Nietzsche, o zen e o bem

O que acontece quando a filosofia e a espiritualidade somam suas visões em prol do bem-estar da civilização? Três sábios arriscaram a resposta e a apresentam ao público. Conversamos com o filósofo do time, Alexandre Jollien

Texto: Fernando Eichenberg, de Paris

Alexandre Jollien | <i>Crédito: Raphaël Bourgeois
Alexandre Jollien | Crédito: Raphaël Bourgeois
Três bons amigos se encerraram durante nove dias em uma casa no meio da floresta na região da Dordogne, com vista para o Vale de Vézère, no sudoeste da França, com o ambicioso projeto de encontrar respostas a questões primordiais da existência humana. Em suas conversas, o trio, composto do monge Matthieu Ricard, o psiquiatra Christophe André e o filósofo Alexandre Jollien, abordou interrogações de densa simplicidade como: quais as nossas aspirações mais profundas?; como desenvolver nossa capacidade à felicidade e ao altruísmo?; ou como se tornar mais livre? O enclausuramento, na verdade, liberou o pensamento e a palavra dos interlocutores, e resultou no livro O Caminho da Sabedoria – Conversas entre um Monge, um Filósofo e um Psiquiatra sobre a Arte de Viver, best-seller na França e que acaba de chegar a ver, ao Brasil pela ed. Alaúde. Alexandre Jollien sempre procurou usar o aprendizado filosófico em sua prática cotidiana, mas a trajetória intelectual abriu também um afluente espiritual e acrescentou a sabedoria zen. Reconhecido por vários ensaios que tratam de questionamentos do viver, Jollien, que em sua existência se viu desde cedo obrigado a conviver com a adversidade – por causa de um estrangulamento no parto provocado pelo cordão umbilical, sofre de incapacidade motora cerebral (IMC) –, conversou com BONS FLUIDOS sobre alguns dos temas tratados no retiro com seus caros amigos.

Você diz que quando renunciamos à felicidade a qualquer custo é que nos tornamos felizes. “O verdadeiro hedonismo não é renunciar a ser feliz, mas se libertar da vontade sê-lo.”

O que contraria nosso acesso à felicidade vem precisamente de que fazemos disso uma ideia preconcebida, limitada, rígida. A partir do momento em que nos fixamos em algo, n numa imagem de nós mesmos e da felicidade, renunciamos, nos privamos da alegria dada a cada instante pelo cotidiano. Hoje, há um grande perigo que consiste em fazer da felicidade o único objetivo de nossa vida e transformá-la em objeto de consumo. O mesmo é dizer que a felicidade é impossível de encontrar
no ter, no material, mesmo que, como sublinhava Aristóteles, seja preciso de um mínimo de bens para alcançar a paz da alma. Portanto, trata-se de nos liberarmos dos preconceitos que alimentamos em relação à felicidade para abrirmos bem os braços e acolhermos todo o belo e o bom que nos acontece diariamente. O zen fala
da atitude do praticante, que deve ser sem meta nem espírito de lucro. Aí há algo que exprime uma via de leveza e de despreocupação em relação ao futuro, bem diferente e oposta ao caçador de felicidade que acorda pela manhã em busca de sua presa.

De sua de ciência física, você diz que o importante é o que fazemos do sofrimento. Como você enfrentou essa situação? Como isso pode servir a outras adversidades da vida?

Há toda uma tradição da dor que nos faz acreditar que o sofrimento nos faz crescer. Como o célebre provérbio inglês “No pain, no gain” (sem dor, sem ganhos). Acredito que o que engrandece não é o sofrimento, mas o que fazemos dele. Efetivamente, graças ao trabalho interior, aos amigos do bem e a uma imensa solidariedade, podemos transformar os desa os em ocasiões de progresso interior. Trata-se de transformar nosso olhar sobre as coisas. Concretamente, se considero a de ciência como um desa o, como algo duro, penoso, estou perdido. Se tento, por exemplo, dizer a mim mesmo que se trata de uma ocasião que me é dada para me libertar um
pouco mais do olhar do outro, de não mais me aprisionar em rótulos, para ousar um amor maior do outro, pode se tornar uma oportunidade para um enorme progresso. Diante do sofrimento, mais do que se perder em arrependimentos e ruminações, talvez se trate de se perguntar o que posso fazer aqui e agora para me sentir melhor.

