9 remédios para as dores da alma

Há uma farmácia simbólica dentro de cada um de nós e pode ser acessada sempre que algo dói, oprime, desequilibra. Ali estão os frascos da simplicidade, alegria, tolerância e outros bálsamos

Texto: Raphaela de Campos Mello / Ilustrações: Tiago Gouvêa

9 remédios para as dores da alma | <i>Crédito: Tiago Gouvêa
9 remédios para as dores da alma | Crédito: Tiago Gouvêa
Imagine-se diante de um armarinho singelo. Ao abrir suas portinholas, nove frascos de diferentes tamanhos, cores e formatos se apresentam. Como conteúdo, mensagens
destinadas a soprar machucados invisíveis, embora doloridos.

As instruções registradas em cada “bula” dessa inusitada farmácia foram originalmente compiladas por um amável sábio indiano chamado Mahaprajna Shanti, que viveu no século XIX. Dia e noite sua casa acolhia todo tipo de aflito. Os que temiam as incertezas, os que guardavam mágoas, os reféns de mentes agitadas e negativas e tantos outros sofredores. Após algum tempo, as pessoas saíam de lá leves e apaziguadas, levando em seu coração o alívio ofertado pelo bondoso homem.

Esses conselhos foram reunidos no Pequeno Livro dos Remédios da Alma (ed. Resson) pela instrutora espiritual e médica Sárada Shanti (1885-1960), filha de Mahaprajna. A mescla dos ensinamentos paternos com sua própria experiência foi transmitida ao autor Erik W. Jann e permanece alentadora para os dias atuais.

Podemos ser nós mesmos, hoje, aqueles visitantes do mestre Mahaprajna, impactados pela marcha competitiva, intolerante e egoísta da vida, com dificuldade para o convívio sadio, de união e entendimento. E por vezes carentes de um afago, incentivo, ou olhar mais límpido e agregador. Por isso, essa botica simbólica tem tanto a oferecer. Em um vidrinho você encontrará a simplicidade, em outro, a tolerância, o comedimento, a compaixão e a alegria contemplativa. Na prateleira debaixo, verá a fé, o desapego, a percepção perfeita, ao lado da qual repousa o bálsamo maior: o perdão sincero. Todos eles são infusões aromáticas que ajudam a diluir os destrutivos venenos emocionais que ameaçam a saúde física e o bem-estar. Sirva-se deles sempre que a alma precisar.

Remédio da simplicidade

Segundo o Pequeno Livro dos Remédios da Alma, ela pode ser considerada um remédio de fundo. O básico, aquele que permite aos demais agir com maior eficiência.
Porque ser simples é remover falsos obstáculos e abrir passagem para o que verdadeiramente importa. Lembrar disso ajuda o ser humano a parar de se complicar e gastar tempo e energia em uma insistência cega. “Existem pessoas que passam anos experimentando chaves e mais chaves em portas que nunca estiveram trancadas”, diz a sábia Sárada, filha de Mahaprajna. O segredo é obter resultados satisfatórios com a combinação do menor número de elementos possível. E como se consegue
isso? Focando no essencial, no que de fato nos sacia e completa, que é o verdadeiro alimento da alma. Sem artificialismo. Sem cultivar segundas ou terceiras intenções. “Só quem se conhece sabe do que realmente precisa e qual a quantidade suficiente para a plena satisfação”, afirma o psicoterapeuta Thiago Guimarães, de São José do Rio Preto. Quem volta o olhar para dentro, ele diz, deixa de viver de forma massificada – preocupado em ter o que os outros têm – e passa a prestar atenção em suas reais necessidades. É assim que alcançamos as dádivas de evitar desgastes inúteis e de dar aos eventos suas reais proporções. À luz da simplicidade, a vida flui pelas
veredas mais generosas.

Remédio da tolerância

Necessitamos aceitar duas verdades bastante significativas: “Nem todas as coisas desagradáveis podem ser evitadas e, mais importante, muitas coisas são desagradáveis porque nós as tornamos assim”, esclarece Sárada Shanti. Entendido isso, essa força acordará em nós. “A tolerância é uma manifestação de sabedoria, uma elevada conquista da sensibilidade espiritual”, diz a mestra. Daí não ter nada a ver com passividade servil. Tolerar o que nos contraria é um nobre exercício de resistência
emocional e enfrentamento corajoso das adversidades. Felizmente, essa contenção nos ajuda a suportar os trechos incômodos da jornada, sem nos desorganizarmos
internamente. Ainda ameniza angústias, nos deixando menos ansiosos, e nos livra de revoltas inúteis. Quem aplica esse entendimento no dia a dia tem mais chances de ser tolerante com os outros, colocando o respeito à frente das diferenças. “A tolerância pressupõe discordância. Graças a ela, vencemos nossos sentimentos destrutivos em relação aos mundos com os quais não estamos dispostos a concordar. Seu valor, portanto, não é só protetivo da convivência, mas também garantidor da própria democracia”, avalia o professor de filosofia e palestrante paulista Clóvis de Barros Filho. Em tempos de embates irados, temos mais é que resgatá-la, consumi-la e
ofertá-la por onde passarmos.

