Para viver com mais plenitude

Monja Coen acaba de lançar um livro que toca em um tema fundamental para os dias de hoje: a depressão. Por meio de uma linguagem lúcida, ela nos mostra caminhos possíveis para lidar com essa questão com mais presença e energia de vida

Texto: Mônica Manir

Monja Coen | <i>Crédito: Gil Silva
Monja Coen | Crédito: Gil Silva

De calça, mangas compridas e colete almofadado, Monja Coen recebeu BONS FLUIDOS na sua casa, no bairro do Pacaembu, em São Paulo. Todas as peças que usava eram pretas e, talvez por isso, seu sorriso parecia luminoso. Ou vai ver já estávamos influenciados pelo seu novo livro O Sofrimento É Opcional (Bella Editora), que explica como o zen-budismo pode ajudar a lidar com uma das doenças mais complexas dos últimos tempos: a depressão. A conversa foi temperada com histórias de pessoas devastadas de sentidos que a abordam com sintomas desse mal. Cláudia Dias Baptista de Souza, que antes de ganhar o nome Coen já teve de lidar com o próprio desencanto profundo, não vê caminho fácil. Aos 70 anos, ela lembra que Buda também se deprimiu ao sair de seu castelo de mimos há 2.600 anos e vislumbrou a doença, a velhice e a morte. Levou lá seu tempo até chegar ao caminho do meio, sem excessos ou faltas, apego ou aversão. Nesse processo, a dor é inevitável. O sofrimento? Não exatamente. Para entender essa sutileza, meditar, evitar discussões inúteis, silenciar
e conectar-se com fontes certas ajuda, claro, mas nada como abrir um sorriso ao acordar. “Afinal, você não morreu durante o sono”, diz a budista seguida por quase 190 mil fãs no YouTube. A seguir, Coen discorre sobre o tema em um discurso muito generoso.

Depressão é um mal desse tempo?

Acho que hoje as pessoas têm mais noção da doença. Antes falavam “estou triste e cansado”. Agora existe a palavra “depressão”, que reúne toda essa tristeza, cansaço e desesperança. Não é um mal desse tempo. Quando os índios brasileiros foram escravizados, por exemplo, alguns ficaram sem vontade própria e morreram d de tristeza. O mesmo aconteceu com os escravos negros, quando lhes tiraram todas as perspectivas de vida e possibilidades de alegria, construção, casa e família. Era um sentimento que eles chamavam de banzo.

Quem costuma procurá-la com esse sentimento, esse banzo?

Pessoas de várias organizações (governamentais ou não) me chamam para fazer palestras. Qual o ponto principal? Depressão. Dentro dos órgãos públicos, o maior motivo de licença médica é a depressão. É uma doença que está se espalhando e que parece contagiosa.

É uma epidemia?

É uma epidemia.

E qual seria o principal agente transmissor da depressão?

Penso que estamos sendo atingidos por uma mídia não muito responsável e que nem sempre percebe o que está fazendo. As manchetes costumam ser desagradáveis: criminosos, pessoas fazendo coisas erradas, desastres, guerras e violência. A sensação é de bombardeio por todos os lados. Você liga a televisão e sempre há pessoas falando mal de alguém, criticando algum partido político, afirmando  que o Brasil não tem solução, que está em crise, quebrado e que ninguém por aqui presta. Como não ficar deprimido com isso?

O que as pessoas relatam nas empresas que a convidam para encontros e palestras?

Falam da instabilidade. Não sabem se continuarão empregadas. Percebo que as pessoas concorrem entre si em vez de colaborar, uma querendo a posição da outra. O que deveria ser um lugar de produção, de criatividade, de alegria e de contentamento acaba virando um local de estresse.

Como podemos diferenciar tristeza profunda de depressão?

