As cinco chaves do equilíbrio

Voltar a mente para o presente, nutrir-se de alimentos e relações saudáveis e, não importa a situação, ter consciência de que está dando o seu melhor, são alguns dos segredos para recuperar o eixo perdido

Texto: Rosane Queiroz

As cinco chaves do equilíbrio | <i>Crédito: Shutterstock
As cinco chaves do equilíbrio | Crédito: Shutterstock
A vida é uma corda bamba. Desequilíbrios acontecem o tempo todo. Em alguns momentos, no entanto, perdemos o foco e, portanto, o centro, na hora em que mais precisamos dele. É quando endurecemos diante de uma adversidade, sem nos darmos conta de que a flexibilidade é o caminho mais eficaz para resolver um impasse. Ou quando desabamos frente a uma demissão ou outra notícia ruim. “As pessoas têm diferentes razões para se sentirem desequilibradas. Nos dias de hoje, creio que a velocidade das mudanças, o excesso de opções à disposição nos mais diferentes contextos, as multitarefas e a distração crônica relacionada ao uso de diferentes tecnologias podem ser enumeradas como algumas delas”, avalia Elisa Kozasa, doutora em psicobiologia, membro do conselho da Associação Palas Athena e pesquisadora do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo. Modular nossas reações a fi m de dar respostas eficientes e, ao mesmo tempo leves, aos momentos críticos, pode ser, no entanto, apenas uma questão de seguir as pistas certas. Por isso fomos ouvir monges, cientistas e especialistas em bem-estar. Com eles, chegamos às cinco chaves para recuperar o prumo. Compartilhamos com você agora:

1- Pisar na saia do tempo

Viver no momento presente, e não no passado ou no futuro, é o melhor recurso para manejar bem a nossa energia. “Deus está no agora”, diz Swami Jitananda, da Ordem Ramakrishna do Brasil. Pois o agora é tudo. 

Para outro mestre, Anand Goloka, “o tempo é uma abstração”. “Você está caminhando em uma estrada, olha para trás e vê o trecho que andou. Depois, olha para a frente e vê o que ainda tem a percorrer. O ponto em que você está é o presente. O que deixou para trás é memória e o que tem à frente é o desejo. Mas eles não existem no seu movimento. No presente, você está simplesmente ali, em tempo algum”, defende. Nesse ponto, é possível sentir a respiração, a luz do dia, o perfume das flores. “Ou, como fazem 99% das pessoas, pensar no que já era ou ainda não aconteceu – o que é sinal de desequilíbrio”, resume. “É necessário se conectar com o instante se você quiser encontrar o seu eixo. Do contrário, você cai”, sublinha ele, que é mestre de meditação no Osho International Meditation Resort, em Puna (Índia), e no Brasil. A meditação é um dos caminhos para se equilibrar na corda bamba. Devagar, parando alguns minutos do dia apenas para observar e sentir a própria respiração, algo que na maior parte do tempo fazemos inconscientemente. A respiração é um espelho do que acontece no corpo e na mente. “Quando acalma, é como se o organismo todo entrasse em ponto morto”, compara o mestre. Cozinhar, tricotar ou fazer qualquer outro trabalho manual também ajuda a alcançar a atenção plena, do começo ao fim de uma atividade. 

A partir daí, o tempo ganha outra dimensão; nem mais nem menos veloz. Desfaz-se a dicotomia típica da modernidade, que leva o intelecto e o corpo a andarem mais rápidos do que a alma, e recupera-se a integridade. Para tanto, um certo recesso é indicado. Dê uma pausa nas tarefas que consomem, desligue o celular, saia do piloto automático. Libertar-se de tudo que é ordem e necessidade por alguns momentos, traz, de quebra, uma janela para a alegria.

2- Fazer uso dos princípios toltecas

Falando em equilíbrio, é bom recordar os princípios do xamã mexicano Don Miguel Ruiz, autor do livro Os Quatro Compromissos – O Livro da Filosofia Tolteca (ed. Best Seller). Desde a década de 1970, o médico, descendente de toltecas, divulga os quatro ensinamentos fundamentais da sabedoria desse povo lembrado por ser pacífico e respeitoso com os seus semelhantes. Os sacerdotes toltecas, como conta Don Miguel Ruiz, possuíam grande sabedoria, dominavam a astronomia, a geometria e a medicina. Entre suas histórias e lendas, deixaram quatro ensinamentos essenciais: 

• Sempre dê o seu melhor; nem mais nem menos. Assim evitará autocríticas negativas e arrependimentos. Lembre-se que “o seu melhor muda de um momento para outro, que será diferente quando você está bem de saúde e quando não”, mas não faz mal, se tudo o que puder fazer for feito. “Põe quanto és no mínimo que fazes”, disse também Fernando Pessoa, um sábio da poesia. 

• Seja impecável com a sua palavra. Diga somente o que você realmente quer dizer. Evite usar a palavra para falar contra você ou fazer fofocas. Use o poder da sua palavra no sentido da verdade e do amor. 

• Não leve as coisas para o lado pessoal. “Nada que as outras pessoas fazem é por causa de você”, diz Don Miguel. O que os outros dizem ou fazem é uma projeção da realidade deles, de seus próprios sonhos. Quando você ficar imune às opiniões alheias, não será vítima de sofrimento desnecessário. 

• Não faça prejulgamentos. Tenha a coragem de fazer perguntas e de expressar o que realmente você quer. Comunique-se com os outros o mais claramente possível, para evitar mal-entendidos, tristezas e dramas.

