Esse nariz vermelho tem um...

...não sei o quê de frágil, adorável e muito humano. O psicólogo e palhaço Rodrigo Bastos sabe disso e busca no espírito criativo e leve da figura clownesca uma forma de fazer graça com as nossas vulnerabilidades e assim nos fazer mais corajosos

Texto: Izabel Duva Rapoport

Rodrigo Bastos | <i>Crédito: Larissa Garcia
Rodrigo Bastos | Crédito: Larissa Garcia

Quantas vezes ele tropeça e cai? Quantas vezes ele se levanta? “O palhaço está no mundo para mostrar que leveza, riso e prazer são tão partes de um ser humano quanto a queda, o fracasso e o choro”, diz o mineiro Rodrigo Bastos, palhaço movido à Gestalt-terapia. Com base nessa abordagem desenvolvida na década de 1950 pelo alemão Fritz Perls – e na
sua própria vida –, Bastos criou uma metodologia de fazer terapia pela alegria. Por meio da brincadeira, ele busca recuperar o espírito da criança que existe em cada um de nós e reativar nossa potência humana. Esse é o tema que sustenta a obra O Clown Terapêutico (ed. Bartlebee, 112 págs., R$ 40), que teve importante contribuição da professora e palhaça espanhola
Montserrat Gasull Sanglas, sua amiga e sócia. Juntos, eles mantêm a empresa A Arte de Ser Grande, levando palestras e ofi cinas sobre terapias e palhaços Brasil afora. Nessas andanças, a dupla mostra com jogos circenses e teatrais que é na brincadeira, na valorização do amor-próprio e na humanidade que ressurgem as possibilidades de mudança e de crescimento pessoal. O lúdico em processos terapêuticos, que até então era quase uma exclusividade das crianças, aparece como uma força transformadora do adulto. E se faz presente em cada linha do novo livro do autor, que compartilhou com BONS FLUIDOS alguns de seus malabarismos para promover saúde pela nobre manifestação do riso.

O clown terapêutico é aquele palhaço que faz graça de si mesmo enquanto ajuda o “paciente” a encontrar a graça em si também, ainda que com todos os defeitos?

O clown terapêutico é um método de fazer terapia através da alegria. Para isso, o terapeuta também faz a formação na arte do palhaço e se torna um terapeuta palhaço. Ele aprende essa metodologia para aplicar nos clientes (preferimos falar em “cliente” em vez de “paciente” porque paciente lembra aquele que pacientemente espera que alguém cuide dele, enquanto, no nosso caso, nós transformamos esse paciente em um ser ativo, agente, portanto, cliente). E, sim, o terapeuta palhaço ensina o cliente a aprender a rir de si mesmo. O palhaço debocha de
si, conhece suas fraquezas. Não faz graça nem desfaz o outro. Ele brinca com suas questões, “defeitos”, qualidades e imperfeições. E em cima disso lida com seus problemas de uma forma tal que o objetivo fi nal é aprender a se aceitar.

Ou seja, o método não é apenas o da pura observação. Quem busca ajuda do clown terapeuta tem que se colocar em cena também.

Necessariamente, ele tem que se colocar em cena. Mas não para fazer palhaçadas pura e simplesmente. A palhaçada surge com naturalidade. O palhaço – tanto o terapeuta quanto
o cliente –, vai para “o palco” com uma intenção mais profunda: de se revelar, desnudar e colocar o interior complexo e difícil para fora. Falar o que tem de bom e de ruim, dos
tombos que levou, das vergonhas que passou na vida e dos medos atuais. Nesse exercício, vai falar em alto e bom som aquilo que ele mais esconde. É aquele adulto de 40 anos
que até hoje, quando tem um pesadelo, faz xixi na cama. Daí, o adulto vestido de palhaço na frente de um monte de gente conta: “Eu faço xixi na cama”. Quando ele diz uma verdade,
as pessoas morrem de rir e, no fim, aquilo parece uma piada, parece uma palhaçada. Mas, na realidade, ele simplesmente trouxe para fora uma verdade que estava no interior dele e que não era dividida, e por isso o oprimia. Ao revelar seu interior, as pessoas riem, se emocionam, choram. O palhaço, aliás, tem esse dom de trazer o choro, o medo, a alegria, o amor. Ele traz emoções através de um ato: o de gentilmente se revelar para as pessoas.