Você diz que ser livre não é simplesmente poder escolher. Qual é sua “visão da liberdade”, no sentido filosófico e também da prática cotidiana?

Eu prefiro termo liberação do que liberdade. Pois a liberação é o fruto de um processo, de uma ascese interior. Além disso, entendemos a liberdade como o fato de fazer o que queremos. A liberação exige que paremos de viver o cotidiano sob o signo do piloto automático, que cessemos de ser o brinquedo de nossas paixões, a marionete de nossos desejos inconscientes para, passo a passo, crescermos e nos tornarmos menos escravos. Spinoza filósofo holandês do século XVII nos dá uma ferramenta formidável quando nos encoraja a perceber o que, em nós, se trata de desejos adequados, que têm sua origem em nossa natureza, e desejos inadequados, aqueles que são
criados pelo mimetismo, a publicidade, a comparação, a escravidão a uma norma. No livro, falo de um dossiê RAF [sigla em francês de “rien à foutre”, algo como “pouco me importa”]. É um exercício que me aconselhou um médico, de constituir em seu coração um dossiê RAF e colocar ali tudo que não é essencial, que é da ordem da ruminação, do medo, do desnecessário. Para ir ao fundo, é preciso se desvencilhar, pois a felicidade está relacionada ao despojamento, a uma liberação, não a uma conquista. Não se trata de acrescentar o novo, mas sobretudo de se despojar daquilo que nos impede de ser livres e de amar.

Só a alegria nos libera? O que é a alegria? Como alcançá-la?

Para abordar as grandes questões da existência, para se liberar das complicações e se distanciar das paixões tristes, é preciso um motor. A alegria, como diz Bergson [Henri Bergson, filósofo francês, 1859-1941], anuncia sempre que a vida avançou. É um sinal que nos diz que a vida progride em nós. Daí a ascese que consiste,
talvez num primeiro momento, em se perguntar sobre o que realmente me deixa alegre para poder construir uma arte de viver. Pode-se lutar com determinação contra o ego, pode-se forçar a sair da prisão do egoísmo, mas me parece que o que libera mais é a alegria. Quando explodimos de alegria, não há mais distância entre mim e o outro, não há mais barreiras entre um pequeno ego raquítico e o mundo que nos é proposto. A generosidade aparece. A alegria é uma paixão, nos diz Spinoza. Não podemos criá-la, produzi-la, programá-la. No máximo, e já seria muito, podemos nos tornar disponíveis à sua chegada, exatamente nos desvencilhando de
tudo aquilo que nos impede de ser livres e alegres. Eu sonho com uma arte de viver construída na alegria, muito simples, concreta, e que nos convida a nos tornarmos mais disponíveis ao outro. Mas exigir a alegria absoluta é se privar das mil e uma alegrias que produz o cotidiano.

“Nada é grave, uma vez que tudo é grave.” Você poderia explicar?

Buda, como bom médico, enunciou suas quatro nobres verdades com o objetivo de nos curar desta insatisfação, deste egoísmo tenaz que nos impede de ser livres, alegres e plenos de compaixão. A primeira delas estipula que tudo é sofrimento. Mesmo na alegria, sentimos, se não estamos totalmente desligados de tudo que se
passa, que tudo vai morrer, que tudo é efêmero. A impermanência de tudo, a solidão que pode se apossar dos seres, o apego e a ignorância são algumas das causas de nosso sofrimento. Felizmente, há uma via para se livrar delas. O essencial é praticar um caminho espiritual, de se engajar de corpo e alma, tentar uma via mais solidária.
A vida é trágica, ela tem um fim, ela é em muitos aspectos injusta, mas é no seio mesmo desse caos que a alegria é possível, inclusive graças aos outros. O primeiro passo é lutar contra nossa ignorância e nosso apego desmesurado, abrindo-nos aos outros.

Para Schopenhauer, somos tiranizados pelo desejo, e nunca dispensamos tempo para interrogá-lo. Para você, é preciso compreender que existe em nós um “desejo de absoluto”. Que desejo é esse?

