Waze da felicidade

No complexo percurso da existência humana, Heloísa Capelas se especializou em desbravar rotas e encontrar sinais que orientem a todos para uma vida plena

Texto: Rosane Queiroz

Heloísa Capelas | <i>Crédito: Divulgação
Heloísa Capelas | Crédito: Divulgação
Como se existisse um aplicativo de GPS capaz de conduzir à felicidade e fosse dela a voz que diz para virar à direita ou à esquerda, o que a coach Heloísa Capelas é mestra em fazer é apontar direções. Não sem antes ela mesma ter percorrido cada palmo de uma rota acidentada. Sua jornada começou quando já tinha duas filhas e a caçula, Beatriz, com 1 ano e 8 meses, repentinamente apresentou episódios de convulsão, seguidos de um coma e sequelas irreversíveis. Foram anos de sofrimento, sem
saber lidar com a situação, buscando médicos e métodos para curar a filha, ao mesmo tempo em que brigava com todos ao redor. Ao mergulhar no Processo Hoffman (conjunto de terapias psicointensivas criado pelo norte-americano Bob Ho man nos anos 1960), Heloísa pôde rever sua história. Passou pelas quatro paradas obrigatórias defendidas pelo método: tomar consciência, comunicar, perdoar e encontrar. Identificou comportamentos herdados dos pais e que repetia na vida adulta. Perdoou a todos e a si mesma. A descoberta também se tornou uma paixão. Hoje, Heloísa Capelas é diretora do Centro Hoffman no Brasil, especializado em desenvolvimento humano. No livro O Mapa da Felicidade (ed. Gente), ela compartilha sua trajetória que ainda seguiu por altos e baixos: a gravidez de mais um  lho, a adoção de uma menina e, por fim, o duro enfrentamento de um câncer de mama.

Vamos imaginar que existe um GPS da felicidade e começar pelo ponto de partida: por que é tão difícil para algumas pessoas responder o que as faz felizes?

Porque a maioria das pessoas não faz ideia da resposta. Tudo é questão de paradigma, de verdades aprendidas. E aprendemos essas verdades na infância. Nascemos com apenas 30% do cérebro pronto. Os outros 70% são formados até o os 12 anos. Os grandões que nos educam dão o norte. Quando os filhos são pequenos, os pais adivinham o que eles precisam. O bebê reclamou? É fome. Chorou? É manha. Depois os educam, enquadram, adaptam – e, na pior das hipóteses, adestram. Assim, seguimos para a vida com essa lição de casa, sabendo quais expectativas atender, mas sem identificar aquilo que realmente nos satisfaz. “Ser feliz? Como assim?” Esse é o lugar onde as pessoas travam.

Todas as infâncias deixam marcas?

Boas e más. Porque é quando aprendemos os principais valores e comportamentos que nortearão nossas escolhas. No lugar da infância, ganhamos as primeiras noções
de sobrevivência sobre as emoções, sobre como reagir a elas, expressá-las. Levamos esse conteúdo vida afora, muitas vezes de forma inconsciente. Como resultado, tendemos a imitar aquilo que aprendemos ou fazer o oposto. Seja como for, enquanto não temos consciência desse processo, ele pode eventualmente trazer prejuízos.

Então como “engatar a primeira” e marchar para a felicidade?

O que me impede de ser feliz são as verdades que não são minhas e que nunca contestei. É necessário, portanto, voltar para questionamentos primários. No meu livro, começo com perguntas simples: “Você prefere doce ou salgado? Quando precisa de ‘combustível’, ou motivação, come um brigadeiro ou uma torta de palmito?”. Porque temos um departamento de recompensa no cérebro, que nos dá pistas. Uma vez respondi a um questionário sobre o que mais me deixava satisfeita. Disse que era “andar à beira do mar ao entardecer”. E quando fora a última vez que eu tinha feito aquilo? Um ano e meio atrás. Percebi, então, que não era verdade que o que mais gosto é andar à beira-mar. O que mais gosto de fazer é trabalhar. Senão teria dado prioridade aos passeios na praia.

Você indica quatro paradas essenciais nesse caminho: tomar consciência, comunicar, perdoar e encontrar. Fale mais sobre essa primeira, antes de seguirmos.

