Preciosos rituais

Para manter o bem-estar do pequeno, há algumas tarefas repetitivas, mas que podem ser vistas como momentos de puro afeto e intimidade. Veja como explorar essas trocas da maneira mais amorosa possível

Texto: Bons Fluidos Digital/ Foto: Shutterstock

Preciosos rituais | <i>Crédito: Shutterstock
Preciosos rituais | Crédito: Shutterstock
O banho, a troca de fraldas, o ninar, o brincar e o massagear são muito mais do que momentos compartilhados. Ao mesmo tempo que essas atividades fortalecem o vínculo entre pais e filhos, elas estão contribuindo para o desenvolvimento neuropsicomotor do bebê. De acordo com Tiffany Field, diretora do Instituto de Pesquisa do Tato, da Escola de Medicina de Miami, nos Estados Unidos, o toque estimula o desenvolvimento saudável da criança nos aspectos emocional, psíquico e físico. “Além de aliviar o estresse e a ansiedade típicos do bebê, o contato físico tem efeitos positivos no crescimento, na respiração, nas ondas cerebrais, na frequência cardíaca e até no sistema imunológico, ajudando no combate às doenças”, diz Tadeu Fernandes, presidente do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com sede no Rio de Janeiro. A pele é o órgão de transmissão de todas as sensações responsáveis pela coordenação motora, segundo a francesa Marie-Madeleine Béziers, estudiosa do desenvolvimento psicomotor infantil e autora de O Bebê e a Coordenação Motora (Summus Editorial). 

De tão poderosa, a sensação tátil, nosso primeiro meio de comunicação, é sentida pelos bebês desde a fase fetal. A partir da 18ª semana de gestação, o pimpolho já é capaz de reagir ao carinho materno. Assim, desde cedo descobrimos o prazer de ser acolhido por outro ser humano. “O simples alisar da pele da criança transmite amor, confiança, conforto e diz quanto ela é querida”, complementa Denise Gurgel, fisioterapeuta materno-infantil, especialista em shantala (massagem indiana específica para bebês), consultora do sono e de desenvolvimento motor, de São Paulo. Estudos mostram que bebês carentes de contato físico (respeitoso, claro) se tornam mais agressivos e impulsivos no futuro. Também já está comprovado que a taxa de crescimento do cérebro de uma criança em modo de aprendizagem é de 1,8 milhão de novas conexões por segundo ou 100 milhões por minuto. “Quanto maior a quantidade de estímulos ofertada, maior será o número de sinapses formadas. E o toque é um desses importantes estímulos”, esclarece Fernandes. 

Daí porque a massagem é um jeito terno de envolver o rebento na mais confortante atmosfera de amor. Numa comparação entre crianças que receberam esse tipo de cuidado e outras que não foram tocadas, as primeiras apresentaram melhora de cólica, menor irritabilidade, desenvolvimento dos sistemas fisiológico, cognitivo e emocional, sensação de segurança e estreitamento de vínculo com os pais, que puderam entender melhor as pistas emocionais do filhote. A massagem ainda ajuda o bebê a conhecer o próprio corpo e a passar melhor por todas as fases motoras: rolar, sentar, engatinhar e andar. Mas, lembre-se, o carinho precisa ser sutil. Movimentos lineares feitos com suavidade, quase sem tocar a pele do pimpolho, reproduzem a sensação de quando a mãe fazia carinho na barriga e o bebê estava no útero. “E tudo o que nos remete à boa sensação que tivemos dentro do útero de nossas mães nos garante bem-estar por muitos anos”, ressalta Thais Barral, educadora pré-natal, doula e coordenadora do Programa Parto sem Medo, equipe multidisciplinar de parto humanizado dirigida pelo ginecologista e obstetra Alberto Guimarães, em São Paulo. 