3- Nutrir-se bem em todos os sentidos

Alimento não é só comida. Precisamos, claro, de uma dieta saudável, mas também de relações e estímulos nutritivos para manter o prumo. “Tudo o que entra pelos cinco sentidos é alimento”, diz Swami Jitananda. Os sentimentos e os pensamentos são afetados, em um nível sutil, pelo que se vê, ouve, toca, e pelos aromas ao redor. “Uma pessoa que assiste filmes de terror, com drogas, violência, real ou fictícia, alimenta o medo e a insegurança”, interpreta o mestre. O mesmo vale para a música e as palavras que entram pelos ouvidos. Para estimular calma e harmonia através do olfato, o monge recomenda incensos suaves como o de sândalo, lavanda ou rosas. Para nutrir o paladar, vale o bom senso. Ao comer um prato pesado à noite, por exemplo, ele lembra que no dia seguinte obviamente será mais difícil levantar da cama. E recorda um ensinamento do Bhagavad-Gita (livro que contém a essência do conhecimento védico), que diz que não se deve comer “muito”, do mesmo modo que não se deve comer “nada”. Nem se deve dormir muito nem dormir nada. “É o caminho do meio”, conclui. 

A questão da alimentação saudável vale parênteses aqui. Para Lilian Le Page, fundadora e diretora do Centro de Yoga Montanha Encantada, em Garopaba (SC), a dieta que faz bem a um nem sempre faz bem a outro. Cada um deve buscar a sua receita, com ou sem glúten, lactose etc. E, tanto quanto se preocupar com os bons ingredientes, é essencial reconhecer que os momentos de refeição são sagrados. Ela sugere fazer o café da manhã em silêncio, por exemplo, a partir de uma prece de agradecimento, em estado meditativo, como uma maneira de ligar “as antenas dos cinco sentidos”. Comer com prazer é precioso. O sabor e a alegria ao se alimentar, a sós ou acompanhado, facilitam três processos: digerir os alimentos, assimilar os nutrientes e eliminar os resíduos. Vale aqui uma analogia com a maneira como processamos os relacionamentos e as emoções. “A má digestão emocional causa má digestão física”, lembra Lilian, para quem a gente sai do prumo porque perde essa conexão. “Uma pessoa que pensa uma coisa, faz outra e sente ainda outra coisa não pode viver em equilíbrio”, acrescenta o monge.

4- Tomar a atitude necessária

A habilidade de perceber as situações para poder tirar as conclusões mais próximas da realidade – e agir com base nelas, em vez de responder automaticamente e de forma preconcebida – é uma chave mestra para o cultivo da estabilidade emocional, lembra a doutora em psicobiologia Elisa Kozasa. Segundo ela, isso se chama equilíbrio cognitivo. Elisa cita um artigo dos norte-americanos Shauna Shapiro (psicóloga e estudiosa de meditação) e Alan Wallace (físico e monge), publicado na revista American Psychologist (em 2006), como referência para a definição. Tendo por base estudos da psicologia ocidental e da psicologia budista, o artigo fala ainda de alguns passos fundamentais para não cair da corda bamba. O primeiro deles é agir a partir da motivação correta, ou seja, tomar decisões baseadas em ações que não prejudicam nenhuma das partes envolvidas e que buscam trazer benefícios. “Se decidimos por uma atitude sabendo que estamos fazendo mal a alguém, traindo, roubando, enganando, já não dá para pensar que ficaremos equilibrados emocionalmente”, diz Elisa. Desenvolver a “atenção sustentada”, ou seja, o cultivo de uma atenção que nos permite iniciar, continuar e terminar uma tarefa importante e significativa (como destacamos na primeira chave) é outra medida importante e inteligente. 

Por fim, o equilíbrio emocional seria uma consequência do conjunto desses passos, de modo a não responder emocionalmente de forma exagerada, ou pouco intensa, ou ainda de forma distorcida. Aqui, o equilíbrio emocional não é visto como “ficar sempre calmo e não reagir”, como imaginam algumas pessoas. Ao contrário, é tomar a atitude necessária, na medida correta. “É importante entender que muitas vezes a melhor resposta emocional é intensa, por exemplo, para evitar que alguém agrida uma criança ou um idoso”, comenta Elisa. 

5- Servir ao próximo

O descontrole generalizado do momento atual é resultado de insegurança, na visão de Joseph Le Page, fundador e diretor do Centro de Yoga Montanha Encantada. “Estruturas como a família e o sistema político, que antigamente nos proporcionavam segurança, hoje nos deixam inseguros”, comenta ele. Nesse cenário, a maior parte das pessoas busca o consumo como uma maneira de preencher a ansiedade, o que é uma miragem e só aumenta o vazio. A ioga é um dos caminhos propostos para buscar essa segurança dentro de si mesmo. “Todos temos esse eixo interno, inato, regulador do equilíbrio e da energia vital”, diz Le Page. “A plenitude interna é como o mar. Ele pode receber todos os rios, mas nunca transborda nem esvazia”, lembra ele, citando o Bhagavad-Gita. Estar bem consigo mesmo é um passo importante, que leva a outro, o servir. Como dizia o professor Hermógenes (1921-2015), se alguém vir uma casca de banana na rua deve jogar no lixo. Isso vai evitar o tombo de uma pessoa, que sequer saberá que foi ajudada. O exemplo simples guarda a essência de pensar no próximo. O mestre em ioga indiano Padre Joe Pereira – um dos mais respeitados do mundo por seu trabalho no resgate de dependentes químicos, através da Fundação Kripa, a maior ONG da Índia, com 75 centros de atendimento para doentes químicos e portadores de HIV – também prega que o bem viver se fortalece no amor ao próximo. “Você deve caminhar no mundo sem expectativa dos frutos de suas ações. Os frutos virão, mas não espere”, ensina Padre Joe.





01/10/2015 - 15:30

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