O chá da paz

Ele pode parecer idealista demais para alguns. Mas não deixe de prestar atenção na profundidade do que diz Satish Kumar. Algo poderá tocar você para sempre

Texto: Karina Miotto

Satish Kumar | <i>Crédito: Divulgação - Schumacher College
Satish Kumar | Crédito: Divulgação - Schumacher College
Satish Kumar é cofundador da Schumacher College, na Inglaterra, um espaço de aprendizagem aberto em 1991 destinado a unir ciência, espiritualidade e estudos ambientais. Paralelamente, desde 1973, edita a revista Ressurgence & Ecologist. Foi lá que conheceu o economista alemão E.F. Schumacher, que mais tarde se tornaria sua inspiração para criar a escola. “Ele me convidou para editar a revista no seu lugar. Eu queria voltar para a Índia e trabalhar com movimentos gandhianos, mas ele foi muito persuasivo: ‘Na Índia já há muitos gandhianos. A Inglaterra precisa de ao menos um’”, lembra o humanista, cuja trajetória já tinha começado muito tempo antes. Aos 20 anos, enquanto tomava café com um amigo em Nova Délhi, viu na TV que o filósofo Bertrand Russell havia sido preso nos Estados Unidos. “Fiquei com vergonha.
Um homem de 90 anos era preso por protestar contra o armamento nuclear e nós jovens estávamos de braços cruzados. Precisávamos fazer alguma coisa”, conta. Fizeram. Caminharam dois anos e meio pela paz sem levar dinheiro ou comida (apenas sachês de chá para distribuir entre os chefes de Estado). “A violência é gerada pelo medo. Se queremos a paz, precisamos confiar uns nos outros, na hospitalidade, no acolhimento”, relembra o mestre, hoje com 79 anos. De Londres, dentro da faculdade que ajudou a conceber, ele nos deu a seguinte entrevista.

O sr. pode começar esclarecendo o que é o chá da paz?

Quando eu e meu amigo saímos da Índia, nosso plano era ir até os Estados Unidos, passando pela Rússia, Inglaterra e França para encontrar com os governantes desses países. Saímos da Índia, atravessamos o Paquistão e o Afeganistão. Ao chegar na Armênia, uma senhora que trabalhava em uma fábrica de chás ficou comovida com a
nossa história. E nos deu quatro caixas de chá para que entregássemos uma a cada líder. A intenção do “chá da paz” era pedir que, antes de usarem armamento nuclear, os chefes de Estado sentassem para tomar uma xícara de chá. Do alto da sua simplicidade, essa senhora mandou um recado aos mais altos governantes.

O que é a paz, professor?

Um estado mental no qual você diz a si mesmo que é parte do universo – e o universo trabalha sob os princípios da harmonia. Então a paz depende da harmonia. Quando você está em harmonia consigo mesmo, em paz com seu coração, você não está em conflito, se basta. Em desarmonia, o que quer que você tenha nunca é suficiente. Isso provoca a falta de satisfação e de conexão, o que cria perda da paz. Portanto, o passo um é criar harmonia e aceitação com você mesmo. Faça
as pazes com você mesmo. Esse é o primeiro nível de paz.

E quais seriam os outros?

Se você se aceita e está em paz consigo mesmo, aceita os outros como eles são. É a diversidade da vida. Toda diversidade é para ser celebrada como riqueza, e não como divisão. Pois a separação pode ser um caminho para a guerra. Aceitar a diversidade – de culturas, crenças, nacionalidades – é fazer as pazes com o mundo. Quando parti de Nova Délhi, na Índia, com meu amigo para iniciar a caminhada pela paz, eu não era um hinduísta que ia encontrar muçulmanos. Não era um indiano que ia encontrar um paquistanês (nossos países, aliás, estavam em guerra). Era um ser humano que ia encontrar outro ser humano. Esse é o segundo nível de paz. Celebremos hindus, mulçumanos, cristãos! O terceiro é estar em harmonia com a natureza. Neste momento, não estamos. Achamos que devemos conquistá-la. Temos derrubado florestas, confinado animais. Como as pessoas serão felizes comendo animais infelizes? Vemos o ser humano como um ser superior. Mas a natureza não está lá só para ser
usada. É um recurso de vida.

