A arte que está em nós

Não se preocupe com a técnica. Quando a criatividade ganha o corpo e a alma se expressa, despertamos um mundo de potencialidades

Texto: Karina Miotto/ Colagem: Verônica Nunes

Colagem Verônica Nunes | <i>Crédito: A arte que está em nós
Colagem Verônica Nunes | Crédito: A arte que está em nós
É sexta-feira. Ele me olha e diz, apressado, que precisa partir. Pega a mochila, algumas peças de roupa, um par de chinelos e segura o pandeiro cúmplice e camarada. Dá partida no carro e dirige uma hora e meia de São Paulo rumo a Itanhaém, cidadezinha praiana do litoral sul, para se juntar aos músicos da banda Samba da Pedra, composta por sete pessoas da melhor idade e cujo sucesso é tamanho a ponto de a turma se reunir para fazer shows todo final de semana e tocar o melhor  do samba, com canções de Paulinho da Viola e Elton Medeiros a Cartola. O jovem músico é Narciso Miotto, de 68 anos, meu pai, pandeirista há 30 anos. Os momentos em que o vejo mais feliz e realizado não são aqueles nos quais, como engenheiro mecânico, se desdobra para responder e-mails e visitar clientes. É lá no quiosque, na beira do mar, enquanto toca seu pandeiro por quase duas horas seguidas, que vejo o brilho intenso de seus olhos e o sorriso constante que quase não cabe no rosto. O violão também faz parte de sua vida. “Comecei a estudar esse instrumento aos 60 anos. O aluno mais velho além de mim tinha 17”, diverte-se. E emenda, para não deixar dúvidas: “O pandeiro me relaxa, dá alegria. Faço música para as pessoas. Já o violão, toco só em casa. Ele me traz introspecção, calma. Quando termino, nem lembro dos problemas”, diz.

A expressão artística tem o poder de nos apoiar rumo ao aprofundamento de nós mesmos, de nos fazer relaxar, criar, ter insights, aumentar a autoestima, enxergar potenciais, emoções e sentimentos. “Seja ela qual for, é reveladora de segredos guardados em nosso mundo interno. Consciente ou inconscientemente, quando nos expressamos através da arte estamos contando quem somos, o que desejamos, revelamos e escondemos. É um poderoso e forte caminho para o autoconhecimento”, afirma Mônica Guttmann, psicóloga, escritora e arteterapeuta. E, nessa jornada, vale tudo: pintar, dançar, cantar, bordar, escrever, tocar instrumentos musicais, fotografar, usar gesso, massinha, tecidos, cerâmica, argila, sucata, mosaicos, lãs. 

Camila Miranda é doutora em psicologia e psicóloga clínica. Nasceu no sábado de Carnaval – sua mãe a ninava dançando. A conexão com a música e a dança vem desde então. Deu vontade, ela se arrisca no samba, no ballet, no jazz, no sapateado, na dança moderna, contemporânea, circular ou até indígena. “Dançar me ajuda a expressar o que sinto, focar no aqui e agora, clarear meus pensamentos e emoções e potencializar minha consciência”, diz. Além de liberar tensões do corpo. 

A expressão da arte de Camila chega ao piano – aos 8 anos foi a um concerto e se apaixonou. Nas paredes de sua casa estão seus quadros – ela nunca estudou pintura. “Se com a dança libero tensões físicas, com o piano dou vazão às emoções. Já chorei e celebrei muito tocando! E com a pintura deixo fluir a intuição. Pintar me leva a dar forma a sentimentos, sensações e memórias. É uma porta para acessar meu inconsciente quando não consigo descobrir o que sinto”, conta. São potenciais que afloram, respostas que brotam, descobertas que expandem o horizonte. “Quando estamos fazendo arte, o mental dá uma trégua”, explica a arteterapeuta e psicóloga Fabiana Geraldi. Se Camila pensar no que vai dançar, por exemplo, ela não dança. Se pensar para tocar, não toca. Se pensar para pintar, não pinta. E isso tem a ver com o estar presente, entregar-se à própria essência, ao fluxo do sentimento, à criatividade e abrir mão do resultado. 