Primeiro, é importante dizer que não sou especialista em depressão. Mas sei que essa doença não chega de repente. Ela começa com o que chamamos de dukkha, que é a insatisfação. Essa é a primeira nobre verdade de Buda. Insatisfação existe. Não é mentira, não é falsidade. É um desencanto que aos poucos bloqueia a pessoa. Uma jovem me disse esses dias: “O mundo está perdido, a senhora viu o que está acontecendo na Síria?”. Só se ouve essas notícias prejudiciais e que atingem muitos. E, ao mesmo tempo, a jovem vai atrás delas. Não vê que nasceu uma flor em seu caminho, não reconhece o bom relacionamento que tem, não cumprimenta quem deu uma resposta positiva e não percebe que
a maioria das pessoas é honesta, boa e amigável. Por vez, quando percebe, não entra no sistema dela, que só absorve o que é desagradável. Um psiquiatra de Porto Alegre, José Ovídio Waldemar, praticante zen-budista, tem uma expressão de que gosto muito: “A vida nos dá flechadas; nós não precisamos colocar outra flecha em cima e ficar apertando”.

Estamos mais insatisfeitos do que já fomos no passado?

Hoje temos mais conhecimento e repercussão. Mas veja: Buda, há 2.600 anos, já falava sobre isso. Até ele, príncipe, foi insatisfeito. Rico, saudável, inteligente, casado e com um filho, mas, de repente, começa a perceber que existe velhice, doença e morte. Nunca havia pensado sobre isso. Estava vivendo aquela alegria do momento até que passa a refletir
sobre o significado da vida.

Quem não tem depressão sabe lidar com quem está passando por isso?

Muitas vezes não e diz: “Levanta daí”, “Vem pra cá”, “Chega de dormir”, “O que você tem?”, “Vamos rir”, “Sai disso”. Não adianta, não sai. Dependendo do nível, a pessoa precisa de ajuda, de tratamento, de psiquiatra, de psicólogo, de atividade física. Aliás, para chegar numa atividade física, muitas vezes, precisa tomar remédio antes.

Em seu livro, há um destaque para a depressão nos mais velhos. Não damos a atenção necessária a isso?

As pessoas costumam isolar o idoso sem se dar conta disso. Depois dos meus 60 anos, percebi que, se eu estiver numa sala com muitas pessoas conversando, e suponha que nós duas quiséssemos bater um papo nessa mesma sala, eu ficaria exausta. Antes, não me cansava. Hoje, se houver muito som no ambiente, o esforço para manter o foco aumenta. Daí que as famílias se reúnem, todos falando, crianças correndo e brincando, e lá estão o vovô e a vovó. O que eles fazem? Vão se fechando, porque não dá para acompanhar, é muito
cansativo. E o que as pessoas fazem? Colocam os idosos de lado. Se falassem diretamente com essa pessoa, ela responderia. E, muitas vezes, quando o mais velho fala, as opiniões dele não interessam. O que estamos fazendo com esse ser humano? Excluindo. E a pessoa não fica triste? Fica.

O livro traz oito práticas para superar a depressão: a memória, o pensamento, o ponto de vista, a fala, o meio de vida, a ação, o esforço e a meditação. E todos são seguidos da palavra “correta (o)”. O que seria uma memória correta, por exemplo?

Isso é uma tradução dos textos budistas. Estar em contato com o real, sem fantasiar, é o que chamamos de “correto”. O que seria uma memória correta? Não é lembrar-se de ontem.
É lembrar que nada é fixo ou permanente e que estamos interligados. E que existem dificuldades, sim, mas há também um estado de tranquilidade possível de acessar. Foi o que nosso príncipe fez. Ele passou por todas as dificuldades, tanto que abandonou tudo.

Como identificar então os pensamentos “incorretos”?

Vamos comparar nossa mente com um computador. Esse computador já vem com alguns programas, nossa genética, por exemplo.

A genética pode conter programas de depressão?

