A arte nas relações

Por que viver junto gera tantos conflitos e insatisfações? O mestre iogue Jivan Vismay entende que a razão é termos nos esquecido do principal: a doação de si mesmo. E sugere como aumentar esse combustível dos bons vínculos

Texto: Raphaela de Campos Mello

Jivan Vismay | <i>Crédito: Divulgação
Jivan Vismay | Crédito: Divulgação
Todo mundo tem uma ideia do que seja se relacionar. Alguns entendem o relacionamento como troca, um constante dar e receber; outros, como caminho de aprendizagem em que as lições inevitavelmente brotam da interação entre duas pessoas. Há ainda quem compare o relacionar-se ao ato de olhar-se no espelho. Esses se veem no outro e assim podem se conhecer melhor. Mas por que, mesmo com tanta compreensão, é tão difícil conviver? 

Na visão do indiano Jivan Vismay, mestre de Shri Vivek Yoga, que esteve em São Paulo, nos deixamos levar por cobranças, exigências e projeções (que só servem para alimentar nossas ilusões) porque nos esquecemos do principal: a natureza dos relacionamentos é a formação de elos. Muita gente simplesmente espera que o outro lhe traga a felicidade de bandeja, quando, na verdade, a intenção de qualquer laço consiste em doar nossas melhores energias para aqueles que nos cercam. “Se esquecemos o objetivo, perdemos flexibilidade. E, com isso, a capacidade de coexistir, de funcionar com o outro”, ele defende. Destaca ainda que receber é consequência, e não foco. 

Por isso, se as coisas desejadas não estão chegando até nós é porque não estamos nos doando o sufi ciente. E muito provavelmente isso está acontecendo devido ao nível baixo do nosso reservatório de boas energias. “Para sermos capazes de nos doar mais, temos que aumentar esse estoque, e não esperar que o outro venha nos abastecer”, esclarece o mestre, que recomenda a autodisciplina, maior prova de amor e respeito por si mesmo, como recurso para mantermos hábitos benéficos. 

Um exemplo corriqueiro de como esse combustível em falta acaba criando conflito: uma mãe está exausta e frustrada porque o fi lho pequeno não a obedece de jeito nenhum. Da escovação dos dentes à hora de dormir, tudo é uma batalha. Como harmonizar essa relação? No entender do jovem guru, essa mulher está desprovida de energia, então procura o atalho do poder: eu mando, você obedece e tudo se resolve sem delongas, como numa relação entre senhor e escravo. Mas esperar que uma criança tenha a mesma compreensão de um adulto só pode resultar em decepção. A saída, Vismay aponta, seria recuperar o objetivo primordial dessa relação, em vez de simplesmente esperar que o fi lho atenda às expectativas maternas e não cause aborrecimentos. “Cabe à mãe ou ao pai lembrar por que quiseram ter fi lhos e ter consciência de que seu papel é expressar – e não impor – aquilo que vivenciaram e experimentaram, o que requer paciência e disposição”, sustenta. 

Se não somos capazes de explicar algo a um ente do nosso convívio, então temos que buscar novas formas de expressão. Ora ser firme (sem ser agressivo), ora terno, quando assim convier. “Na natureza, flexibilidade significa alternância entre sólido, líquido e gasoso”, lembra o indiano. Essa dança ilustra a alquimia de estar junto, química através da qual o nosso melhor encontra o outro. E ambos reluzem como um único ponto de luz. 

Nascido em Haridwar, na Índia, em uma família tradicional de iogues, Jivan Vismay (45 anos) é discípulo do guru Shri Guruji Swami Vivekananda e mestre iogue de Shri Vivek Yoga, corrente que resgata a essência da ioga e atua nas dimensões física (consciência corporal), psíquica (compreensão mental) e energética (equilíbrio do sistema nervoso e das emoções). Também é especialista em meditação, aiurveda, reiki, tantra, vastu e renovação da memória celular. Com essa bagagem, criou o Programa Psychic Stress Management. Atualmente dirige o Centro Shri Vivek Yoga, em Barcelona, onde ministra regularmente retiros e cursos de formação de ioga e aiurveda, além de treinamentos de gestão de estresse. Mais informações: yogashrivivekbrasil.wordpress.com.



15/02/2017 - 10:32

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