De olhos bem abertos para poder confiar

A lealdade aos nossos valores mais caros é o que alimenta nossa integridade e autoestima. Por isso mesmo ela precisa ser repensada e arejada de tempos em tempos

Texto: Raphaela de Campos Mello

De olhos bem abertos para poder confiar | <i>Crédito: ShutterStock e iStock
De olhos bem abertos para poder confiar | Crédito: ShutterStock e iStock
Era uma vez um rei que tinha tudo: dinheiro, saúde, família, prestígio. Um revés do destino, contudo, o levou a ficar sem nada, ser banido do seu reino e vagar como mendigo. Apenas um cachorro lhe fazia companhia e permaneceu ao seu lado nos momentos mais difíceis, de fome e sede. Certo dia, o andarilho chegou a outro reino, onde finalmente foi reconhecido e amparado com a oferta de roupas limpas, cama, banho e comida farta. A única condição para cruzar o portão do palácio era que o vira-lata ficasse de fora. “Sem o cão, eu não entro”, anunciou o homem, pronto a perder tudo mais uma vez. Ao testemunhar tal posicionamento, o soberano o admitiu: “Era justamente essa resposta que eu esperava ouvir de um nobre”. Há algumas versões dessa história, mas ela ilustra a lealdade como prova de caráter que habita nosso imaginário. Um comprometimento belo e merecedor de aplauso.

Em geral, é o que move os heróis de HQ, capazes de ir até as últimas consequências em nome do bem. Mas e aquela lealdade ao amigo de infância que tem sobrenome Stalin ou Hitler e  que, com os anos, formou uma sui generis visão sobre os direitos humanos? 

A questão é o que ou quem merece de fato a nossa fidelidade e até que ponto esse comprometimento se justifica. Sem essa revisão fica difícil renovar as convicções e repensar os caminhos rumo a uma vida mais íntegra. 

“O tema da lealdade é intrínseco ao Homem. Todo pensador que se debruçou sobre os dilemas da existência passou por ele”, afirma Adriano Soler, professor de filosofia da Casa do Saber, em São Paulo. Platão, por exemplo, considerava a lealdade um atributo inato do ser humano, uma virtude que nos acompanha e só precisa ser rememorada de tempos em tempos. Já Aristóteles entendia que esse atributo deveria ser desenvolvido pelo hábito, ou seja, nos tornamos leais à medida que praticamos a lealdade. Adiante surge a figura de Jesus Cristo com sua regra de ouro: “Não faça aos outros aquilo que não quer que seja feito com você”. “Um pensamento mais profundo porque trata o outro como a si mesmo, ou seja, não ser leal com o outro é não ser leal consigo mesmo”, destaca Soler. 

O curioso – e muita gente nem sequer desconfia – é que a lealdade está na raiz da nossa autoestima. A psicanálise explica tal fenômeno. A certa altura da infância, descobrimos que não somos perfeitos, o que produz um baque em nossa autoimagem. Para nos recuperarmos desse choque de realidade, criamos certos valores que se tornam parte do Eu – tais como amizade, família, comprometimento com causas sociais e ambientais, posições éticas ou políticas – e, no decorrer da vida, tentamos atingi-los. Pelo menos, dentro do possível. Quanto mais intensamente conseguimos viver de acordo com esses valores, mais perto da “perfeição” nos sentimos e, consequentemente, maior é o nosso amor-próprio. “Se trairmos esse valores em troca de algum prazer ou benefício efêmero, perdemos algo muito mais fundamental, que é a autoestima”, destaca a psicanalista Marion Minerbo, de São Paulo. Em tese, se sucumbimos a impulsos “menores” como egoísmo, maledicência ou negligência, esfolamos a autoapreciação. Naquele olho no olho em frente ao espelho, a imagem refletida, nessa hora, não é tão digna de admiração assim. 

Ainda segundo o viés psicanalítico, a lealdade está sempre relacionada a valores e só por tabela a pessoas. Um exemplo para entender melhor essa ideia: Pedro é fiel ao amigo Paulo tanto quanto o é aos amigos Miguel, Frederico e Afonso. Ele jamais favoreceria um deles em detrimento dos outros porque seu comprometimento maior é com o sentimento de amizade, que abarca seus afetos como um todo. Trocando em miúdos, quem é leal a um amigo é leal a todos.