Não creio que sejamos habitados por um querer viver selvagem e cego que nos tornaria escravos e eternamente insatisfeitos. Acredito que a insatisfação que se pode sentir está ligada efetivamente a desejos, mas a desejos inadequados, como diria Spinoza. Desejos que importamos de fora, gerados pela publicidade, e que nos
exilam de nossa interioridade. Nesse sentido, me sinto próximo de Santo Agostinho, para quem não podemos encontrar repouso se não entrarmos no interior de nós mesmos. O exercício espiritual é, então, considerar nossos desejos como pequenas crianças, examiná-los, observá-los com muito humor, para ver se são instrumentos de liberdade, espaços de vida, ou, ao contrário, territórios de alienação, de escravidão, que nos minam e nos puxam para baixo. Viver no presente, saborear o aqui e agora é uma injunção efetivamente cada vez mais na moda. E ela pode se tornar um argumento comercial, e mesmo uma injunção opressora. De fato, alguém que está mal e que ouve esse tipo de apelo pode vir a se culpabilizar ainda mais de não estar no presente. Creio que o que nos coloca no aqui e agora não se programa. Não há manual nem receita. A meditação é um imenso espaço de exercício para aprender a viver no presente, aceitar e simplesmente perceber os milhões de vezes no dia em que somos
arrancados do presente para habitar o passado nas lembranças e arrependimentos ou fugir no futuro para residir no medo, na angústia. Enfim, o que me ajuda pessoalmente é tentar viver sem porquê, aqui e agora; pouco a pouco, abandonar os objetivos que não são essenciais e o peso da opinião dos outros. Também ousar atos
gratuitos. Ajudar os outros não para que eles nos recompensem, mas para progredir verdadeiramente na paz, na alegria e no amor.

O que é “viver no imperfeito”?

Uma das grandes questões de nossa existência é acolher, assumir e, se possível, dizer “sim” às nossas fragilidades, feridas e fraquezas. E ir adiante. No fundo, trata-se de renunciar ao ideal, aos c contos de fadas, para construir nossa liberdade a partir do real e de sua imperfeição. Nietzsche [o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, 1844-
1900] dizia em A Gaia Ciênciaque “Deus está morto”. Não é pouca coisa, numa existência, perceber quais são os deuses, as bengalas, os narcóticos e anestésicos que nos ajudam a prosseguir. É talvez o desejo de agradar ao outro, uma carreira social, um sucesso profissional, ou mesmo, em certos casos, a prática espiritual quando
se transforma em desenvolvimento pessoal, unicamente orientado para o bem-estar. Um padre me disse um dia que se tratava de viver perfeitamente o imperfeito. Isso me ajudou muito, e tem a ver com a distinção estoica que somos convocados a fazer todos os dias, de saber distinguir o que depende de mim e o que não depende de
mim. Se me perco em querer transformar o que não depende de mim, sofro eternamente e serei insatisfeito. Então, Deus está morto, o deus perfeição, o mundo sonhado, ideal, e o lugar está disponível para uma vida em contato com o real. Precisemos que quando digo que Deus está morto, não é o deus dos cristãos, por exemplo, mas
sobretudo ídolos que nos desviam do sentido da terra, como diria Nietzsche, para nos fazer habitar outros mundos. Querer ser perfeito é o ápice do orgulho, e querer avançar e criar solidariedade num mundo imperfeito é um desa o alto e nobre.

“Fazer de conta não ser invejoso ou ciumento é mentir a si mesmo.” Como viver com esses sentimentos, assumi-los sem sofrimento? Como aceitar o medo e a angústia? “Viver a fundo o que nos tormenta, sem negar o que quer que seja, e avançar com extrema suavidade, este é o desafio”, você diz.

Nietzsche, nesse sentido, é um guia fabuloso. Ele que se imaginava como um filósofo psicólogo. Ele nos ensina a identificar, por trás de nossas belas intenções, o que se esconde de crueldades, e por vezes por medo de solidão nos aproximamos do outro, enquanto trata-se de se acercar do próximo por puro amor, totalmente desprovido de qualquer espírito de se aproveitar. O primeiro passo para a verdade em si é talvez enxergar sem julgar tudo o que nos habita: os fantasmas, as fantasias, os medos, os
demônios, as lembranças, os traumas. Parar de temer todo esse amontoado passional, para colher tudo isso como uma expressão da vida. Mais nos julgamos, mais nos condenamos, mais matamos as forças que poderiam nos levar ao progresso e ao amor puro. Se pela manhã vestimos uma roupa e encenamos um personagem, se mentimos em permanência, nos privamos do contato com a realidade, que é um apoio fabuloso mesmo se trágica, e que nos possibilita avançar.