Remédio do comedimento

A qualidade que nos mantém afastados dos extremos é um bálsamo protetor, pois nos deixa calibrados para enfrentar os desafios do dia a dia sem pender para lado nenhum, sabendo o momento certo de começar e terminar as coisas. Segundo o Pequeno Livro dos Remédios da Alma, “na vida, como na arte culinária, os bons resultados decorrem da mistura bem proporcionada de diversos ingredientes”. Viver como hábil equilibrista é possível se aprendermos a valorizar não só a importância
de cada ação a ser manifestada como também ponderando suas prováveis consequências. Antes de agir, respire e reflita: “O que eu disser ou fizer trará transtornos ou soluções?” Na Grécia antiga esse jeito de ser avesso aos excessos ganhou fama através das ideias do filósofo Epicuro. Ele entendia que, para eliminar a dor e o sofrimento, o homem deveria perseguir o prazer, mas não qualquer um, somente aqueles que agregam tranquilidade e bem-estar. E com prudência, ou seja, mantendo
sob controle os desejos que levam à satisfação desregrada e, portanto, sabotadora da harmonia. “Para Epicuro, a paz do corpo e da alma constitui uma só realidade. E nada que não seja essencial para viver serve para a felicidade”, lembra Clóvis de Barros Filho. É o que os gregos chamavam de ataraxia, um bem-estar global, alcançado por quem sabe trilhar o caminho do meio.

Remédio da alegria contemplativa

Nesse estado de alma, qualquer coisa, por mais singela e pequenina que seja, pode ser o ponto de partida de uma experiência transcendental. Para vivenciá-la, contudo, é necessário remover as capas de crenças e preconceitos que normalmente cobrem nossos olhos e deturpam a realidade. “Se os olhos do espírito estão bem abertos, são tantas as maravilhas que eles veem que o nosso ser é invadido por uma alegria ímpar, serena e reconfortante”, dizia o pai de Sárada. O ressoar de um sino distante, o sorriso de uma criança, o farfalhar das folhas de uma árvore. A conexão com a beleza do ínfimo desponta, segundo a psicóloga paulista Flavia Melissa, quando nos
conscientizamos acerca dos nossos padrões. Aquelas vozes que dizem que as coisas deveriam ser diferentes do que realmente são. “Isso rouba a paz no momento presente, nos coloca num lugar de ‘donos da verdade’, nos convencendo de que as coisas não estão boas o sufi ciente para serem contempladas.” A saída, segundo
ela, é nos colocarmos na posição de observadores da própria vida e percebermos que as coisas não acontecem conosco, e sim para nós: para o nosso aprendizado. “Assim relembramos nossa verdadeira natureza e aceitamos que tudo está certo em ser como é”, arremata.

Remédio do desapego

Para alguns, esse é um remédio difícil de engolir. Mas só ele contém o princípio ativo da liberdade. Descobrimos em sua bula que, com o desapego, aprendemos a cuidar de alguma coisa, amando-a e respeitando-a, sem cultivar qualquer sentimento de posse sobre ela, já que tudo é temporário nesse plano. Isso é estar em perfeita sintonia com a verdadeira liberdade. “A pessoa apegada tem medo de perder, de ficar para trás, de não pertencer. Por isso, sente a necessidade de prender as pessoas, coisas,
emoções, lugares e sensações”, avalia o psicoterapeuta e terapeuta floral Th iago Guimarães. Ao contrário, uma mente desapegada consegue se desvencilhar das pressões exercidas por esses “fantasmas” e desenvolver todo o seu potencial latente, porque confia no fluxo maior. Perceba como você está empregando sua energia, se está desejando as coisas apenas para preencher a ânsia de se sentir em dia com o mundo ou para reafirmar uma identidade que fez sentido algum dia. Não mais. Então permita deixar ir o que está impedindo a vida de se renovar. Uma ajudinha extra vem dos florais de Bach. “A essência Walnut ajuda a quebrar hábitos e vínculos antigos. Nos casos de pessoas apegadas a coisas materiais, relacionamentos, emoções e opiniões, o indicado é o Chicory”, sugere Guimarães.

