Criatividade é a vida se divertindo

Com tantos chamados para encontrarmos melhores saídas para novos e velhos problemas, ser criativo deixou de ser apenas desejável. É questão de sobrevivência. E está ao alcance de todo mundo... pura questão de treino. O segredo é a conexão

Texto: Raphaela de Campos Mello e Kátia Stringueto / Fotos e ilustrações: Tiago Gouvêa

Criatividade é a vida se divertindo | <i>Crédito: Tiago Gouvêa
Criatividade é a vida se divertindo | Crédito: Tiago Gouvêa
De passagem pela Índia para cumprir um programa de estudos, a artista plástica americana Janet Echelman não conseguiu expor suas pinturas a tempo. Para extravasar a frustração, ela buscou a praia. Como de costume, pescadores costuravam suas redes e Janet se deixou hipnotizar pela cena. Minutos depois, o clarão. Ela poderia criar esculturas com aquele material tão acessível. Nascia uma novíssima maneira de fazer arte. De lá pra cá, a artista projetou dezenas de imensas esculturas flutuantes inspiradas no movimento das redes de pesca. Todas, sem exceção, embelezam cidades mundo afora.

A experiência criativa, em qualquer área da vida (não pense que se trata de dom raro presente exclusivamente nos artistas), só é possível quando, a exemplo de Janet, conseguimos olhar para algo trivial ou familiar de um jeito inédito. Inverter a lógica. Ligar pontos aparentemente desconexos (como encontrar uma parede trincada
e imaginá-la remendada com linha e agulha, a exemplo da foto que abre esta matéria e das três outras imagens que a ilustram). Tudo isso vale para progredir na vida, buscar uma fonte de renda extra, recomeçar um negócio. E também para resolver questões prosaicas como encontrar um jeito mais cativante de fazer o filho se alimentar, bolar um novo layout para a sala de estar, engajar o condomínio num mutirão. Como diz o psicólogo americano Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional, “a vida diária é um grande campo para a inovação e a solução de problemas, ou seja, para o fluir do espírito criativo”. Tanto mais hoje em dia, com os múltiplos chamados para encontrarmos melhores saídas para uma, digamos, ampla lista de problemas. Novos e velhos.

Beber na fonte da criatividade deixou de ser apenas desejável. É questão de sobrevivência. No mundo corporativo está entre as características mais críticas da liderança moderna; na educação, permite levar a experiência da aprendizagem a patamares mais significativos e envolventes; e, no campo da psicologia, é considerada uma das formas mais elevadas de autorrealização.

Em todos os campos, o que está por trás desse recurso é a capacidade de fazer conexões até então impensáveis. Exatamente o que sugerem a dinamarquesa Dorte Nielsen e a americana Sarah Thurber, autoras do livro The Secret of the Highly Creative Thinker: How to Make Connections Others Don’t (O Segredo do Pensador Altamente Criativo: Como Fazer Conexões Que os Outros Não Fazem, ainda sem tradução para o português). As especialistas em criatividade e docentes no International Center for Studies in Creativity, nos Estados Unidos, nos lembram que Picasso, pesquisador de diferentes culturas, era mestre em estabelecer conexões.
Em 1942, ele reuniu um selim de bicicleta com um guidão e fez a escultura Cabeça de Touro, em que o selim virou a cabeça e o guidão, os chifres. Transpondo esse gesto para o cotidiano, percebemos que a capacidade de fundir ideias e encontrar respostas até então ocultas é peça-chave da descompressão e, portanto, do bem-estar.
Afinal, espanar o pó da mente, permitir-lhe arejar e encontrar soluções traz uma satisfação danada.

Deixar ir 

Um antigo provérbio chinês diz que “quando os ventos da mudança sopram, alguns constroem paredes, outros, moinhos de vento”. Ser criativo é integrar o segundo time. Como fez o sr. Moser, de Uberaba, MG. Em 2001, diante da crise de energia elétrica que o país vivia, o mecânico traquinava com seus botões sobre o que poderia fazer para levar luz a áreas sem fornecimento de energia. Um dia, durante a visita a uma prima, percebeu que uma garrafinha PET refletia a luz do Sol na parede. Chegou em casa, pegou uma garrafa igual, encheu de água e abriu um espaço no teto para encaixá-la. A luz do Sol bateu e iluminou o ambiente. Com o tempo, a água
embolorou e lá estava o sr. Moser para resolver o problema: acrescentou um tiquinho de alvejante ao líquido. Pronto: estava criada a lâmpada de Moser, invenção que o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, apresenta na exposição Inovanças – Criações à Brasileira, em cartaz até outubro. No documentário em exibição, o inventor da ideia, que começou a pipocar pelas casas mais carentes e sem energia, diz: “Conheci o Chico Xavier e ele me disse que eu ia ter luz na minha vida. E que essa luz
não seria só minha. Ia ser do povo”.

