Onde está a esperança?

Por mais que a realidade esteja nublada, há uma força que habita em nós capaz de nos livrar da apatia e de vislumbrar saídas

Texto: Raphaela de Campos Mello / Fotos: Paulo Santos / Ilustrações: Tiago Gouvêa

Onde está a esperança? | <i>Crédito: Texto: Paulo Santos
Onde está a esperança? | Crédito: Texto: Paulo Santos
Zóvar, lavrador judeu nascido na Hungria, conheceu as trevas do Holocausto. Liberto da perspectiva da aniquilação, migrou para a América, onde reconstruiu sua vida na zona rural. Para ele, campo nenhum era perdido. Por mais que a terra exibisse sinais de esterilidade, ele confiava que, cedo ou tarde, os pássaros trariam as sementes, a
chuva viria e algo bom nasceria do solo recuperado.

Quem nos conta essa história é a analista junguiana Clarissa Pinkola Éstes no livro O Jardineiro Que Tinha Fé (ed. Rocco). O valente húngaro que não perdeu a esperança era seu querido tio, e simboliza a força vital que, apesar das intempéries, segue pulsando dentro de nós. “É verdade que em muitos lugares o Éden está enterrado e esquecido, mas pode ser restaurado. Onde quer que haja terra sem uso, mal utilizada ou exausta, ele ainda está bem ali embaixo”, costumava dizer o sábio camponês.

Nesses tempos nublados, que encobrem perspectivas em todas as áreas do viver, a confiança no futuro pode minguar a cada passada de olhos no noticiário. Em março,
como se não bastasse a quantidade de fatos políticos, econômicos e de falta de segurança que desanimam o cotidiano brasileiro, a Organização das Nações Unidas (ONU)
assinalou que o Brasil caiu quatro posições no índice dos países mais felizes do mundo (lista diretamente associada ao bem-estar da população). Descemos do 18º lugar para o 22º. Diante desse cenário, é humano pensar que os dias serão assim daqui para a frente, cinzentos, sem a possibilidade de voltar a florescer. Seria esse nosso futuro?
Sem nada para acreditar? O motor da vida estaria emperrado?

Certa vez, o escritor Rubem Alves quis saber onde estava a própria esperança. Depois de um tanto de reflexão, descobriu. “Numa multidão de indivíduos, independentemente do seu lugar social ou econômico, que vivem possuídos pelo sonho da vida, da beleza e da bondade”, escreveu numa crônica. O saudoso educador se referia àquela semente gerada no coração, que nos ajuda a vislumbrar saídas em vez de alimentar o medo. Aquela firmeza interior que nutre, acalma e alegra porque se ancora no valor da vida, sempre apta a se renovar. “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”, diferenciou o poeta.

“Não procure, pois, esse sentimento na mente, morada da expectativa. Ela só serve para ser frustrada, porque a vida não vem com script para ser seguido. Vá direto ao peito, berço da esperança que tem olhos para o futuro, sim, mas raízes bem fincadas nos canteiros do presente”, concorda a psicoterapeuta paulista Lucia Rosenberg.
Segundo ela, a aliança entre o coração e o caminho que queremos trilhar traz a reboque a consciência de que é preciso lançar a semente, regá-la, remover ervas daninhas, enfim, investir nossas melhores energias para que o que desejamos floresça.

Mãos na enxada Eis aqui uma importante lição. Não confundir esperança com passividade. Uma coisa é aceitar o tempo do Universo, que faz tudo brotar na hora certa. Outra bem diferente é ficar de braços cruzados. “A esperança é o que nos induz a fazer da vida um projeto, e está entrelaçada à fé e ao amor”, diz o teólogo e filósofo Frei Betto no livro Sobre a Esperança – Diálogo (ed. Papirus), escrito em parceria com o educador Mario Sergio Cortella. O interessante é que Cortella entende o amor como um “inconformado” que nega se apequenar diante das circunstâncias. “Essa amorosidade transbordante rega a esperança ao transpor as bordas, sair dos seus limites.” E, assim, dá vazão à mais pura assertividade: “Eu desejo, pode ser, vou procurar e será”.