Quem pode se beneficiar com a terapia do clown?

Qualquer pessoa. Aquela que tem uma doença grave como um câncer, a que tem uma dor na alma... Na abordagem da Gestalt, que usamos como base do tratamento, não existe
essa separação das doenças da alma para as do corpo, porque, na realidade, uma retroalimenta a outra. Se você está com a mente enferma, o seu corpo padece. E, se você adoece o corpo, machuca a mente. Então o tratamento é desse todo. E muito além. É importante ressaltar que a busca pela terapia não acontece só por clientes que estão doentes. Há quem busque o clown para a amplificação das próprias potências. Isto é, pessoas que estão buscando se colocar e se reposicionar no mundo, que estão procurando aumentar suas qualidades, forças e criatividade. Até porque, ainda que a pessoa chegue falando de uma patologia, nós vamos ajudar a tratá-la olhando para essas potências. É no vigor da alegria, do riso e do aprendizado de como vencer seus medos que o cliente vai se restabelecer.

Você acabou de lançar um livro: O Clown Terapêutico. Com ele, diz, quer que mais pessoas consigam ver as próprias imperfeições com leveza. Oferece técnicas para isso?

O livro é para que o leitor trabalhe em cima daquilo que chama de defeito ou qualidade. E para que aprenda a revelá-los generosamente para o público, porque, quanto mais a gente se revela, mais aprendemos a nos tornar vulneráveis. A vulnerabilização é que produz um contato afetivo. Quer ver um exemplo muito claro disso? Quando uma pessoa se apaixona por outra, para que essa paixão aconteça em toda a sua magnitude, é preciso de um pouco de entrega. A pessoa tem que estar vulnerável à outra. Senão, ela não se aproxima, não cede e não se derrete. Ao se apaixonar, a gente abre o peito e, se a gente dá bobeira, pode vir flechada, machucado... mas também pode vir um mundo de coisas boas. É o risco de se abrir.
Então o clown terapêutico é um convite para a vulnerabilização para o mundo. Para que você possa abrir o peito e fazer um contato sensível, amoroso e gentil com a vida. A técnica não é dada, justamente para não cair na banalização. Afinal, não se trata da técnica pela técnica – e alguém menos consciensioso poderia ler o livro e já começar a dar curso e aplicar nos clientes indevidamente. Seria perigosíssimo. Nós falamos como funciona e o que é o clown terapêutico, mas a pessoa que quer aplicar tem que fazer as oficinas e os cursos de formação com pessoas devidamente preparadas.

Apesar de falar sobre terapia, seu livro em nenhum momento fala de doença, problema ou feridas emocionais.

Precisamos desmistificar a ideia de que terapia fala sobre doença. Terapia fala sobre cura. Sobre cuidar, tomar conta. E, se o processo terapêutico busca fazer bem, o protagonista desse trabalho não é a doença. É a pessoa. É nela que habita o ator principal, que, por sua vez, divide o espaço com vários coadjuvantes. Dentre eles: a doença.

Sob essa ótica, quando a doença ou trauma são tratados?

Dentro do ponto de vista humanista, no qual o tratamento visa à pessoa como essência, a doença é uma das últimas da fila – porque, se ela toma conta, o indivíduo perde o foco, a relevância e vira pano de fundo. Baseado nesse princípio, em que a pessoa é a essência e a doença é o fundo, é que nós fazemos terapia. Procuramos atuar com sensibilidade,
com a ideia do sorriso, da alegria e de todo o lúdico que faz o espírito da criança que vive em nós renascer, e se sentir dono de um universo de criação infinita. É por meio desses processos que acreditamos tratar o adulto. A doença, lá no fundo, vai aparecer. Não negamos os processos patológicos, mas acreditamos que são tirados da pessoa quando ela olha para si e se cuida através do que há de bom nela. Trabalhamos no que chamamos de potência da pessoa.