A gente não consegue mudar nada se não souber onde está. Como num mapa, primeiro você se acha nele, para depois traçar o rumo. Tomar consciência é saber que aprendeu daquela maneira, portanto, não é você quem está errado. Sou egoísta, mas com quem aprendi a ser assim? Se fui construído, posso desconstruir. Se aprendi,
posso desaprender. Esse é o passo um.

Se tudo está ligado à influência de pai e mãe, voltamos a Freud...

Totalmente. Sempre tem pai e mãe no meio. Somos repetição. Somos uma árvore, a raiz é a infância. O que vemos na vida adulta é o tronco, os galhos, os frutos. Não vemos a raiz porque ela está enterrada. Mas somos a consequência desse broto que ramificou. O problema maior é quando passamos a vida tentando ser maçã, enquanto a raiz é de abacate. Nos sentimos inadequados. Tratamos as folhas amareladas, combatemos as pragas, mas não adianta. Tomar consciência é voltar atrás, aceitar sua
origem e se tornar o melhor abacateiro que puder. É difícil, porque tem de cavar fundo. Eu era agressiva, mas não me achava agressiva. Então quem era assim? Meu pai ou minha mãe (na maioria das vezes é um ou o outro). Depois que descobri, lembrei que eles também tiveram infância, também tiveram que lidar com questões
emocionais deles, ou seja, não foram agressivos de sacanagem comigo. Eu só evoluí quando pude perdoar, principalmente meu pai.

Esse processo a ajudou a lidar com a de ciência de sua filha?

Foi o que me salvou, porque eu lidava com a Beatriz do jeito que meu pai me tratava. Ele era um vilão em casa e um cara legal na rua. Cansei de ouvir: “Queria um pai como o seu”. E eu pensava: “Leva ele...”. Meu pai dizia: “Não me contrarie, porque eu não aguento”. Meus  lhos me viam da mesma maneira. Fui dura com a Beatriz porque não aceitava a de ciência dela. Ela tinha de me obedecer. Só que, embora entendesse minha ordem, não me atendia por incapacidade física, motora, e todas
as sequelas de desenvolvimento que sofreu. Eu  cava muito brava! Ela vivia em um ambiente de terror, como eu na minha infância. Só quando eu compreendi que meu pai também tinha sido um menininho, que teve um pai violento... nossa, percebi que ele, na verdade, tinha se tornado um homem tão melhor! Só não conseguiu
processar tudo... Ninguém é o que é porque quer. Quando o vi como vítima, menino, ele deixou de ser o “tiranossauro”. Quando o perdoei, eu me perdoei. Olhei para Beatriz e falei: “Filha, perdão”. Eu amo você.

A segunda parada antes do perdão, é “comunicar”. Como?

Sim, porque a gente não aprende a comunicar nossos sentimentos. Depois dos 7 anos o aprendizado é intelectual. A escola, em parceria com os pais, só percebe que a criança tem algum problema se ela não performar. Dizem: “Está tudo bem, porque ela só tira 10”. E as emoções vão sendo engolidas. Quando não consigo engolir alguma, sou uma pessoa desequilibrada. Grito mais do que devia, guardo mágoa,  co de mal. Ou então dou pulos de alegria, exagero na dose, para o bem ou o mal.
O que é preciso aprender? A expressar as emoções do mesmo jeito que expressamos os pensamentos. Existem dois tipos comuns de personalidade de quem bloqueou a emoção: o robô e o ator. Os robôs são inexpressivos, blindados. Têm até uma postura visível, andam com a cabeça à frente do corpo, como se estivessem desconectados do coração. Conseguem dizer: “Estou com raiva de você”, em tom impassível. Já os atores fazem drama, choram, vivem no palco. Dizem: “Sou transparente, falo a
verdade, por isso não gostam de mim”. Mas qual verdade, a dele ou a do outro? Os robôs e os atores são ambos insensíveis. O equilíbrio consiste em conseguir
expressar a dor ou a raiva na medida certa, sem agredir.

Como lidar com a raiva?