“Não podemos esquecer que o bebê vem de um mundo parecido com um ofurô, com temperatura quentinha e agradável”, enfatiza Thais. Em toda e qualquer interação, ela diz, vale observar os cinco Cs do cuidado: calma, confiança, contato, colo e carinho. Acima de tudo, é primordial atender às fases do bebê. Deixá-lo dormir à vontade nas primeiras semanas – período em que o sono impera – e, nos intervalos de vigília, tocá-lo com delicadeza, como se uma borboleta estivesse pousando sobre seu corpinho. “O importante é estar presente, gostando de estar ali, naquele lugar, naquele momento, cuidando do pequeno com amor e dedicação. Eles sentem quando estamos distraídos com outras coisas”, avisa Thais. 

A brincadeira também proporciona momentos prazerosos em família. Mas, em se tratando de recém-nascidos, é aconselhável respeitar o ritmo de cada um, preservando o bebê de estímulos excessivos – a parcimônia é a melhor conselheira. Quando ele estiver maiorzinho e já se sentar, sim, vale se esbaldar. “É muito importante não pular nenhuma fase: rolar, pegar as coisas, levar objetos à boca, cantar, bater palmas, mexer pés e pernas, até ginástica conduzida. Tudo isso é muito benéfico”, destaca a doula, que recomenda brinquedos confeccionados com elementos naturais e de texturas variadas, promotores de grandes descobertas. E com segurança.

Banho bom

Durante o banho, a mágica acontece. A pele dos pais toca a pele do filhote, fragrâncias são liberadas no ar, a água morninha conforta e serena. O momento da higiene, que assegura a limpeza, é, talvez, o principal ritual de troca afetiva. Os pais estão oferecendo à criança uma experiência das mais ricas: pelo contato e pelo conjunto multissensorial. “A hora do banho estimula o bebê por meio do toque e do contato visual direto, assim como a introdução de novas texturas, sons e cheiros, que podem aguçar os sentidos tátil, visual, olfatório e auditivo da criança”, aponta a pediatra Sabrina Battistella. 

Pesquisas mostram que as fragrâncias reforçam a conexão emocional com os pais e ainda estão relacionadas à menor intensidade de choro durante a atividade – cerca de 25%. É importante saber que, apesar desses benefícios todos, o momento do banho não deve durar mais do que dez minutos, conforme recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Afinal, a delicada pele do pimpolho precisa ser poupada de todo tipo de excesso. Para maior conforto do recémnascido, Thais sugere manobras sutis – esfregar o pimpolho nem pensar. E, na troca de fraldas ou de roupinha, a presença de um paninho quente ou bolsa térmica aquecida debaixo do trocador pode ser de grande valia. Assim, evita-se o incômodo do contraste de temperatura. 

A água morninha e o embalo dos carinhos paternos são a maior tradução de proteção possível. Por isso, vale tornar esse momento ainda mais precioso, cultivando-o como uma das horas de maior cumplicidade entre pais e filhos. Sem se demorar muito, procure deslizar suavemente os dedos por todo o corpinho da criança – do pescoço até os ombros e destes até os pulsos; depois do pescoço ao púbis pela frente e das pernas até os pés; a barriguinha pode receber movimentos circulares, no sentido horário. Depois de um banho gostoso, o bebê fica ainda mais relaxado e seguro. E preparado para o descanso necessário. Aí, na hora do sono, Thais recomenda que o filho esteja sempre junto à mãe. “Por que terá suas necessidades primordiais atendidas, não irá chorar e vai adormecer tranquilo”, pontua a doula, que também indica um cheirinho gostoso e relaxante, como o de camomila ou lavanda, para o ambiente de ninar. “Se for necessário, quando chegar o momento de dormir, os pais podem envolver o bebê no colo com contato suave, pouca luz e cantar ou balançar levemente o corpo com respiração calma e tranquila”, ela orienta. Assim, o ciclo de cuidados termina docemente, como os sonhos do bebê.

08/05/2015 - 18:30

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