Sim, pode, mas que outros programas você pode colocar nesse computador? No começo da vida, a gente vai colocando o programa dos nossos pais, professores, amigos, dos livros.
Dizem os neurocientistas que temos apenas 5% de livre-arbítrio; 95% é determinado tanto pela genética como pelas experiências de vida. Então boa parte do que manifestamos
como nossa maneira de pensar foi apreendida. Se não percebo isso, posso pensar como meu bisavô, que comprava escravos. Aí vou lá em Charlottesville levantar a bandeira de que branco é superior. Aqueles meninos foram educados e treinados a pensar dessa maneira. Não nasceram pensando assim. O que é o pensamento correto? Será que eu estruturo fórmulas lógicas de pensar e que levam à realidade? Ou são discriminações, preconceitos, questões que talvez fossem certas há cem anos, mas que hoje não cabem?

Mas como quebrar isso?

Pela observação profunda e comparando. Como eu penso? Esse pensamento veio de onde? Quem me ensinou a pensar assim? Isso leva ao caminho? Ou desvia? Conduz ao bem
do maior número de seres? Ou só traz uma vantagenzinha para mim? Porque posso manipular a mente, tanto a dos outros como a minha.

A meditação é um recurso para mudar pensamentos depressivos?

Quem medita de forma sistemática e por anos tem mais facilidade para resolver questões antagônicas. Precisa de menos oxigenação no cérebro para solucionar dilemas. Resolve facinho, não tem muito drama, porque o corpo já está mais oxigenado. Quem medita teria, assim, mais tranquilidade e confiança em si mesmo diante das dificuldades.

Quais outros recursos teríamos?

A leitura, a discussão filosófica. O que acho interessante hoje é que temos quatro pensadores que estão na mídia. São o Mario Sergio Cortella, o Leandro Karnal, o Luiz Felipe Pondé
e o Clóvis de Barros Filho. Desde quando filósofo “bomba”?

Desde quando usaram uma linguagem mais atraente?

Sim, e desde quando levantaram questões sobre o que é a vida, o que é a morte, que sentidos pode ter a existência. São perguntas básicas que todo mundo estava colocando
sob o tapete. Não quero pensar nisso, vamos brincar, fazer piada. Dá para fazer piada, mas preciso responder a isso – mais ou menos o que aconteceu com o príncipe. Estou brincando no meu castelo, bebo, canto, todo mundo me agrada, faz massagem, que delícia, mas é só isso? O que tem lá fora? Na hora em que sai, ele sofre.

O título do seu livro diz que o sofrimento é opcional...

Sim, é opcional. A dor existe, a tristeza, a realidade. Está tudo lá. Agora, vai ficar num quarto sofrendo? O que faz a respeito disso, ou para entender ou para mudar a si mesmo e, logo, a realidade à volta? É fácil? Não é. Muitos precisam de apoio. Um dos meus alunos disse: “Olha, monja, eu estava em depressão, tomando remédio, e vim para cá. Sabe o que mais me ajudou? A rotina. Era o horário de vir, o pé com que se entra na sala, a posição da mão, a reverência para um lado, a reverência para o outro”. Porque a cabeça está voando na tristeza, no sofrimento, nos dramas, e não na solução disso tudo.

É estar com a cabeça no que se está fazendo naquele momento?

É o ritual de presença absoluta. Às vezes, com a cabeça rodando, temos de falar em voz alta para nós mesmos: “Estou abrindo a porta”. O Dalai Lama diz: “Nossa mente é incessante
e luminosa”. Ela brilha, é energia pura, as sinapses são uma conexão de eletricidade. A pessoa fala: “Meditar é parar isso”. Não é parar. É perceber que há muitas conexões neurais, mas que você pode fazer escolhas. A gente tem de perceber o momento em que não está bom. E que pode sair. Porque a maioria acha que não tem saída.

Há vários níveis de depressão?

Sim, há tristezas profundas em diferentes níveis, mas até a depressão faz parte do que a gente chama de natureza iluminada. É uma fase da vida, e ela é importante. Não tem que passar correndo e jogar fora. Vale apreciar, sentir onde pega, como fica a respiração, como são os movimentos do diafragma, estar presente no que está acontecendo.

