, ela expõe. 

Por fim, a lição mais desafiadora: “Ame seus inimigos”, frisa a intelectual, ciente de que tornar-se um ser humano compassivo é projeto para a vida toda. “Podemos falhar quase todos os dias nessa tarefa, mas não podemos desistir.”

Nascida na Inglaterra em 1944, Karen Armstrong foi freira durante sete anos. Ao deixar sua ordem, em 1969, bacharelou-se em literatura em Oxford. Nos anos seguintes se dedicou à pesquisa das religiões. Atualmente, além de escritora, é destacada consultora e conferencista na área de religião comparada. Em 2009, criou o movimento Charter for Compassion, documento em prol da compaixão que está sendo assinado por milhares de líderes religiosos de todas as tradições do mundo. Dentre suas publicações estão Uma História de Deus – Quatro Milênios de Busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, A Grande Transformação e A Escada Espiral, todos pela Companhia das Letras. Mais informações: charterforcompassion.org.


06/04/2017 - 11:29

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