Largar, soltar, se desapegar de modos antigos de pensar e de funcionar permite que o frescor volte a habitar nossas mentes e corações. Como nos lembra a radialista americana Julie Burstein, que se dedica a entrevistar pessoas criativas e compartilhou sua bagagem numa conferência da ótima plataforma TED, a criatividade é uma experiência que cresce nas experiências do dia a dia muito mais vezes do que imaginamos. E também cresce das rupturas, da falta de controle sobre as coisas. Se um ciclo precisa se encerrar para que outro comece, aceite, confie que algo melhor há de surgir; se uma dificuldade quer lhe ensinar algo que você ainda não sabe, aprenda; se você já investiu tempo demais em algo e não obteve resposta, desista. O gesto de deixar ir também é importante para se libertar do que inibe a inovação. “Podemos sustentar a tensão entre o que podemos controlar e o que temos de abandonar”, encoraja Julie. Então, se não saiu exatamente como você imaginava, olhe novamente.
Pode ser diferente do que se pensou no início, e isso pode ser bom.

Livre como criança 

Todos precisamos de um pouco de ingenuidade para seguir em frente. Olhar para as coisas sem julgá-las ou rotulá-las é especialidade da criança interior, arquétipo que representa a permissão para inovar. Repare como os pequenos se permitem explorar livremente – sem qualquer vestígio de censura – o que está em seu campo de visão. Interagem com as coisas pela frente e pelo verso, de pé ou de ponta-cabeça, admiram-se cem vezes ao dia com o ambiente e com as pessoas que nele transitam. Não há fronteiras para cercear suas fantasias. Diferentemente dos adultos, que parecem abandonar essa liberdade com o vaivém da vida.

“Temos muito medo de errar e também do julgamento alheio”, opina Viviane Rojas, atriz, bailarina, cantora e escritora paulista, que ministra o workshop Criatividade e Autoexpressão, em São Paulo. Só que, temendo tanto o erro, pouco arriscamos. Uma dose de improviso faz parte. “O processo criativo fala por si mesmo, não precisamos da aprovação do outro, do reconhecimento externo ou que aquilo tenha um resultado predeterminado. Assim estamos realmente criando, e não apenas tentando nos encaixar, movimento ao qual estamos tão acostumados”, reforça a educadora Ana Thomaz, que pesquisa os caminhos que dão sentido à vida.

Ir muito além do mero encaixe deveria ser, aliás, questão de honra nas escolas. Afinal, se não estivermos preparados para estar errados, nunca estaremos preparados
para ter uma ideia original. Mas, infelizmente, a maioria das instituições de ensino ainda privilegia o aspecto racional do saber, como se cada disciplina fosse uma área estanque, o que tolhe o desabrochar da espontaneidade. Até o ponto em que o medo de errar, a maior armadilha para a inovação, já está instalado. Nossa tarefa é educar os pequenos em sua totalidade. “Em vez de oferecer um programa pronto, nosso papel enquanto adultos é dar estrutura, base. A partir dela, as crianças perceberão que as possibilidades de experimentação são infinitas – desde que tenham sua expressão legitimada”, acredita Ana.

É assim que a liberdade criativa vai aos poucos se espraiando dentro da gente. Do aval interior vem a autorização para criar uma agenda mais flexível e interessante, que oscile sem culpa entre dever e prazer. Para Alexandre Teixeira, autor de Rotinas Criativas – Um Antimanual de Gestão do Tempo para a Geração Pós-Workaholic
(ed. Arquipélago), a vida se redimensiona quando inserimos “pequenas rebeldias” no dia a dia. Ir a uma exposição de arte, conhecer um bairro, fuçar um livro, interromper a rotina com algo inusitado. Ou, se preferir, ligeiras fugas para o mundo interior ou para afazeres e lugares que nos revitalizam e devolvem o gosto de
inventar. Pode ser reservar uma manhã para visitar um templo, assar um pão especial no meio da tarde, almoçar no município vizinho e voltar só para sentir a vibração da estrada. “O importante é dar espaço para a surpresa, pois a repetição e o enfado embotam o pensamento”, ele destaca.

No reino do devaneio 

Momentos de distração também são nutritivos. Deixam a mente de “molho” num caldo sem tantas ordens e limites e, por isso, rico em potenciais. Steve Jobs, o mago
do iPhone, dizia que suas melhores ideias apareciam enquanto caminhava pelos jardins da Apple. O neurologista Oliver Sacks tocava piano por alguns minutos antes do almoço, além de se entregar a devaneios na parte da tarde. “Deitado no sofá, deixo o cérebro brincar com imagens e pensamentos. Volto desses estados alterados com as energias renovadas e pensando com mais clareza”, confessou em entrevista a Mason Currey para o livro Os Segredos dos Grandes Artistas (ed. Campus).