Qual é a conexão entre paz pessoal e paz mundial, neste momento em que vivemos?

É muito profunda. Se você vive com ansiedade, inseguro, você verá insegurança no mundo. Neste momento, as pessoas estão obcecadas com sua própria segurança, mas o que não percebem é que ela não vem de vencer a guerra, de ter mais armamentos para se proteger ou atacar; vem de amor, harmonia, paz, compaixão. Se você não tiver segurança interna, não terá a segurança externa.

Como devemos lidar com os medos internos nesta busca por um mundo mais pacífico?

Todas as guerras vêm do medo do desconhecido, do outro. E o antídoto para isso é a confiança. Quando nascemos, não chegamos com nenhum pós-doutorado
para a sobrevivência e mesmo assim o Universo nos provê. Coloca leite no seio da mãe que nos alimenta. Há um sistema tal no Universo que, se existe uma semente de maçã e você a joga no chão, o Universo fará dela milhares de maçãs por dez, 20, 30 anos. Essa é a abundância da qual estou falando, mas que nós ainda não confiamos. Ao contrário, sentimos medo, pensamos “De onde minha comida vai vir?” Tal medo causa falta de confiança dentro de você e, consequentemente, desencadeia falta de paz fora, na sociedade e com a natureza.

Muitos de nós tememos, por exemplo,a crise econômica.

A ideia de crescimento econômico ilimitado também nasce do medo. Muitos se perguntam: “Sem crescimento econômico como vamos sobreviver?” Mas o fato é que não vamos sobreviver porque há crescimento econômico, e sim porque há natureza. Se cuidamos das florestas, do solo, eles vão cuidar da gente. Se destruímos o solo, as florestas, causamos aquecimento global. E daí o dinheiro no banco não vai salvar ninguém.

Em um de seus últimos livros, Soil, Soul and Society – A New Trinity of Our Time (Solo, Alma e Sociedade – A Nova Trindade de Nosso Tempo, ainda sem tradução para o português) você propôs uma trindade para a paz: solo, alma e sociedade. Poderia falar mais sobre isso?

Todos os grandes movimentos têm uma trindade. Comecei a pensar sobre qual seria a nova trindade de nosso tempo, inteira, holística, com visão integral de mundo, e cheguei a solo, sociedade e alma. Coloco o solo primeiro porque tudo vem dele. É como uma mãe, que é fértil e deu vida ao bebê. Somos altamente dependentes
do solo. Sem ele não há casa, comida, nada. Damos como algo garantido, mas ele está adoecendo. Além disso, nos esquecemos que temos alma e não desenvolvemos outras qualidades internas como sentimento de serviço, amor, carinho, generosidade. Ficamos aqui nos esforçando para sermos bem-sucedidos, reconhecidos. E esquecemos de nossa alma.

O que mais poderíamos fazer para sentir e promover essa harmonia?

Gandhi disse: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Comece por si mesmo. Dentro de você tem água, ar, alma, imaginação, você é o universo. Trabalhe sua ansiedade, sua raiva, seus receios e apegos. Liberte-se de todas as coisas que o estão aprisionando. Pense: “Eu posso ser livre, eu sou livre”. Cuidar de nós mesmos não é egocentrismo. Se não me amo, como posso cuidar do outro? O bem-estar pessoal é a fundação do bem-estar social, do bem-estar da natureza. Em seguida, pense ao redor. Quando planta árvores você serve à terra, quando dá comida aos famintos, serve à humanidade. O que quer que faça, coloque-se para além de si mesmo. Gandhi
mudou porque se colocou a serviço da humanidade, assim como Madre Teresa, Nelson Mandela, Martin Luther King, Wangari Matai. Servir ao outro é a chave para todas as coisas que tenho falado. Para criar paz, harmonia, cuidado consigo, com as pessoas e com o planeta. Ao servir os outros, você transforma a si mesmo.

Qual seria a mensagem da Mãe Terra para nós neste momento?

Ela nos ensina o amor incondicional e a generosidade. A Mãe Terra não pergunta se você trouxe seu cartão de crédito para entregar algo. A macieira não pergunta se você é professor, intelectual, se é santo ou pecador. Ela é amor incondicional, vida incondicional, e isso é o que podemos aprender com ela. Com o ser humano acontece
diferente. A gente discrimina: “Você não gosta de mim, então não vou amar você. Você não concorda comigo, então não gosto de você”. Colocamos condições em nosso caminho para sentir compaixão.