Esse impulso que se fia pela determinação tem por base uma visão realista sobre como podemos lidar com os períodos de estiagem e, ao mesmo tempo, seguir cultivando sonhos. 

Mesmo em pleno sufoco, podemos avaliar o terreno com maturidade. O que posso fazer de melhor com os recursos de que disponho agora? Com quem posso contar para chegar aonde desejo? De que preciso abrir mão para alcançar minha meta? Posso fracioná-la em objetivos menores até atingir o plano maior? Por exemplo, tenho
apenas um punhado de milho, então plantarei uma parte e com a outra farei polenta. “A imaginação, substrato da esperança, vai alimentando caminhos e confirmando a validade dos nossos ideais”, afirma Sigmar Malvezzi, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, especialista no estudo da felicidade.

Já notou que pessoas convictas de que as coisas irão se resolver costumam esbanjar viço e frescor? Isso acontece porque a esperança neutraliza a apatia. “Pessoas com pensamentos esperançosos tendem a descobrir mais estratégias para lidar com o estresse e conseguem ver benefícios advindos das adversidades”, acrescenta a psicóloga
Helen Durgante, pesquisadora do tema da resiliência na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Às vezes, ela alerta, só precisamos recorrer ao adubo certo, que já existe em nós. “Aquele que não se conhece suficientemente não enxerga as características que podem ajudá-lo a superar o problema. Portanto, está mais suscetível a cair em desesperança.”

Se alguém duvida da própria capacidade de enxergar saídas para problemas complexos, pode ser muito válido embarcar no filme As Aventuras de Pi (EUA, 2012, direção: Ang Lee). À deriva e acompanhado por um tigre no barco salva-vidas, o náufrago indiano enfrenta, como muitos em terra firme, uma série de situações perturbadoras: perda, desorientação, medo, privação, ameaça de ser engolido pelas adversidades e oscilações do cotidiano. Felizmente, à medida que luta para se manter vivo, o jovem vai se descobrindo, desenvolvendo habilidades, inventando maneiras de conviver com a fera e, acima de tudo, fortalecendo a fé em sua salvação.

Nas fases mais duras da vida, é o que boa parte das pessoas faz. Se abastece desse poderoso combustível para se superar e se reinventar. A vida é uma construção, e a gente precisa alimentar o ponto de chegada, sabendo que é capaz de enfrentar o que surgir pelo caminho ”, defende Malvezzi.

Adubo primordial O desabrochar da confiança em horizontes mais verdes não pressupõe apenas movimento, ação, mas também sentido. Por que escolho perseverar
nesse caminho? A resposta para o engajamento pode ser o bem próprio ou até o bem de uma coletividade, compartilhando experiências e aprendizados, ajudando a instrumentalizar os outros com suas histórias de vida e sabedoria.

O espírito de partilha foi um dos aspectos que nutriram um grupo de 20 mulheres com câncer de mama na cidade de Jundiaí, no interior paulista. A experiência, que focou na resiliência e na estruturação da esperança dentro dessa rede, resultou na dissertação de mestrado da psicóloga Rosa Maria Vicente pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No decorrer dos encontros terapêuticos, a pesquisadora pôde testemunhar uma linda colheita de novos significados e percepções. “As participantes puderam se reconhecer umas nas outras, extraindo da vivência alheia possibilidades de ação e renovando o compromisso com a vida”, ela conta. Descobrir-
se capaz de ajudar uma companheira de travessia, seja sugerindo maneiras de amarrar lenços na cabeça, seja orientando como proceder com as mamas artificiais, fez com que as integrantes do grupo pudessem transcender as agruras impostas pela doença de forma mais profunda e esperançosa.