Miragens à vista É duro constatar que, em certas situações, a deslealdade é fruto da escolha deliberada. Por exemplo, quando traímos a confiança de alguém em benefício próprio. Pode acontecer com qualquer um. Afinal, não somos os heróis irretocáveis de HQ que, mesmo em situações de extrema pressão ou necessidade, sempre escolhem a saída mais elevada. Você já deve ter ouvido histórias do mundo empresarial em que um colega de trabalho, ávido por abocanhar determinada posição, deixa de dar o devido crédito ao desempenho do companheiro no projeto que ambos tocaram. É quando o “cada um por si” triunfa. “Esse tipo de posicionamento acaba criando uma geração fragmentada que não se une em prol de algo comum”, diagnostica Soler. 

Também pode acontecer de o problema não estar na deslealdade propriamente dita, e sim na adesão a valores desprovidos de “sustância” ou, se preferir, “miragens” disfarçadas de valores, como ter o corpo perfeito, fama e dinheiro – produtos da corrida alucinada pela autossatisfação. É aí que a lealdade se equivoca e a autoestima comentada no início desta reportagem se vê abalada pelo flerte com valores frágeis ou questionáveis. “Nada disso ‘mata a sede’, isto é, serve para sustentar a autoestima, exceto por um prazo muito curto. Em compensação, pessoas alinhadas a valores como amizade, sustentabilidade, causas sociais e políticas estão menos sujeitas a se deixarem seduzir e se frustrar por miragens, porque há algo de mais consistente sustentando seu amor-próprio”, opina Marion. 

Transgredir para expandir Em algum ponto da jornada, no entanto, a verdadeira fidelidade depende de um rompimento. Para sermos fiéis aos nossos valores mais caros e seguirmos crescendo, temos que ser “desleais” a certas ideias, pessoas ou instituições. Para o rabino Nilton Bonder, há momentos em que a traição é da ordem da transcendência, ou seja, de pensar de forma mais ampla. “A fidelidade hipócrita é um compromisso com o passado que obstrui o presente e o futuro”, ele sublinha na obra A Alma Imoral (ed. Rocco). O que ele quer dizer é que, às vezes, precisamos desconstruir nossa velha morada para que possamos erguer uma casa nova, maior e mais bem ventilada. 

Foi isso, felizmente, o que aconteceu com Carl G. Jung. O discípulo de Freud começou a colecionar ideias próprias contrárias ao pensamento do seu mentor. Essa autonomia intelectual tomou tal dimensão que, a certa altura, o aprendiz não teve outra escolha a não ser romper com o mestre e fundar sua própria linha de pesquisa, que resultou na psicologia analítica. 

Ou seja, nem toda deslealdade é uma puxada de tapete. Nem toda deslealdade é uma ferida aberta no peito alheio. Às vezes é uma necessária guinada de rumo. Do contrário, compactuamos com a nossa própria estagnação. Mudar para continuar igual é o lema – ou seja, para continuar se sentindo em sintonia consigo mesmo também é preciso romper (com uma dieta gostosa que a mãe prepara mas que engorda, com as saídas noturnas para beber com os amigos se o álcool tornou-se um problema). 

Se a lealdade tem como propósito agradar aos outros, seja no interior da família, seja no círculo de amizades, seja no mundo profissional, ela não mata a nossa sede, como já dito aqui. Um filho que decide cursar a faculdade de medicina somente para atender ao desejo do pai médico, quando, na verdade, sempre quis ser músico, está negando a própria verdade em nome da obediência. Por lealdade ao pai, pode ser que se torne um médico frustrado, porque foi desleal consigo mesmo. 