A raiva pode ser uma coisa boa porque dá limite. É quando você diz: “Não admito que faça isso comigo”. Também funciona como defesa quando estou dirigindo e preciso rapidamente desviar. Sem essa agressividade, não sobrevivemos. Somos patetas. O que faz mal é a raiva contida, que vira uma água parada dentro da gente.
Pior é que geralmente explodimos diante de um inocente que colocou a última gota. Há pessoas que guardam tudo e dizem: “Sou controlada”. Vai morrer cedo. Controle não significa equilíbrio. É poder dizer: “Não vou conversar agora porque estou com raiva e vou acabar sendo estúpido”.

E como se livrar dessa água parada?

Não conheço nenhum método que não seja catártico. A raiva implanta placas de energia no corpo físico. A libertação envolve movimento. Você pode dançar, correr, pular... Imaginando que está deixando a raiva sair em cada gota de suor. Com isso, há um trincamento dessas placas, elas começam a se desfazer. Os sentimentos
só podem ser extravasados pelo corpo físico, seja cantando, escrevendo, praticando esporte.

Perdoar a nós mesmos é essencial no processo...

Sim. Porque coração magoado não consegue perdoar mais ninguém. O movimento primário é a dor. O seguinte, a raiva. A dor me paralisa, a raiva leva à ação. Para me defender, fico nela. O perdão não é possível sem antes liberar a raiva. Ou fica um perdão intelectual. O coração segue ferido. Ficam duas pessoas com raiva se protegendo da dor. Nesse lugar, não há conciliação. Perdoar é de fato calçar os sapatos do outro. Conseguir olhar do ponto de vista dele, onde ele estava, vivendo qual dor, para ter agido daquela maneira. Isso é compaixão. E é importante pedir perdão pessoalmente. Perdão mental não vale. Tem que ir lá, olhar no olho e falar: “Me perdoa”. Lembrando que o perdão não tem nada a ver com reconciliação. E sim com liberdade. Ao perdoar ou ser perdoado, você suspira. Seu coração se liberta. E
libera o outro também.

E quando o caso é “se perdoar”?

Quando consigo pedir perdão, é porque eu me perdoei. Estou livre. Se o outro vai perdoar ou não... é problema dele. Você pode usar o mesmo processo, tentando entender a si mesmo por ter agido daquela maneira. E pedir perdão diante do espelho.

O que mais faz as pessoas felizes?

É ajudar o próximo. E é o que menos a gente faz. Muitos se metem na vida dos outros dizendo que vão ajudar. Mas ajudar é “fazer em prol de”. É como liderar uma campanha de arrecadação de alimentos para uma associação. Se eles precisam de leite, não vou levar geleia. Ajudar não é “fazer do meu jeito”. É compreender o
que o outro realmente precisa.

Você já brigou com Deus?

Durante o meu Processo Hoffman, sim; aqui fora, não. Aqui, eu dizia: “Se esse problema veio para mim, mereço, porque sou má”. Fui a pior filha. Meu pai falava que ficou careca por minha causa. Minha mãe dizia – todos os dias – que ia se matar por minha causa. Isso porque eu mentia e embrulhava todo mundo. Comi pimenta, sabão, apanhei muito. Hoje, entendo que eu precisava da atenção e eles fizeram o pior caminho para me educar, me deram amor negativo.

O que é “amor negativo”?

Bronca também é afeto. Quando brigam comigo, estou sendo amado, cuidado, às avessas. Minha irmã era a filha boa, fiz a filha má. E ganhei muito mais audiência. Meu pai punha meus três irmãos para dormir e  cava só comigo. Me fazia escrever “Não vou mentir” mil vezes. Hoje sabemos que isso não funciona neurologicamente. Teria de escrever: “Digo a verdade”.

Como mudar um padrão de comportamento negativo para o positivo?

Antes de tudo, revendo a forma como tem se posicionado diante das situações. A auto-observação constante vai mostrar a direção e em quais pontos precisa melhorar. Ser positivo é receber o que a vida lhe traz, quando ela traz. Surgiu um amor? Ame, mas ame do fundo do seu coração (se ficar com o pé atrás e com medo de se magoar
ou ser abandonado, não haverá entrega). Se passar por uma grande perda, chore, e chore muito, porque perder é doloroso e triste. Ser positivo é respeitar o seu corpo e lhe oferecer o que é útil, saudável e saboroso. É saber que nosso jeito de ser talvez agrade a uns e desagrade a outros, e tudo bem. É nosso jeito de ser. Ser positivo, ético, é assumir a responsabilidade pelo seu comportamento.