Esse afeto que norteia certas trocas é uma seiva capaz de revigorar até mesmo os solos mais cansados. Haja vista a revolução amorosa que tomou conta de um asilo localizado em Seattle, nos Estados Unidos. Há 25 anos a morada dos idosos passou a integrar uma creche. Em clima de festa, as pontas da existência brincam,
cantam, conversam, se aconchegam, partilham as refeições etc. Os pequenos se afeiçoam aos idosos, enquanto estes voltam a ver graça no cotidiano, além de se sentirem úteis em muitos momentos. Ao abotoar o casaco de uma criança, uma senhora na cadeira de rodas exclama: “Ainda posso fazer isso!”. “É mágico o que acontece todos os dias aqui”, afirma a fundadora do asilo-creche, Sharlene Boid.

A oportunidade de se sentir valioso de alguma forma para a sociedade é justamente o que rega a semente da vida em muita gente, a exemplo dos ex-detentos que procuram o projeto Segunda Chance, promovido desde 2008 pela ONG carioca AfroReggae. Através da agência, que só admite como funcionários pessoas que cumpriram suas penas, eles conseguem se inserir no mercado de trabalho, com o acompanhamento da equipe. Nos últimos cinco anos, 504 egressos puderam reconstruir sua vida a partir desse empurrão. “Um combustível para sonhar com o futuro e manter-se motivado para vencer as barreiras que certamente aparecerão pelo caminho”, entende Luiz Rogério Casanova, integrante do projeto.

Uma chance para a felicidade pode ainda brotar de pequenos gestos como o de assumir os cuidados de uma pracinha do bairro. Essa singela atitude trouxe alento para Alexandre Martinez, morador da Cracolândia, no centro de São Paulo. Viciado em crack, o ex-jardinheiro passou a cuidar diariamente das plantas. Revitalizou o
espaço em três meses. Em troca, por interagir com a terra, Martinez tem conseguido aplacar a ansiedade, reduzir o consumo de drogas e embelezar a cidade. “Quando levanto, agradeço por mais um dia”, revela ele. A gratidão, aliás, é fertilizante dos mais importantes. “Passamos a mirar a vida sob as lentes daquilo que já temos de
bom”, sublinha a psicóloga Helen Durgante.

Plantio coletivo Um belo canteiro assentado sobre as bases da solidariedade vem espalhando brotos graças à The Enspiral Network, rede global fundada há sete anos na Nova Zelândia com o propósito de lançar start-ups que auxiliem o empreendedorismo comprometido com as boas causas. A filosofia de Theodore Taptiklis, membro da iniciativa, é bem simples: sabemos o que há de errado com o mundo, então só precisamos fazer algo a respeito. No caso da Enspiral, isso significa estimular o financiamento coletivo de projetos, desenvolver organizações não hierárquicas, orientar os jovens a encontrar rumos criativos e transformadores para suas comunidades e solucionar a deficiente distribuição de alimentos nas sociedades, entre outras ações colaborativas. “Meu objetivo é criar métodos para que as pessoas possam se conhecer, se relacionar e aprender a trabalhar intensamente umas com as outras”, diz Taptiklis.

Incentivar projetos sustentáveis também é a razão de ser do estúdio de inovação social e design Umcomum, de São Paulo. “Temos visto um senso coletivo de pertencimento e possibilidade de mudança aflorar em comunidades onde as ações do indivíduo visam o bem coletivo, e não apenas o individual”, relata Fabio Salmoni,
sócio de Camilla Annarumma no Umcomum. Segundo ele, para fazer germinar soluções transformadoras é fundamental se juntar a pessoas que não temem tirar seus projetos do papel e testá-los no mundo concreto. Essa sinergia já resultou, por exemplo, na 4YOU2, escola de inglês de baixíssimo custo, com 100% de professores estrangeiros, localizada em regiões periféricas de São Paulo; na Litro de Luz, ONG global encarregada de disseminar iluminação à base de garrafas plásticas, painéis solares e lâmpadas de LED em localidades desprovidas de energia elétrica; na Moradigna, escritório paulista que oferece reformas de baixo custo a moradores de baixa renda, entre outros tantos projetos que reafirmam a fé num futuro mais fértil.

Zóvar, o jardineiro que tinha fé de Clarissa Pinkola Éstes, estava certo. Para voltar a vicejar, o Éden só precisa de mãos confiantes e amorosas.

05/06/2017 - 09:00

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