Alimento como caminho para Buda

A série documental Chef’s Table , da Netflix, vai muito além de apresentar os cozinheiros mais estrelados do planeta. Conta histórias divinamente. Como a de uma monja e sua comida de meditação

Texto: Kátia Stringueto

Alimento como caminho para Buda | <i>Crédito: Divulgação/ Netflix
Alimento como caminho para Buda | Crédito: Divulgação/ Netflix
“Com o alimento podemos compartilhar e expressar nossas emoções. É a mentalidade do compartilhar que representa o comer. Não existe diferença entre o cozinhar e seguir o caminho de Buda. Já faz quase meio século que percorro esse caminho. Eu o segui buscando a iluminação. Não sou chef. Sou freira.” É assim que a monja Jeong Kwan abre um dos episódios mais belos de Chef’s Table. 

Cada programa da série retrata a trajetória de um chef em especial. Mas, se o nosso Alex Atala, o italiano Massimo Bottura e o francês Michel Troisgros são exemplos de que a relação entre o homem e a comida é das mais bonitas que se pode contar, o episódio de Jeong Kwan, em um templo budista da Coreia do Sul, é de tirar o fôlego. 

Ela não tem restaurante, cozinha apenas para as irmãs do templo e visitantes. É o cenário onde tudo acontece   e o toque sublime que ela dá à comida (que nada deixa a dever ao restaurante dinamarquês Noma, na crítica de um editor do jornal New York Times) que maravilham o espectador. Comida de templo, ensina a monja, não utiliza alho, cebola e alho-poró porque esses temperos pungentes dificultam a meditação. Prefere-se a cúrcuma, a pimenta-do-reino, o molho de soja. Tudo simples, associado a técnicas ancestrais que ressaltam o sabor. O principal que essa freira acrescenta, no entanto, é afeto. Ela aprendeu a cozinhar observando a mãe. Um dia, aos 7 anos, para agradar aos pais, que trabalhavam duro na agricultura, ofereceu a eles seu primeiro macarrão. Queria fazê-los felizes, agradecê-los.

Todo esse amor ela transmite nas aulas de culinária vegetariana que dá na Universidade de Jeonju. E a quem chegar perto, como aconteceu com o Eric Ripert, do Le Bernardin, um dos restaurantes mais famosos de Nova York. Budista, o chef chegou ao templo por causa da filosofia, e descobriu o que agora a série exibe. “É sobre colocar boa energia na comida. Essa é a influência de Jeong  Kwan”, diz. 

O que encantou Ripert, o crítico do New York Times e, provavelmente, vai tocar você está lá, em quase uma hora do mais puro enlevamento. Tão espiritual, tão zen, tão fundamental.

09/05/2017 - 09:47

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