No Brasil, a mineradora anglo -austríaca BHP Billiton ao lado da Vale do Rio Doce permitiram o rompimento de uma barragem que distribuiu lama tóxica ao longo do
Rio Doce. Essa lama matou o rio, pessoas, a biodiversidade ao seu redor e chegou ao mar. Como encontrar a paz diante de uma situação dessas, com essa empresa e todos os que parecem protegê-la?

Quando está tudo bem, não há necessidade de trabalhar pela paz. Mas, quando essas mineradoras estão destruindo a natureza, temos uma oportunidade de agir. Gandhi, na Índia, passou por situações terríveis de colonialismo imposto pelos ingleses, que estavam dominando, matando e colocando pessoas na prisão, mas, naquele momento, de forma não violenta e compassiva, ele foi trabalhando e fazendo o que podia pelo fim do colonialismo. O mesmo aconteceu com Martin Luther King
[nos anos 60, em sua caminhada pela paz, Satish Kumar escreveu a Luther King e pediu para encontrá-lo. O ativista, comovido com a proposta do indiano, respondeu a carta e o recebeu nos Estados Unidos]. Negros não podiam entrar em restaurantes onde os brancos estavam, nem comprar ou estudar nos mesmos espaços, nem votar. King lutou contra essa situação de forma pacífica. Hoje vemos um negro na Casa Branca.

Como sentir compaixão quando tanta dor e raiva nos assola?

Se você quiser combater o fogo, deve usar água. Você não pode combater fogo com fogo. Não é possível lutar contra a injustiça com raiva ou medo ou lutar contra mineradoras e empresas que destroem as florestas com violência e raiva, armas etc. Você estaria dando combustível para o fogo.

Qual seria o caminho então?

Temos que fazer um esforço. Meditação, diálogo com outros ativistas, apoio mútuo. [Kumar defende a meditação como um meio de integrar mente e alma, aspectos que são negligenciados no dia a adia e que, por isso, acabam afastando os seres humanos uns dos outros. Daí sua ênfase em corrigir, primeiro, essa defasagem] Se no Brasil há essa mineradora, essa pode ser uma oportunidade para as pessoas se unirem, se organizarem pacificamente, para mostrar coragem, dedicação e comprometimento
em mudar a situação. O negativo precisa ser combatido por meios pacíficos e positivos. E caminhe junto, porque sozinho não é possível fazer um movimento. Solidariedade traz coragem e comprometimento. Ativismo é otimismo.

Mesmo com dor.

Sim. Gandhi sofreu muito. Mas ele também meditou sobre o melhor meio para brigar contra a injustiça. E o melhor caminho não é a não ação, e também não é usando armas. O caminho que defendo é o de usar o poder da não violência. E a história nos confirma isso. Olhe para trás e veja como funciona.

Você acha que todos nós podemos nos tornar Mandelas, Gandhis, Madres Teresas?

Sim, temos esse potencial. A diferença é que essas pessoas usaram a coragem, que é agir com o coração, mas nossa coragem está dormindo e nós precisamos acordá-la, nos organizar, trazer consciência para quem está poluindo, destruindo as florestas, desperdiçando recursos. Eles não sabem o que estão fazendo com a terra, temos que dizer isso a eles. 

Existem muitos movimentos voltados a essa transformação tão necessária. Seria um sinal do despertar da humanidade?

Sim, a humanidade está despertando. Existe um livro muito bonito do Paul Hawken chamado Blessed Unrest [em tradução literal, Bendita Inquietude]. Na obra, ele compartilha com o leitor a informação de que há milhões de pessoas trabalhando por um mundo melhor em áreas como saúde, educação, meditação, fazendas orgânicas. Devido a essa consciência e pressão – e a ciência está conosco –, as mudanças climáticas estão no topo da agenda. Falou-se na conferência do clima, em Paris, sobre energia renovável e redução do uso de combustíveis fósseis. Isso é um sinal de que mesmo os líderes políticos estão acordando, e isso aconteceu por causa da opinião pública. Superpoder é o vínculo, o engajamento das pessoas.

21/03/2016 - 09:00

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