Do mesmo modo que o silêncio ou o brincar com um minijardim zen deixam a mente tranquila – e isso traz fluidez mental –, mexer o corpo destrava o raciocínio. Em tese, corpo ativo e mente relaxada significa que o organismo fabrica menores níveis de cortisona (hormônio relacionado ao estresse) e maior atividade alfa: o cenário mais propício para o pensamento criativo. Claro que nem todo mundo nasce Picasso, Einstein ou Tom Jobim. O ser humano apresenta níveis variados de criatividade e
diferentes ritmos de processar ideias. Não há fórmulas a seguir. Mas qualquer um pode treinar para ser um pouco mais engenhoso. O psicólogo suíço Jean Piaget considerava a criatividade “um presente magnífico à espera de ser pesquisado”. Mais vida vivida, mais ebulição. A criatividade gosta de quem passeia por aí com
olhos bem vivos, treina um farejar constante de inspiração, coleciona referências as mais ecléticas e as embaralha sem pudor, brinca ora de investigador, ora de estrangeiro, tenta, tenta, tenta, refaz, rompe modelos fixos, enfim, faz conexões.

Alguns exercícios são bem prazerosos. Viviane Rojas sugere, enquanto se espera numa fila de banco, por exemplo, fixar a atenção numa pessoa e imaginar sua ocupação, origem, estado civil, temperamento, gostos, crenças. “Assim saímos do nosso universo e criamos uma história completa acerca daquele desconhecido”, ela
explica. Ouvir música clássica e tentar justapor a ela um enredo, um cenário, personagens, uma coreografia, as motivações do compositor em cada trecho, é outro recurso muito fértil. “A gente nunca sabe como essa brincadeira vai se desenrolar. Uma coisa puxa a outra e assim vamos nos soltando”, observa a profissional.

É a lógica do brainstorming, método criado nos anos 1940 pelo publicitário americano Alex Osborn. A proposta consiste em despejar no papel todas as ideias que passarem pela cabeça, sem julgamento algum. Tudo o que brotar é bem-vindo. Nesse primeiro momento interessa dar vazão àquela penca de ideias incomuns, sem sentido e até ridículas que invadem a mente. Depois desse jorro, vem a etapa de convergir, ou seja, concatenar os achados mais alinhados ao nosso objetivo. “Pensamentos divergentes e convergentes são o batimento cardíaco do processo criativo. Eles trabalham juntos, mas permanecem respeitosamente separados”, explicam Dorte Nielsen e Sarah Thurber. Quanto mais liberto, mais inventivo esse dueto será. Se o pensador portar um rico repertório de experiências, melhor ainda, pois um espectro mais amplo de elementos poderá se recombinar nessa salada criativa. E, quando o inédito finalmente estourar num clarão, saberemos. Sentiremos um gosto único e absolutamente viciante.

Adubos da mente 

Dorte Nielsen e Sarah Thurber, autoras do livro The Secret of the Highly Creative Thinker: How to Make Connections Others Don’t, ensinam a despertar o criador dentro de nós

COMO COMEÇAR A VER CONEXÕES

Comece tornando-se um melhor observador. Leve um tempo para cheirar as rosas, então olhe cuidadosamente para a estrutura das pétalas, folhas, espinhos. Encontre algo nela que o surpreenda. É assim que as pessoas altamente criativas trabalham.

CAMINHADA COM PROPÓSITO

Saia com uma câmera na mão e fotografe o que despertar sua imaginação. Escolha uma fotografia do seu passeio e crie um “antes e depois” para mostrar a imagem que você viu e a visão que você criou depois dela.

ACESSANDO A FONTE DE INSPIRAÇÃO

Se prestar atenção no que acontece quando uma ideia criativa desponta, você estará mais atento para atraí-la mais vezes. De onde vem sua inspiração? Música? Arquitetura? Natureza? Pesquisadores perceberam que valia a pena perguntar aos criativos quais suas fontes de inspiração. Faça o mesmo.

1) Pense sobre algo que você criou. Agora pense no que o inspirou para chegar a isso.
2) Tire uma foto ou desenhe ambos: sua criação e o que o inspirou.
3) Cole essas imagens lado a lado numa folha de papel sulfite (ou no seu caderno de anotações). Coloque a inspiração à esquerda e a criação à direita.
4) Sob as imagens, escreva uma breve reflexão do que aconteceu quando você criou o que criou. Você tinha visto algo e de repente imaginou sua criação? Descreva o que aconteceu, como aconteceu, em detalhes.

21/07/2017 - 10:22

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