Qual é a sua escolha?

Seu maior poder é a liberdade para decidir – mudar de opinião ou de direção, inclusive

Texto: Giuliana Capello / Ilustrações: Tiago Gouvêa e Julio Giraldes

Qual é a sua escolha? | <i>Crédito: Tiago Gouvêa e Julio Giraldes
Qual é a sua escolha? | Crédito: Tiago Gouvêa e Julio Giraldes
Nossa vida pode ser comparada a um pequeno mosaico de pedrinhas diferentes. Algumas lançadas pelo destino e coladas à base, de modo que não possam ser deslocadas – nelas estão representados, por exemplo, nossa carga genética, nossos pais, nossa primeira casa, a época e a cultura que nos acolhem. Outras vão entrando e saindo ao longo dos anos. Pois, “entre as pedras colocadas pelo destino, permanecem espaços maiores ou menores, que podem ser preenchidos com nossas escolhas livres e pessoais”, diz a psicoterapeuta austríaca Elisabeth Lukas em seu livro Histórias que Curam... Porque Dão Sentido à Vida (ed. Verus). De cores variadas, essas pedrinhas representam as possibilidades que nos são dadas em grande parte das situações. “Existem as pedras claras e brilhantes, que representam pontos luminosos da existência, e as sombrias e negras, que simbolizam infortúnios e sofrimentos”, diz a autora. Assim, nosso mosaico pessoal vai se compondo. De boas escolhas, de oportunidades perdidas (aquelas pedrinhas que ficam desconsideradas ao lado da base), de enganos. Nada é estático. Tudo acontece de maneira orgânica, fluida e mutável a cada instante, de acordo com a
nossa vontade.

Em seu livro, Elisabeth Lukas quer deixar claro, acima de tudo, que, seja qual for o impasse que o desafia, há sempre caminhos ainda desconhecidos e recursos a serem descobertos. Só é preciso acreditar que você é livre (seu maior poder!) para escolher. O aperto no peito, contudo, pode surgir quando as possibilidades de escolha são infinitas. Há tantos caminhos à disposição que pinçar apenas um angustia. Afinal, e se não for o melhor? Nessa hora, aposte na praticidade. Listar as opções e selecionar as mais reais e possíveis ajuda a baixar a ansiedade. Ficamos menos indecisos quando as alternativas são reduzidas.

Leve para decidir 

Escolher é, inevitavelmente, perder algo. Entender isso ajuda a sair da incerteza com mais leveza, afinal não se pode ter tudo na vida. Sim, desapegar é fundamental.

Outra coisa: refinar a escuta interior e estar mais atento ao que importa na sua vida ajuda a acomodar perturbações que confundem mente e coração – e fazem o organismo penar.

Nesse sentido, o professor Hélio Deliberador, do departamento de psicologia social da PUC-SP, destaca a importância de cuidar para não confundir opções de escolha com falsas demandas geradas por solicitações externas. Muitas vezes nos enganamos porque colocamos nossas fichas naquilo que acreditamos ser o que o mundo espera de nós. E não nas nossas reais necessidades e vontades. “A hiperestimulação que nos bombardeia o tempo todo, a exposição ao consumismo e a valorização exacerbada da juventude e do corpo perfeito podem produzir falsos dilemas nas pessoas. Precisamos nos livrar deles para poder filtrar as possibilidades que realmente fazem sentido para nós”, afirma.

Elle Luna, autora de Eu Sou as Escolhas Que Faço – Como Resolver o Dilema Entre o Que o Mundo Espera de Você e o Que Você Quer do Mundo (ed. Sextante), ajuda a fazer essa distinção. E dá a pista: pense naquilo que faz seu coração pulsar de verdade.

Há ainda outro teste bastante interessante para tirá-lo da dúvida. Faça um rápido flashback de sua vida e imagine que ela voltará a se repetir exatamente da mesma maneira, com todos os acontecimentos, os momentos felizes e as fases difíceis. Você desejaria revivê-la ou não? Esse exercício proposto pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) é o ponto de partida para termos mais consciência do peso das próprias decisões, tornando-nos capazes de abençoar cada instante vivido e amar
a existência com tudo que ela tem de bom e nem tanto, a ponto de querer que ela retorne vezes sem conta.

Se o sentimento que falar mais alto for o da frustração, tudo bem. Aí estará escancarado um ponto de mutação. Pode ser o momento propício para rever conceitos, repensar estratégias e buscar outras metas, mais viáveis.

Errar faz parte 

Há uma história que narra um breve diálogo entre um discípulo e seu mestre. O primeiro pergunta: “Mestre, como faço para me tornar sábio?”. O mestre responde: “Boas escolhas”. “Mas como fazer boas escolhas?” “Experiência”, acrescenta. “E, então, como adquirir experiência, mestre?” “Más escolhas”, conclui o sábio.

Durante a vida, é inevitável errar. Assumir a responsabilidade pelos efeitos de nossas escolhas, sem culpar outras pessoas, é o primeiro passo para uma boa resolução. Depois, é necessário limpar mágoas e frustrações e fazer um balanço do vivido, de modo a aprender com ele e não repeti-lo. “A decisão de se colocar em processo
de autoconhecimento e trabalhar sobre si mesmo é o maior ato de liberdade que alguém pode ter”, diz o violoncelista e professor de euritmia Claudio Bertalot, estudioso da antroposofia, criada pelo austríaco Rudolf Steiner no início do século XX.

Não há nada de errado em falhar. E a vida, de quando em quando, surpreende com situações para as quais não nos sentimos preparados. Mas, se estivermos centrados, firmes em nossos propósitos, mesmo o desconhecido e o inesperado podem encontrar pouso tranquilo em nosso coração, mente e ações no mundo.