“É uma loucura o cortejo de ilusões que alimento em relação a mim.” Poderia explicar também essa frase?

Um mestre zen me dizia que 99% das opiniões que tenho em relação a mim e à realidade são uma ilusão total. E é verdade, quando examinamos nossas verdadeiras motivações, percebemos que é bem mais complicado do que parece. Freud viu muito bem isso ao falar da determinação de nossas pulsões e de nossos desejos. E aqui também trata-se de um trabalho alegre de ir em busca de todas as mentiras interiores para se apoiar no real. O budismo fala de visão nua, e é um exercício muito concreto observar o que se apresenta à consciência sem colorir de emoções negativas, sem travestir de preconceitos. O conhecimento de si mesmo é um trabalho imenso. É tudo exceto o narcisismo, mesmo se esse perigo nos espreita ao longo de todo o caminho. Para Spinoza, esse trabalho de liberação das ilusões é uma fonte imensa. Portanto, não se trata de atingir o fim do caminho para ser feliz. Ao contrário, tomar consciência de minhas alienações é uma alegria em si.

Você diz que uma das missões do ser humano é a cada dia se reconhecer vulnerável, capaz de melhorar, e tentar lutar alegremente. Na sua opinião, como isso ocorre hoje nas sociedades modernas ocidentais?

Os filósofos da Antiguidade se apresentavam como progressistas. Epicteto, por exemplo, se dizia um escravo em via de liberação. A grande questão hoje é saber de que devemos nos liberar. Nos nossos dias, o progresso é muitas vezes associado à técnica. Não há mais objetivo, como diria Heidegger, fica-se dando voltas ao redor. É urgente, portanto, reabilitar os objetivos, sem se prender a eles. Deve-se retornar ao desejo que organiza uma vida e se perguntar, por exemplo, atrás de que estou correndo? Viver como alguém que marcha para a frente, não limitar sua ideia de progresso ao seu pequeno ego, mas se engajar concretamente em algo sem estar algemado no objetivo de melhorar a vida interior de cada um.

Qual o seu sentimento em relação à sociedade cada vez mais dependente da virtualidade, das relações via internet, da busca incessante por uma vida de sucesso e a valorização da mundanidade? Você diz que nosso meio é hostil à espiritualidade e à escuta interior de si mesmo e do outro.

Creio que é urgente se reconectar ao essencial e ao outro. Um amigo me dizia recentemente que havia encontrado uma fórmula: menos bens, mais relações. Me surpreendo, nos restaurantes, a cada vez que vejo casais de namorados passando a noite olhando para o seu celular, incapazes de qualquer diálogo. Nesse caso
também não se trata de julgar, de condenar, mas, como diria Spinoza, de compreender. Por que estamos desconectados de uma ligação com o outro, por que fugimos de nossa interioridade? É essencial redescobrir uma interioridade, mesmo que para isso tenhamos que passar por certos sofrimentos. Quem não está habituado a viver a fundo encontrará, ao descer ao coração de si mesmo, fantasmas, medo e este espectro que hoje ameaça: o tédio. No fundo, devemos talvez reaprender uma vida menos
programada, menos perdida nas preocupações do cotidiano, uma vida em que vivamos a partir do íntimo, o que há de mais sagrado em nós.

A filosofia deu um rumo à sua vida, ajudou seu caminho para a interioridade, mas chegou um momento em que você sentiu uma necessidade de “ousar um passo suplementar”, e de colocar a prática espiritual no centro de sua vida. Como foi essa mudança pessoal?

