Você conhece o Eiheiji?

Esse é o nome de um templo em Quioto, no Japão, que reverencia o Mestre Dôgen, grande fonte de inspiração para nossa colunista

Monja Coen | <i>Crédito: Michel Filho / Agência O Globo
Monja Coen | Crédito: Michel Filho / Agência O Globo
No Mosteiro-Sede da Paz Eterna (Eiheiji), há um salão dedicado ao fundador, Mestre Eihei Dôgen Daioshô Zenji, que viveu no século XIII. Na entrada desse salão há um
enorme incensário de cobre, onde um fio de incenso queima durante todo o dia. (...) Na primeira vez que fui visitar o mosteiro, estava com o grupo de monjas em treinamento do nosso mosteiro feminino em Nagoia. Fomos avisadas para que ficássemos sempre juntas; estávamos proibidas de andar pelo mosteiro sozinhas. Um cuidado amoroso e interessante para evitar quaisquer problemas. Iríamos ficar hospedadas por uma semana nesse aposento grande, para praticar zazen (meditação sentada) e ouvir palestras especiais sobre a obra principal do fundador – textos extraordinariamente belos e profundos.

Eu estava maravilhada. Havia sido o sonho de muitos anos chegar até lá. Afinal, tinha me tornado monja por causa de Mestre Dôgen. Foi ao ler seus escritos que me deparei com a necessidade de dedicar o que restava de minha vida a essa prática religiosa. Pedi licença às minhas companheiras para ir ao banheiro. Entretanto, em vez de voltar imediatamente aos aposentos, fui visitar o mosteiro. Corredores imensos, escadarias intermináveis me levaram exatamente ao grande incensário em frente à sala do fundador. Estava comovida, emocionada. (...) Voltando aos aposentos que nos eram reservados, pude observar os monges em treinamento. Ficavam horas e horas caminhando na sala principal, para memorizar com todo o corpo as passagens principais de seus movimentos na liturgia matinal.

Na manhã seguinte, pude compreender o resultado: era um bailado extraordinariamente perfeito e sincronizado. “Monges têm consciência de si mesmos dos pés à cabeça.” Essa frase antiga repercutia agora em mim de forma diferente. Cada gesto, cada passo havia sido muito bem treinado. O som dos instrumentos se assemelhava ao som de um imenso coração.

Durante anos tenho lido, traduzido e apreciado a obra de nosso fundador. Ele perdeu o pai quando tinha 4 anos, a mãe, aos 7, foi criado por um tio e, com 13 anos,
fugiu dessa casa aristocrática para receber a tonsura com outro tio seu, numa montanha de difícil acesso para um jovem andarilho. Tornou-se monge e, até os 18 anos,
permaneceu nesse templo localizado no monte Hiei, em Quioto. Estive lá em 2013, homenageando o mestre.

Sua obra principal chama-se Shôbôgenzô. Shô significa correto; bô é o Darma, os ensinamentos; gen é o olhar, a visão; e zô é o local de guardar coisas preciosas.
Quando, na Índia antiga, Xaquiamuni Buda levantou uma flor e sorriu, toda a assembleia ali reunida, esperando receber seus ensinamentos, ficou aturdida. Apenas um de seus discípulos, Makakashô, sorriu de volta. Então Buda disse: “Eu possuo a maravilhosa mente de Nirvana e o Olho Tesouro do Verdadeiro Darma. Agora o transmito a você”. Essa é minha fonte de inspiração e respeito.

17/07/2017 - 09:23

Conecte-se

Revista Bons Fluidos