Remédio da percepção perfeita

Os hindus acreditam na existência de Maya, que em sânscrito significa o plano das ilusões, esse mesmo no qual estamos imersos. Como nos ensina Sárada Shanti, somente a observação neutra, ou seja, liberta de emoções e intenções que normalmente projetamos em tudo e em todos ao redor, nos permite captar com clareza a realidade das coisas e das pessoas. Se desejamos alcançar os benefícios da percepção perfeita, precisamos compreender que todos os erros e todos os sofrimentos
atrelados a eles advêm da nossa incapacidade de separar a ilusão que envolve cada coisa da verdade que ela contém em si mesma. “Ela é a percepção das infinitas possibilidades que existem diante daquilo com o que você está interagindo”, opina Flavia. Através do silêncio ou de alguma prática meditativa, vamos escutando o que se passa dentro de nós e nos familiarizando com tudo isso. “Assim desenvolvemos uma visão desidentificada dos fenômenos que observamos. Percebemos que somos apenas uma peça desse todo e que ele tem uma vida própria”, descreve a psicóloga. E isso se aprimora com o treino. Confiar que a existência pode se desenrolar de acordo com sua sabedoria nata e que, ainda assim, seguimos ancorados em nosso centro é a dádiva das dádivas.

Remédio da compaixão

A compaixão é um lembrete oportuno. Chega até nós via coração para despertar a lembrança da nossa irmandade espiritual. Afinal, somos feitos da mesma matéria e da mesma essência e estamos aqui para cumprir a mesma imprevisível travessia. Segundo o padre e teólogo Márcio Fabri dos Anjos, professor do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo, o grande teste para saber se estamos de fato ligados aos nossos semelhantes é a capacidade de nos alegrarmos com o bem-estar e com o sucesso dos que nos cercam, numa espécie de “com-satisfação”. “A compaixão nasce do desejo e do compromisso que cultivamos pelo bem dos outros”, sustenta. O contrário disso requer atenção. “O filósofo alemão Nietzsche disse que sentir pelo mal e sofrimento nos outros pode ser um sentimento egoísta. No fundo, temos autopiedade por perceber de algum modo que o mesmo pode acontecer para nós”, sublinha Fabri. Acontece que a verdadeira compaixão não se resume ao sentimento de benevolência. Ela se materializa no agir. “Partimos da emoção para a ação e procuramos dar ajudas imediatas como também prevenir contra o que de ruim possa acontecer às
pessoas. É uma atitude que se cultiva e se torna mais persistente num sentido de solidariedade humanitária”, completa o teólogo. Essa fonte de água fresca e abundante nos sacia de dentro para fora.

Remédio do perdão sincero

“Quando perdoamos sinceramente a alguém, estamos permitindo a ruptura de um elo negativo que nos mantinha aprisionados às criaturas que nos feriram”, resume Sárada. É destrancando a porta do coração que temos acesso à abençoada leveza e à paz de espírito que também mora em nós. Isso porque, ao perdoar o outro, também nos perdoamos, curando os danos que nós mesmos causamos ao nosso psiquismo. Pois o sentimento de autoflagelo começa a diminuir. Mas para chegarmos a esse estágio temos que abdicar da posição de vítima e exercitar o desapego dos ressentimentos. “Perdão não começa com esquecer, mas com reconhecer o que aconteceu e procurar compreender. Olhar os fatos e as pessoas nas circunstâncias que as envolvem, inclusive a nós próprios com elas”, sugere o padre e teólogo Márcio Fabri dos Anjos. Para ele, na base do perdão reside uma sabedoria de vida capaz de reconhecer que a fragilidade é parte da condição humana. Em última análise, tudo o que
se passa nesse plano é consequência das circunstâncias em que se deram os acontecimentos e do grau de consciência das pessoas neles envolvidas. O espírito de compreensão mútua é, portanto, o que nos eleva e nos apresenta a uma grandeza de ordem divina, bem aqui, na Terra.
 
Remédio da fé espiritual

Quem caminha com fé tem a firme certeza de que as coisas se resolverão, de um jeito ou de outro. Mas não busque esse elixir sagrado fora. A plena confiança nos ilimitados poderes do Supremo cresce no aconchego do coração. Esse sentimento tem lá seus desafios diante da complexidade da vida que tudo embaralha. Para acessá-lo, a primeira medida é procurar não oscilar tanto entre o passado e o futuro, comparar demais isso com aquilo, julgar se está certo ou errado. Tente silenciar. Pode ser por meio de uma prece, meditação, até contemplação (observar a beleza da natureza ou de uma obra de arte também eleva o espírito, você bem sabe). Cada crença
define uma trilha de atitudes a serem manifestadas para o nosso crescimento espiritual, mas o que importa é o contato com a Essência Divina. Ela é que potencializa a nossa vontade, abre os canais da percepção, nos move de um lugar para outro (não são os indivíduos que a movem para diferentes lugares!). Como resposta, recebemos alento, intuição e convicção para perseverarmos. Segundo o padre Márcio Fabri, esse relacionamento com as forças elevadas pode ser fortalecido dia após dia. “Basta lembrarmos de alguém que recebeu um grande presente e é chamado a se fazer também presente para os outros. A estrela guia nos torna criativos em abrir caminhos
nessa direção”, encoraja.

23/08/2017 - 09:00

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