Somos mais fortes do que pensamos

Cada adversidade que se ergue diante de nós como uma onda é um teste de resiliência. Pode nos derrubar algumas vezes, mas também recua – como a maré. O desafio é absorver o impacto dos contratempos e crescer com o que eles têm a nos ensinar

Texto Raphaela de Campos Mello

Somos mais fortes | <i>Crédito: Jordan Donaldson / Unsplash
Somos mais fortes | Crédito: Jordan Donaldson / Unsplash

“É preciso continuar, não consigo continuar. É preciso continuar, então vou continuar.” Quantas vezes ao dia travamos o diálogo interior tão bem sintetizado pelo dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989)? O trânsito desafia os nervos, mas prosseguimos; o salário míngua, mas damos um jeito; o mal-estar crônico detona uma nova crise, mas saímos à caça de alívio. Nos superamos a cada passo dado, ainda que titubeante. E avançamos, nos embrenhando mar adentro, a despeito das ondas que insistem em nos derrubar.

“Quando penso no passado, sinto raiva. Mas temos que usar nosso tempo limitado na Terra para transformar a realidade. Para isso, temos que rejeitar toda a negatividade e focar a atenção nas coisas positivas.” A fala de um dos homens mais notáveis da história, Nelson Mandela, que após 27 anos encarcerado tornou-se presidente da África do Sul, não deixa dúvidas. Nessa vida é possível enfrentar toda a sorte de contratempos, baques tremendos até, e se refazer, redescobrindo a confi ança, o propósito e a alegria.

É aquela história de que existe uma mola propulsora em todo poço fundo. Você bate o pé lá e volta. Podemos chamá-la de resiliência, termo emprestado da física e que se popularizou nas últimas décadas. Na física, significa a propriedade que alguns materiais têm de acumular energia quando exigidos ou submetidos a tensão e de não romper. No nosso cotidiano, é a capacidade de sofrer o impacto das adversidades, se abater, envergar até, mas dar a volta por cima e sair transformado das situações estressantes. Quem nunca se sentiu mais autoconfi ante ao deixar para trás um sufoco financeiro? Ou mais solidário e humano após passar por uma grave doença? Esse tipo de “colheita” acalenta a alma e mostra que as agruras que tivemos de enfrentar não foram em vão.

Nas fases pedregosas, temos, no mínimo, três possibilidades à nossa frente. Sucumbir em face das contrariedades, balançar e depois voltar para o eixo ou absorver o impacto das dificuldades e crescer com o aprendizado. “A resiliência nos ajuda, inclusive, a tomar decisões sob pressão e a nos adaptar às mudanças, por mais drásticas e difíceis que elas sejam. É ela que faz com que a gente se empenhe em buscar saídas”, salienta o padre José Carlos Pereira, autor de Resiliência: Para Lidar com Pressões e Situações Adversas (Ideias & Letras) e membro do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Do ponto de vista orgânico, essa reviravolta é possível graças à capacidade do cérebro de fazer ajustes em seu funcionamento. “Todos nós dependemos da nossa plasticidade cerebral para superar desafios, e esta, por sua vez, depende muito da tenacidade de cada um para se adequar a novas situações”, afi rma o médico psiquiatra Rodrigo Bressan, professor do Laboratório Interdisciplinar de Neurociências Clínicas da Universidade Federal de São Paulo (Linc-Unifesp).

Boa vontade para fluir Não se trata de heroísmo. Ninguém tem que suportar um infortúnio como se estivesse participando de um torneio de levantamento de peso. As coisas podem e devem fluir num movimento de (re)construção. E precisamos caprichar nos inúmeros dribles que a vida solicita. Só que, para isso, temos que manter a má vontade a uma distância segura, a exemplo da água do rio, que, a despeito do curso acidentado, encontra brechas aqui e ali e segue buscando o mar. Melhor assim. Já imaginou quanta energia seria desperdiçada se, em vez de fluir, ela optasse por bater de frente com cada rocha do trajeto? Claro que cada um tem um limiar para suportar aquilo que testa a paciência e até a fé em dias mais risonhos: do chefe intratável ao fim de um relacionamento, passando pela insatisfação com a política do país onde se vive. O desconforto existencial tem muitas gradações, assim como as maneiras como reagimos a ele. “Alguns nascem com a ‘pele fina’, são aqueles a quem tudo incomoda, frustra e estressa; outros nascem com a ‘pele grossa’, as coisas batem e ricocheteiam”, diferencia Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association (Isma-BR). Se você se identificou com o primeiro grupo, não se alarme. Até os mais frágeis e suscetíveis podem “encorpar” a estrutura, garante a especialista. Como? Assumindo no dia a dia posturas que despertam e sedimentam a resiliência.