A desobediência a alguém, a um voto ou mesmo às leis estabelecidas se faz necessária quando esse pacto passa a nos apequenar ou ferir nossos valores. Um exemplo recente mundialmente noticiado foi o da procuradora-geral interina dos EUA Sally Yates, demitida pelo presidente Donald Trump porque foi contra o decreto presidencial que proibia a entrada no país de refugiados e de cidadãos de sete países predominantemente muçulmanos. Sally ordenou o não cumprimento do decreto, por considerá-lo inconstitucional. Preferiu seguir a Constituição americana do que o atual chefe de Estado do seu país. Outro exemplo inesquecível foi protagonizado pelo empresário alemão Oskar Schindler, retratado no filme A Lista de Schindler. Ele desafiou o nazismo ao empregar mais de mil judeus em sua fábrica, manobra que acabou salvando essas pessoas. Em vez de ser leal ao seu governante, Schindler se manteve fiel aos valores humanistas. 

O mesmo senso de justiça levou Mahatma Gandhi e Martin Luther King a promover atos de insubordinação civil. Ambos convidaram os cidadãos a dar as costas às leis de seus países, uma vez que elas estavam prejudicando a coletividade. “A desobediência, que, a princípio, na infância aprendemos que é ‘feia’ e inaceitável, pode muitas vezes até nos salvar”, ressalta Myrella. “Aquele que é leal não deve nutrir uma lealdade cega. Não devemos ser leais a um chefe corrupto ou a uma conduta réproba”, lembra Adriano Soler. 

Consciência ou fanatismo 

Nem sempre temos plena consciência do grau de lealdade que imprimimos às nossas escolhas. É por isso que a adesão irrestrita a certos caminhos pode beirar o fanatismo. A fronteira entre a lealdade e a entrega absoluta muitas vezes tem contornos difusos. Segundo Marion, no entanto, nutrir uma lealdade saudável significa preservar a capacidade de avaliar as situações e de fazer opções com base no que o indivíduo pensa e deseja para si e para sua vida – e não de uma paixão que embota a razão. Já o fanático está perdidamente apaixonado, por exemplo, diante do líder que encarna uma ideia. “Para garantir seu amor e proteção, ele abre mão da capacidade de pensar por si mesmo e passa a cumprir tudo o que o outro decide numa submissão incondicional”, exemplifica a terapeuta. 

Para que a lealdade não se converta em qualquer tipo de rigidez  insana, ela precisa ser constantemente vigiada e atualizada. De tempos em tempos, vale se indagar: “Essa crença ainda faz sentido para mim? Outro valor ainda mais caro que o anterior está se mostrando? Tal pacto está me aprisionando ou me libertando?”. Não raro, diante desse inventário, alguns contratos terão que ser refeitos; outros, abandonados por completo. 

No ano de 2013, a terapeuta Myrella Brasil passou por essa reavaliação. Moradora de Goiânia, ela vivia estressada e infeliz na cidade. Algo de muito essencial estava ausente da rotina dela: a simplicidade que se encontra na natureza. Então ela se mudou com o marido e três filhas pequenas para uma comunidade que assistia crianças carentes numa área rural de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. O casal largou os respectivos empregos e se desfez de móveis e utensílios a fim de viver somente com o que todos tinham acesso comunitariamente no local. “Permanecer leal a esse chamado interno me levou a uma experiência tão intensa e profunda que me permitiu vivenciar um amor e liberdade indescritíveis”, revela. Ao longo de três anos vivendo nesse formato, a terapeuta pôde investir suas melhores energias no autoconhecimento. E, de quebra, fez a diferença na comunidade: cuidava das crianças, cozinhava, plantava, colhia, meditava, realizava terapias. Ao retornar a Goiânia, em julho do ano passado, a família optou por continuar levando um estilo de vida comedido, abrindo mão do desnecessário e do supérfluo. Um jeito de se manter em sintonia com a espiritualidade, valor fundamental para a terapeuta e os seus.

Myrella optou por ser fiel ao seu coração, morada da intuição, e encontrou no fortalecimento da sua integridade a paz de espírito. Esse é o caminho proposto pelo paulista Fernando Belatto, professor de artes marciais e criador do método O Despertar do Guerreiro Interno – O-DGI, que conjuga artes marciais e autoconhecimento. Para ele, a lealdade passa obrigatoriamente pela confiança na voz do coração, nosso mestre interno. “Quanto mais leal ao seu coração, mais livre a pessoa se torna, pois pode ser aquilo que ela é, integralmente”, esclarece Belatto. Um ser capaz de dizer: “Sem o cão, eu não entro”. 




12/04/2017 - 11:49

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