Eu nasci com uma de ciência, uma enfermidade cerebral motora, e desde os 3 anos de idade fui colocado numa instituição especializada. A vida era dura, o distanciamento dos pais era um sofrimento diário. Mas foi ali, com outros amigos de cientes, que descobri que a vida era um alegre combate, e que a cada dia podemos,
quais sejam nossas forças, progredir no alegre terreno da existência. Principalmente em três áreas da vida: a interioridade, o corpo e, sobretudo, nossa relação com os outros. Nesse contexto que, graças a um capelão, descobri Sócrates. Ele foi o mestre que me ensinou a desconfiar das aparências e a mergulhar na interioridade.
Ele me proporcionou ferramentas, e deu uma direção à minha vida. Graças a ele, quis descobrir a sabedoria, aquela que torna feliz, que nos aproxima da ataraxia, a ausência de perturbações da alma. A leitura de Nietzsche me ensinou muito, me vacinou contra certos perigos, como a resignação, o ódio de mim mesmo, a mentira e outros venenos interiores. Mas, ao longo dos anos e após estudos filosóficos na universidade, constatei que a afetividade e os traumas de infância não eram impactados
pela iniciativa filosófica. Os traumatismos permanecem. A via do zen me aproximou do corpo, de uma arte de viver que leva em consideração a afetividade, a angústia, o medo, os mil e um tormentos que nos atravessam. A paz que buscava ativamente com os conceitos filosóficos encontrei pouco a pouco com a meditação. No  nal de
uma conferência sobre o zen, em que acompanhava minha mulher, houve um pequeno exercício prático no qual meditei pela primeira vez. E, contra todas as expectativas, a paz apareceu no próprio seio deste corpo que eu recusava, pela de ciência. Mais tarde, quis encontrar um guia que fosse ao mesmo tempo mestre zen e pai espiritual, que se inspirasse tanto na fonte do zen como na tradição católica. Achei essa pérola rara na Coreia do Sul, para onde eu e minha família seguimos. Tivemos a felicidade de nos iniciar no zen durante três anos em Seul. Mas é um recomeço diário. Somos convidados a viver e a renascer de instante em instante.

Seu mentor espiritual é o padre Bernard, jesuíta canadense e também mestre zen. O que o zen mudou na sua vida?

O zen me ensinou a verdadeiramente rezar, a ousar descer no silêncio. Antes, a oração era para mim um tipo de monólogo no qual eu murmurava toda uma série de pedidos. Graças a meu mestre, vivi a reza e a oração como um abandono, uma escuta ao se deixar ser. Para mim, é importante alimentar uma espiritualidade de diálogos. As guerras de capelas, as oposições entre as grandes tradições sõa destrutivas. No fundo, o zen me permite retomar o cristianismo da minha infância, de purificá-lo e desvencilhá-lo de qualquer ídolo, principalmente daquele deus culpabilizador, dessa consciência culpada que nos impede de amar livremente e que, paradoxalmente,
exprime um narcisismo bem enraizado. O zen é uma via que remove, e que se somos cristãos deixa aparecer, talvez, o deus que havíamos sepultado sob tantas projeções
e preconceitos.

Você fala do “viver sem porquê” e das três questões de sua vida: não estar algemado a objetivos; cessar de ser condicionado pelo olhar do outro e procurar habitar o presente. Como é sua prática cotidiana?

Hoje, me preparo para retornar à Suíça após três anos magníficos passados na companhia de meu mestre na Coreia do Sul. A vida sem porquê ainda é algo presente e essencial. O que me parece fundamental é ousar um abandono total à providência, aproveitar uma verdadeira generosidade – pois, como mostra Nietzsche,
não é fácil ser generoso gratuitamente – e, enfim, deixar vir o que está por vir. A cada vez que sofro, a cada vez que me agito por nada, minha mulher me lembra o título de meu livro Viver sem Porquê.

Como você descreveria esses nove dias de diálogos com Matthieu Ricard e Christophe André?

Vivi esses nove dias numa grande felicidade e, sobretudo, fiquei maravilhado em perceber que não há contradições entre Matthieu e Christophe, entre o que eles pregam e o que vivem no cotidiano. Esse convívio foi uma espécie de imenso laboratório espiritual, no qual nos encontramos para partilhar nossas descobertas. O que me encantou foi que não havia nenhum lugar para o estresse, mesmo que o programa tenha sido bem carregado. Nenhum estresse, nenhuma agitação, e ainda menos fofocas. Aprendi bastante no contato com meus dois companheiros, e me alegro que essa amizade tenha dado frutos, um livro, um tipo de convite a tomar a estrada, pois não há manual, apenas indivíduos que, a cada dia, tentam amar mais livremente.

19/09/2016 - 09:00

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