Estamos respirando mal?

A respiração consciente está ruim. Na hora em que fazemos a respiração completa, nos libertamos. Começo as minhas palestras e aulas botando todo mundo para respirar. Inspire
pelas narinas, solte pela boca. O pessoal acha lindo. Esquecemos que respirar é lindo. A única forma de suicídio impossível é tapar o nariz. Expirar é o espírito que saiu, inspirar é o que entrou.

É preciso chegar ao fundo do poço?

Às vezes, sim. Mas alguns não precisam. Buda dizia que os humanos podem ser comparados a quatro tipos de cavalos. Tem uns que veem a sombra do chicote e já começam a galopar. Ficam sabendo de um tsunami no Japão, percebem a vida por fio, param de empurrar o dia a dia com a barriga. O segundo tipo precisa levar no lombo. Morre um ator conhecido, fica doente uma personalidade, a pessoa diz: “Nossa, isso poderia estar acontecendo comigo, deixa eu apreciar a vida”. No terceiro tipo, tem que cortar a carne, morrer alguém muito próximo, muito querido. O quarto, tem que ser com a própria pessoa. Alguém chegar e dizer que a vida dela está acabando. “Nossa, mas é tão legal viver. É tão bom! São os últimos dias?”

Queria falar sobre suicídio. O que é achar que não há saída?

A saída seria: “Eu acabo com isso de uma vez”, “Não sei lidar com isso, então dou um fim”. Temos tanto o instinto da vida quanto o da morte, e os dois são fortes. O suicídio é quando o impulso de morrer fica maior que o de viver. Começo a entrar em situações não benéficas, não sei como sair disso e vou afundando. Estamos nos relacionando com pessoas que
têm problemas e que precisariam de tratamento, mas não percebemos. Depois nos arrependemos de não ter insistido no tratamento. Achamos que o amor e a bondade vão salvar
o outro. Não salvam. Nem o zen-budismo salva. Ele pode ajudar, mas não é a salvação.

O que é a salvação?

É despertar, é perceber que a vida tem ganhos e perdas, alegria e tristeza, sol e lua. Quando não consegui morrer [Monja Coen tentou suicídio no passado], eu disse: “Nem isso eu
consigo” [risos]. Nem sobre isso eu tinha controle. Porque a gente acha que tem controle. Interessante é que ali começou a minha procura, com intensidade, por sentidos na vida.

Um dos maiores ensinamentos do budismo é a impermanência?

Sim, sem apego, mas também sem aversão. Parece que chamamos aquilo pelo que temos aversão. É como pessoas que têm medo de cachorro. Quando chegam aqui, o cachorro
ataca. Acho que a depressão tem uma coisa com isso. Encontrei uma menina de 11 anos há poucos dias. Eu preparava o almoço e perguntei se ela estava com fome. Ela disse que não porque estava tomando um remédio para depressão, que tirava o apetite. “Por que você está deprimida?” “Porque meninos estão fazendo bullying comigo”. Eu disse: “Quantos
meninos?” “Um.” Alguém rotula sua aversão, lhe dá um remédio e você toma porque já sabe o que tem: depressão. Não vai tentar mudar isso? Falei pra menina: “Esse carinha provavelmente gosta de você e você dele, porque ele parece muito importante na sua vida”.

Sobre o medo de cachorro... Os animais nos ajudam a sair de um estado de depressão?

Cachorro tira qualquer um da cama. Ele vem, lambe, chama você, põe a pata perto e não tem jeito: nos obriga a sair, no mínimo porque precisa ir ao banheiro. Criança também nos
obriga ao movimento. Vidas que dependem da nossa vida nos ajudam a não cair em tanta tristeza. Como vão ficar sem a nossa presença? Eles são uma bênção.

13/12/2017 - 09:00

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