É como começar a exercitar os músculos na academia, compara a americana Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook e coautora de Plano B – Como Encarar Adversidades, Desenvolver Resiliência e Encontrar Felicidade (ed. Fontanar), ao lado de Adam Grant, professor de psicologia na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que estuda como as pessoas encontram motivação e sentido para a vida. Quando decidimos abandonar o sedentarismo e encarar uma rotina de exercícios físicos, leva algum tempo para turbinarmos o sistema cardiorrespiratório, mas, um belo dia... “Durante uma atividade física particularmente vigorosa, você descobre uma força que não sabia que tinha”, descreve
Sheryl. Depois de ficar viúva repentinamente, ela foi obrigada a vivenciar a máxima dos resilientes: “Sou mais vulnerável do que pensava, mas sou muito mais forte do que jamais imaginei”.

O que a ajudou tremendamente a superar o luto foi o ensinamento-chave do psicólogo americano Martin Seligman, referência na área da psicologia positiva. Segundo ele, quando algo nos desagrada, temos que nos esquivar o mais rápido possível da armadilha dos três “pês”: achar que é o culpado pela situação (personalização), que o problema em questão contaminará todos os setores da vida (permeabilidade) e que ele durará para sempre (permanência). Lembrar disso como se fosse um mantra constante ajuda a ajustar o foco e sair do limbo da lamúria.

Com o leme nas mãos É humano – e, inclusive, saudável – se abater e sentir tristeza por se ver no meio de uma tormenta indesejada. O perigo é cair na vala da vitimização. “Os menos resilientes tendem a lidar de modo imaturo com o sofrimento, culpando outros ou gastando energia imaginando como poderia ser diferente. Já os mais maduros preocupam-
se menos em encontrar ‘bodes expiatórios’ e tratam de agir com foco para melhorar sua situação”, diferencia psicóloga Luciana Campos, organizadora da obra Resiliência e
Habilidades Sociais (Ed. Appris) e doutora em serviço social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Quem assume o comando do barco passa a sentir que está no controle da própria vida, encarando a realidade como ela se apresenta. Se o plano A não está mais disponível, é preciso partir, do jeito que for possível, para o B. Não dá por aqui, vá por ali. Lembra da água do rio? Inspirado nela, não custa se perguntar: será que seus saberes e habilidades podem ser direcionados para outros objetivos? Uma via alternativa não poderia se revelar afortunada? Ser flexível nessa hora faz toda a diferença. A exemplo da química paulista Marina Spaziani, apaixonada pela profissão. Mas, diante da falta de boas oportunidades na sua área, ela decidiu tentar a carreira pública paralelamente ao emprego que lhe trazia pouco retorno financeiro e satisfação ainda menor. Mesmo cansada, Marina estudava nas horas vagas. Perseverava. A cada nova prova de concurso, lá estava ela entre o batalhão de candidatos.
Passados dois anos de dedicação e foco, assumiu, em julho, um cargo na área de recursos humanos de uma instituição. “Estou amando minha nova rotina, o trabalho é muito interessante e, o melhor, fica a 20 minutos de casa”, comemora.

Mesmo sentindo certa dor por abdicar da sua vocação, Marina apostou que seria feliz de outra forma. Estava certa. “É fundamental manter a disponibilidade para mudanças, para conhecer o que ainda não se sabe”, destaca Luciana Campos. E que, portanto, pode ser a alternativa para a estagnação, o desânimo, a tristeza, a falta de saída. Qualquer ser humano pode “escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias”, encoraja o psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905- 1997), autor do clássico Em Busca de Sentido (ed. Vozes). Segundo ele, que sobreviveu ao Holocausto, esse é o primeiro passo para transformarmos “criativamente os aspectos negativos da vida em
algo positivo ou construtivo”. Ficar à deriva nos deixa à mercê das ondas, que nos arremessam ora para um lado, ora para outro. Mas, tendo o leme nas mãos, conseguimos administrar o vaivém das marés. “Esse indivíduo tem a habilidade de não se deixar manipular pelas situações ou pelas pessoas”, afirma Ana Maria.