Quais são as quatro inteligências que o método Hoffman defende?

As inteligências são: corporal, emocional, intelectual e espiritual. Primeiro temos a corporal, concreta, palpável. O que temos de verdade é nosso corpo físico. Portanto, ele é o depositório de todas as inteligências. A emocional é a que para de crescer aos 7 anos, porque o investimento se dirige para o intelecto, que concentra a capacidade cognitiva. Se o intelecto fica grande demais, lá vêm os cabeções: “Penso, logo existo”. O equilíbrio está em fazer com que o emocional e o intelectual
atinjam o mesmo tamanho, porque todo pensamento gera uma emoção e todo sentimento gera um pensamento. Os neurocioentistas começaram a considerar o emocional de 1998 para cá. O Bob [Hoffman] falava disso já em 1967. Além disso, temos dentro de nós um brilho, o ser espiritual. Essa inteligência não tem programação. Pai e mãe não mexem. Você nasce com corpo e espírito. O que vem junto? Todos os seus talentos. Essa luz é a parte divina. É a inteligência que vai buscar sempre o melhor para você. Quando nos perdemos, a localização vem daí.

O que você faz quando se perde ou não sabe o que fazer?

Não faço nada, espero, respiro. Ensino as pessoas a respirar. É a primeira coisa que fazemos ao nascer. Respire! Não tome nenhuma decisão. Espere. Preste atenção. Se estiver conectado, vai ver sinais ao redor. “Ah, estou confusa...” Não faça nada. Misture-se à paisagem. A resposta virá.

Como foi o seu encontro com a espiritualidade?

Meus pais se tornaram espíritas no ano em que nasci. Fiz escolinha de moral cristã, similar ao catecismo. Passei a juventude no Centro Espírita, trabalhando em editoria de livros, dando aulas para criança. Sempre acreditei em carma. Depois que fiz o Processo, não precisei mais de religião. Descobri que espiritualidade é conexão. Quando me conectei comigo, à minha parte sábia, descobri que eu era uma boa pessoa. Me dei conta de que tenho um monte de fioozinhos que me ligam às pessoas, ao Universo. Espiritualidade é isso, saber que sou parte do todo. Tudo o que os humanos precisam é de relacionamento. Precisamos pertencer. Encontrei isso.

A quarta parada é encontrar. Então você encontrou.

Sim. Ao rever minha história, perdoei meus pais, me perdoei. Perdão é poder soltar. Depois vem uma liberdade e uma igualdade... Todos merecem perdão, então todos estão livres. Aí, eu me encontro. Encontro amor-próprio, amor pelos outros, amor pela vida, com todas as dificuldades e alegrias que ela apresenta. Essa é a
felicidade possível.

Depois de uma longa história de superação, recentemente você enfrentou um câncer de mama.

Primeiro, eu senti muita vergonha. Como eu fiz isso comigo? Fiquei tão preocupada em atender as pessoas, em ser legal, que não me vi? Não percebi que estava com raiva. Não vi que tinha uma questão pendente com meu feminino. Creio que alimentei um lado “macho” nas atitudes. Cuidava de todos e não me permitia ser cuidada. Mas no fundo queria ser frágil. Isso gerou raiva inconsciente. Aceitar cuidado foi meu melhor presente. A mama é símbolo do feminino, e eu tive uma delas amputada.
Foi horrível, e depois o câncer me devolveu a humanidade. Como se Deus dissesse: “Você também é mortal, tá? Senta lá no teu cantinho”. Foi um tapa na minha crista. Consegui desconstruir o papel da imbatível.

Qual é a sua crença de vida e morte?

Se existíamos antes, se vamos continuar depois desta vida, não sei. O que sei é que nasci e vou morrer. Nesse intervalo, posso amar.

02/12/2016 - 12:42

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