Pode detalhar mais essa história de potências pessoais?

O corpo é um misto de equilíbrio e desequilíbrio (algo que chamamos de homeostase) e está sempre buscando a saúde em um processo chamado autorregulação organísmica – nossa
capacidade de se controlar e de se curar no dia a dia. Algumas vezes, esse processo fica sem energia suficiente e o ser humano não dá conta de se equilibrar sozinho. Costumo chamar a terapia de “bengala”, pois ela (assim como a doença) não é o ator principal. É coadjuvante do ser humano e serve para apoiá-lo para que ele volte a fazer a autorregulação. Ou seja, a terapia e o terapeuta não curam, mas auxiliam o cliente a buscar sua própria estabilidade. A terapia tem função de cura? Sim. Mas não é o remédio em si. É uma bengala.

Embora não ensine técnicas propriamente ditas, o sr. diz que o livro ajuda o leitor a acreditar em si mesmo. Por que, na sua opinião, as pessoas andam descrentes delas mesmas?

Um cidadão vai a uma pizzaria e, quando começa a comer, sente que o molho de tomate está azedo. Percebo que muitas pessoas pagariam por essa pizza sem se queixar. Mais do
que isso: algumas comeriam, por medo de reagir contra o que nos diminui. As pessoas começam a deixar de acreditar na própria capacidade de reação. Dei exemplos tolos, mas poderia explorar situações mais complexas, como na gama das relações afetivas, quando alguém diz para o outro que ele não tem capacidade e talento, que não sabe fazer nada direito etc. São vários os cenários que ilustram a relação de opressor X oprimido, onde o opressor pode ser pessoa, instituição ou situação, e o oprimido é quem, muitas vezes, perde a confi ança na sua própria capacidade de reação.

Para reverter isso, há sempre uma dupla de clowns atuando. Por quê?

Se pensarmos na figura da medicina tradicional chinesa, no yin e yang, percebemos que existem dois lados, digamos, opostos: o lado branco e o lado negro. E, num olhar mais apurado, vemos que dentro do negro mora um círculo branco e dentro do branco mora um círculo negro. Isso quer dizer que dentro do bem mora o mal; na noite mora o dia; no frio
mora o calor. Quando entendemos que os lados opostos não são plenos, pois se misturam, se ajudam e se completam, passamos a entender o princípio do jogo do clown terapêutico.

Que vem a ser o que exatamente?

De um lado, há uma figura opressora, brava e que manda, representando a sociedade. Do outro, o oprimido, simples, tímido, que apanha, aceita o grito e não sabe reagir no primeiro instante. Essa versão opressor X oprimido é muito comum nos jogos clownescos. Basta lembrar duplas clássicas como O Gordo e o Magro, Didi e Dedé, Dean Martin e Jerry Lewis. Sempre há um palhaço como entidade forte que comanda o jogo, dá ordens, grita, sacaneia e “humilha” o palhaço tolo, pequeno e frágil.

Esse seria também o jogo da vida...

É o jogo sociedade X pessoa. Aos poucos, o palhaço tolo vai descobrindo que não precisa obedecer às ordens que não fazem sentido para ele e passa a reagir.

Pode dar um exemplo?

Cada um tem uma forma de reação. No meu caso, trabalho com o jogo cômico. Por exemplo: o palhaço mandão pede para o outro um copo d’água. Depois pede outro e outro... até irritar o palhaço que obedece. Quando o mandão não está olhando, o tolo cospe dentro do copo e passamos a rir de tudo. É uma brincadeira. Claro que a ideia não é sair se vingando e cuspindo no copo das pessoas, mas mostrar a capacidade que cada um tem de reagir à sua maneira. Fazer com que a pessoa perceba e diga a si mesma: “Espere aí, ele é o dobro de mim, mas não tenho que ter medo disso. Sou alguém com capacidade reativa e que não precisa ficar no posto de oprimido”. E, então, perceber que esse jogo está nas relações do dia a dia.