Ser capaz de manter-se conectado à própria identidade durante as incertezas e as crises é um verdadeiro trunfo. Assim ficamos mais fortes. Por isso, é crucial a cada dia difícil refazer a aliança consigo mesmo, com o autocuidado, com a família, com seus objetivos e valores, enfi m, com tudo aquilo que possa realçar seus contornos e o posicionar sobre suas bases.

Calibrando a travessia Essa firmeza interna aumenta quando enxergamos com clareza um sentido de curto prazo num horizonte de longo prazo. Trocando em miúdos, em vez
de buscar uma motivação “macro” na hora do aperto, procure se segurar em algo mais palpável, mais próximo e realizável, sem perder de vista aonde quer verdadeiramente chegar. Esse é o ensinamento que o ex-ministro da Tunísia Tawfi k Jelassi procura transmitir na escola suíça de negócios IMD. De tempos turbulentos ele entende. Entre 2014 e 2015, Jelassi participou do governo de transição no país africano em meio a protestos e muita instabilidade política. O que estava em questão na época era a vontade popular de passar a viver num país democrático. As ruas literalmente pegaram fogo. A experiência de Jelassi tem ajudado pessoas e empresas a manejar o caos em que o mundo se encontra devido a uma
combinação de fatores. Nesse tsunami de proporções globais é esperado que muita gente tome atitudes extremistas e irracionais, o que só agravaria a situação. Respirar e ponderar é o mantra para atravessar maremotos. “É importante considerar todas as oportunidades, por mais difíceis que possam parecer”, aconselha o mestre.

Às vezes, só precisamos encontrar um ponto de repouso no meio do caminho, e não dar a volta ao mundo a nado de uma vez só. A capacidade de conferir aos eventos as proporções adequadas e de dar respostas compatíveis às demandas à medida que elas se apresentam é outro fator presente nas pessoas resilientes. Com elas aprendemos que nunca se deve matar um pernilongo com uma bazuca, simplesmente porque um chinelo é sufi ciente. Esse tipo de calibragem é fundamental para não ultrapassarmos nossos limites. Afi nal, ninguém deseja envergar além da conta e quebrar antes que os problemas estejam solucionados, certo? O truque para se manter sadio durante o processo de superação é se perceber. Se a dor de cabeça ou de estômago, por exemplo, aparecia a cada 15 dias e agora desponta duas vezes por semana, algo está errado. Pode ser que você precise se cobrar menos, ficar mais perto da natureza, rezar mais, desabafar com os amigos etc. “Quem conhece seus limites tem bases para se socorrer, se cuidar e não adoecer”, enfatiza Ana Maria.

Quanto mais saudável o cérebro estiver, maior será sua plasticidade, lembra Bressan. E como conseguimos isso? Tratando bem o nosso “comandante” por meio de uma série de bons hábitos: alimentação balanceada, atividade física regular, sono revigorante, parcimônia no consumo de álcool e cafeína, e atividades estimulantes, como o trabalho, um hobby, a leitura e jogos que turbinam a memória e o raciocínio. “É importante ainda proteger o cérebro das sobrecargas cognitiva e emocional”, alerta o psiquiatra. “Uma religião, doutrina ou filosofia de vida nos auxilia na interpretação das intempéries a que estamos sujeitos cotidianamente”, complementa Luciana.

Uma coisa é certa: quanto mais obstáculos enfrentamos, mais resilientes podemos ficar. Assim como as intempéries nos atingem com a força de um tsunami, também recuam como a maré. As pernas ganham confi ança. E, de passo em passo, avançamos mar adentro. As ondas, antes assustadoras, podem até nos derrubar. Mas agora sabemos que podemos
nos reerguer a cada novo caldo. É preciso continuar. Então vamos continuar.

 

14/11/2017 - 09:00

Conecte-se

Revista Bons Fluidos