O lenhador

A história de um lenhador que virou monge ajuda a entender como o olhar de Buda é profundo e nos envolve absolutamente. Sem fronteiras

Texto: Monja Coen

Monja Coen | <i>Crédito: Michel Filho / Agência O Globo
Monja Coen | Crédito: Michel Filho / Agência O Globo
Seu nome era Daikan Eno. Vivera como lenhador. Assim sustentava sua mãe idosa. Certo dia, ouviu o trecho de um ensinamento de Buda. Fez sentido. Deixou a mãe
aos cuidados de vizinhos e foi ao mosteiro.

No mosteiro havia muitos filhos de nobres. Monges eruditos, letrados. Seria melhor que o lenhador trabalhasse ali fora, separando e limpando o arroz. Depois de certo tempo, o abade pediu a todos que escrevessem poemas demonstrando sua compreensão da verdade. Havia um monge, o braço direito do abade, que todos consideravam muito. Ninguém escreveu nada, esperando que ele fizesse seu poema. O monge escreveu e afixou numa parede, em letras enormes: “O corpo é a moldura. A mente é o espelho. Precisamos mantê-lo limpo para que a poeira não se assente e ele revele tudo como é”.

Todos se maravilharam. Praticar é limpar o espelho da mente para que reflita a realidade. O abade elogiou o poema e todos já o consideravam o sucessor direto.

Contudo, o lenhador, que nem mesmo havia raspado os cabelos, que ainda não fora ordenado monge e vivia limpando o arroz, veio trazer uma porção de alimentos
até a grande cozinha do mosteiro. No caminho, notou a algazarra dos monges em frente ao escrito. “Por favor”, pediu, “leiam para mim o que os alegra tanto.”

Felizes por poder compartilhar ensinamento tão perfeito, leram e explicaram. O lenhador silenciou. Algumas horas depois, quando estava apenas o monge que era
seu amigo, pediu que ele escrevesse ao lado do primeiro poema: “O corpo não é moldura. A mente não é espelho. Desde o princípio, nada existe. Onde a poeira poderia
se assentar?”Sem assinatura, saíram. 

O abade leu. Reconheceu a caligrafia do monge que escrevera. Este confirmou que havia escrito o que o lenhador ditara. O mestre foi até ele e combinaram de se
encontrar à meia-noite, nos aposentos do abade. Lá entregou ao lenhador seu manto e sua tigela e disse: “Fuja. Jamais compreenderão que você é meu sucessor”.
Os atendentes do abade notaram que seu manto desaparecera, bem como a tigela de mendicante – objeto que os monges recebem no dia de sua ordenação –, e pensaram em roubo. Não ouviram o abade. Chamaram um monge que havia sido general antes de ordenado e foram atrás do “fujão”. Daikan Eno correra muito. Cansado sentou-se sob uma árvore. Pendurou o manto em um galho e depositou a tigela sobre uma pedra. Adormeceu. Acordou com o tumulto dos monges que o perseguiam: “Ladrão. Devolva os objetos sagrados de nosso mestre”. “Não roubei. Se querem de volta, podem levá-los.”

O ex-general foi pegar a tigela, mas não a conseguiu levantar. Aproximou-se do galho e tentou apanhar o manto monástico, mas também não teve sucesso. Compreendendo que ali havia algo maior, ajoelhou-se em frente ao ex-lenhador e pediu que o ensinasse. Daikan Eno, que ainda nem recebera a tonsura, tornou-se o
Sexto Ancestral na linhagem chinesa.

21/08/2017 - 09:00

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