Só que a pessoa pode se identificar com o opressor também...

Sim. É aquele exemplo típico do major que briga com o coronel e o coronel que briga com o cabo. Ou seja, todo mundo tem seu lado opressor e seu lado oprimido. É o yin e yang, onde todo mundo tem o branco e o negro morando em si.

O sr. pode ir mais fundo e explicar como as atividades lúdicas podem ser curativas para as dores da alma?

Recebemos os adultos brincando, rindo, falando de si, como se fossem crianças. Essa seria a primeira sensibilização. Depois, passamos para a parte mais difícil, que é relembrar a criança brincalhona, liberta e criativa que fomos um dia. Então percebemos o que fomos perdendo ao crescer (paramos de ser espontâneos, de cantarolar, de dançar onde se tem vontade). Fomos perdendo a capacidade de criar e, sem criatividade, como nos livramos dos problemas? A próxima etapa busca essa criatividade por uma série de métodos e jogos, outro momento doído do processo. É como se um gesso travasse o lado mais doce e humano dele. E temos de quebrá-lo (a oficina de clown é apenas a primeira marretada). Dói,
mas é lindo e libertador também.

O palhaço não é mais uma atuação e passa a ser o indivíduo em toda a sua plenitude.

Lindo ponto. O palhaço não é mais a atuação. É o que somos vistos através de uma lente de aumento. Eu era um garoto tímido, sensível, choroso e fácil de fazer de bobo. Cresci e admito tudo isso no meu palhaço. O palhaço não é o desejo do que quero ser, é o que sou. Se o adulto resolve conhecer seu próprio palhaço, vai ter de revelar o que tem de bom e
o que quer esconder de todo mundo. Mas, para isso, tem de se conhecer, recordar e reviver o que era, fazia e sentia. Você compreende o processo terapêutico? Para me tornar palhaço, devo reconhecer minhas fragilidades e forças e, ainda, revelá-las, insisto, ao público. Tenho que me amar e rir de mim. É um processo de aceitação do kit completo. No meio circense, falamos em “rir das próprias desgraças”. Quando você aprende isso, está começando a descobrir seu palhaço. Um passo além é você ter que contar essa fragilidade para o vizinho, porque ele precisa rir de você. 

Aceitar que o outro ria de você é muito difícil, não?

No começo pode ser péssimo, diria até deteriorante, a pior coisa do mundo, mas, com o tempo, você cresce tanto que passa fazer isso com prazer, porque já aprendeu o quanto te liberta. Sou um cara de dois metros, fortão e musculoso? Não! Sou um gordinho careca de 1,70 m. E sabe o que acontece com o palhaço que tantas vezes já se sentiu humilhado por ser gordinho e careca? Uma hora ele se liberta do rótulo e fica mais leve. A grande magia disso é que somos amados quando revelamos o que, antes, queríamos esconder.

É assim que o palhaço toca a alma das pessoas?

As pessoas que fogem ou têm medo de dar conta da própria vida se encantam quando alguém tem a coragem de se revelar. O palhaço está ali para isso. Essa é a sua função
social. Ele não é um apontador de dedos e não faz bullying. O palhaço se entrega. No fundo, ele só quer dizer quem é.

E por que o nariz vermelho?

Porque ele sempre se levanta. Seu nariz não é vermelho para enfeitar festa de criança. É vermelho de tanto cair no chão, de sangrar, de doer e de tanto perder no vaivém de
um cotidiano competitivo. Só que o palhaço levanta, vive a vida e nunca desiste. Então virou objeto de identificação do ser humano, que olha para ele, e segue em frente.

07/11/2017 - 09:00

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Revista Bons Fluidos