Bertalot comenta o resultado de uma pesquisa internacional sobre consumo, que mostrou que, no supermercado, quando as pessoas fazem escolhas em menos de 25 segundos, a tendência é tomarem decisões influenciadas pela mídia, por impulsos do corpo e do cérebro. “São respostas automáticas, padronizadas, ligadas a convenções, medos e outros aspectos, digamos, não exatamente livres do nosso ser”, diz. A instantaneidade nubla o discernimento, ao passo que as boas escolhas e a verdadeira liberdade vêm de ações ponderadas e genuínas. “Se a pessoa para por mais tempo para refletir, consegue ser mais consciente, atravessar a ação padronizada e se aprofundar na realidade”, explica o antropósofo.

A prática de silenciar diante das coisas confere ainda calma à existência. “Quem não faz isso costuma ser mais irritadiço, nervoso, intolerante e facilmente magoável, porque não tem esse espaço de reflexão, que pode ser muito curador”, avalia Bertalot. Ao contrário, quando realizamos um ideal que espelha nossas motivações
mais profundas, temos um prazer muito grande. “Toda ação genuína gera felicidade”, completa.

Liberdade à prova 

Mesmo quando não tomamos uma atitude, estamos decidindo algo. O filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) escreveu: “Posso não ser responsável pelo que fi zeram de mim, mas sou responsável pelo que faço com aquilo que fi zeram de mim”. Em outras palavras, não se iluda: deixar as coisas como estão também é uma escolha. “Estamos condenados à liberdade” é o mantra dos existencialistas.

Ainda que exista uma aparente sensação de falta de opções para transpor uma crise, ou que impere a insistência cega – mesmo que inconsciente – em persistir no
rumo que já se mostrou falho, tudo pode sair da paralisia quando você se der conta de que é possível mudar uma pedrinha aqui ou ali nesse seu mosaico. A esperança é a irmã mais velha da liberdade. E essa ideia não é apenas uma frase bonita. “As coisas mudam o tempo todo. Eis a dimensão da nossa liberdade, característica essencial do ser humano que nos ensina que a esperança precisa ser maior do que qualquer medo, sempre”, defende o professor Hélio Deliberador.

Nosso tempo nos surpreende a cada dia com arranjos inéditos – para muitos, ainda escorregadios. É preciso respirar e compreender que toda boa decisão nasce de uma base fundamental: se reconhecer de fato. E se você se enganar? Somos livres para mudar de rumo e reposicionar as peças. Outra vez.

Meditação rima com boas escolhas

Todos os dias, tomamos dezenas de decisões: o que comer no desjejum, o que vestir, como chegar ao trabalho, o que ler, onde almoçar etc. A essas ponderações triviais – nem por isso menos importantes – somam-se outras tantas. Lidar com esse volume de demandas pode ser exaustivo e muito desafiador. Segundo a australiana Caroline Ward, consultora de desenvolvimento humano e coordenadora da sede da organização Brahma Kumaris em Santiago (Chile), a meditação é uma prática eficaz para afiar o discernimento.

CORPO RELAXADO, MENTE ESPERTA

Caroline afirma ser mais difícil tomar decisões quando estamos cansados. “Há pesquisas mostrando que, quando o corpo sofre muita pressão, o cérebro trava, fica embotado. O corpo precisa estar relaxado para que a mente possa funcionar melhor e encontrar saídas”, diz. Descansados, não gastamos energia à toa, conseguimos raciocinar melhor e temos mais chances de fazer boas escolhas.

ROTINA PREVENTIVA

“Quando a pessoa se acostuma a entrar em contato consigo mesma, fica mais consciente do que a mente e o corpo estão fazendo”, diz a consultora. “Com o tempo, se ela percebe que vai ficar tensa, respira fundo e relaxa antes de perder o controle. Para, caminha, refresca a cabeça e depois retoma o que estava fazendo”, explica. Em outras palavras, incluir a meditação como parte da nossa rotina nos poupa de situações-limite e abre uma chave para o autoconhecimento. Para tanto, ela recomenda praticar o relaxamento, com um recolhimento de 20 minutos, duas vezes ao dia. Sente-se com os pés no chão e as mãos repousadas sobre as pernas. Começando pela
cabeça, observe cada parte de seu corpo, respirando profundamente. Ao notar alguma tensão, procure dissolvê-la a cada expiração.

VALORIZE OS BONS PENSAMENTOS

Sabemos que nossa mente reage ao comportamento do corpo e vice-versa. Isso é o bastante para estarmos sempre atentos aos nossos pensamentos. Aqueles que nos
sabotam e nos colocam para baixo devem ser reduzidos, ao passo que podemos valorizar os que nos elevam e nos movem para a frente. “É um processo para a vida toda, mas, uma vez que iniciamos, ganhamos maior consciência para decidir: ‘É isso mesmo que quero para mim?’. O importante é experimentar. Você tenta, dá um tempo para sentir os efeitos, ver o resultado e saber se isso está funcionando na sua vida”, completa Caroline Ward.

MAIS TEMPO PARA AS PESSOAS AMADAS

Durante o período em que seu marido esteve internado numa clínica para pacientes terminais de câncer, a consultora conversou muito com as enfermeiras, que disseram
a ela que a palavra que os pacientes mais repetiam nessa fase era “arrependimento”. “A maioria se arrependia de não ter passado todo o tempo que gostaria com as pessoas amadas”, conta Caroline. Essa pode ser uma boa reflexão para considerarmos em todas as nossas decisões daqui por diante, não? O que é realmente prioritário e precioso para você? Pense com carinho sobre isso.

06/10/2017 - 10:49

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