“Não gosto de pintar dentro dos limites de um desenho porque a vida sai do contorno! O controle na expressão artística é uma ilusão. Quando você começa a experimentar existe um ponto de partida, mas você não sabe aonde isso vai te levar”, conta o publicitário Felipe Cretella, que, nas horas vagas, faz grafite e tira fotografias inusitadas – as fendas de janelas chamam poeticamente a sua atenção. Segundo ele, a arte o ajudou a segurar a ansiedade, a ver que a vida não é imediata. “Demorei dois anos desenvolvendo uma técnica que permite hoje fazer uma foto de 15 segundos”, celebra.

Carl G. Jung, o mestre da psicologia analítica, também recorria à expressão artística. Ele teria afirmado que “arte é a expressão mais pura que há para a demonstração do inconsciente de cada um. É liberdade de expressão, sensibilidade, criatividade, vida”. Em O Livro Vermelho (ed. Vozes), uma espécie de diário feito por ele entre 1914 e 1930, existem verdadeiras obras pintadas por Jung, em seu próprio processo de autoconhecimento. “Os anos nos quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida. Toda a minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos e que inicialmente me inundara: era a matéria-prima para a obra de uma vida inteira”, afirmou em 1957. O filósofo Alain de Botton, em parceria com o filósofo e historiador da arte John Armstrong, escreveu sobre a arte como ferramenta para levar uma vida mais plena. Em Arte como Terapia (ed. Intrínseca), fala de uma certa arte remédio, capaz de “ajudar a guiar, incentivar e consolar o espectador, permitindo-lhe evoluir”. Em, A Dança, de Matisse, dizem os autores, “as fi guras dançando não negam os problemas do mundo, mas, mesmo assim, podemos encontrar encorajamento na atitude delas”. Para os filósofos, a arte equilibra nossas qualidades. Ela nos acolhe, possibilita lidar com as inevitáveis rejeições e humilhações, nos leva às lágrimas e, por fi m, nos humaniza. Se a mera contemplação consegue isso, pense no que acontece quando somos nós que protagonizamos, por meio de tintas, esculturas ou música, esse movimento criativo. A expressão despressuriza. Libera o excesso de alegria contido. É porta de saída para o sofrimento. 

Todo mundo pode

Você já se disse alguma vez ou conhece alguém que falou “Não levo jeito para desenhar uma linha?”. Pois é; se sim, então imagine uma borracha (do tamanho, formato e cor que quiser) e apague esse pensamento. “As pessoas que costumam dizer que não sabem fazer arte estão muito ligadas à lógica cartesiana do certo e errado – não é bem assim”, afirma Fabiana. “Todos já fomos crianças e nos expressamos, brincamos. Nossa criança interna, que está sempre presente, nos traz curiosidade genuína, espontaneidade. É a parte nossa que tem coragem de explorar a vida, se aventurar, ser autêntica. Devemos manifestar criatividade a partir de nossa essência”, complementa Mônica. 

O talento nato ou o conhecimento de técnicas não são pré-requisitos para a autoexpresssão. “Na verdade, não existe um ser humano sequer que não seja artista. Podemos nos expressar de diversas formas”, defende Fabiana. Renato Sorriso é um grande exemplo. O gari ficou famoso por dançar entusiasmadamente enquanto varria a Sapucaí após os desfiles de Carnaval, no Rio de Janeiro. “A arte nos ajuda soltar amarras, muitas vezes insconscientes, e seguir mais livres”, conclui a coaching Karinna Forlenza, que usa o método para apoiar pessoas rumo a seus propósitos de vida. Para Mônica, chega uma hora em que a alma pede para se expressar. Ela lembra o caso de um de seus pacientes que fez um bisqui de si mesmo criança e passou a carregar o boneco no carro para conversar com ele. “Com o tempo, isso o ajudou a ter mais calma e tempo para atividades que não faziam parte do repertório  de sua profissão”, diz. De acordo com a União Brasileira das Associações de Arteterapia, o importante é o conteúdo pessoal implícito em cada criação, seja ela qual for, não importa o resultado final. Nesse caminho de autodescoberta, permita-se sentir prazer. Que esse momento de criação seja para você e por você – esqueça os julgamentos ou o querer agradar alguém. Por fim, tudo bem inspirar-se em outras criações (quem não sente vontade de sair por aí com uma câmera na mão depois de se emocionar com as fotos de Sebastião Salgado?!), mas seja autêntico, não copie. Nas palavras de Fabiana, “quando nos expressamos em um ambiente seguro e acolhedor, os muros caem e começamos a ver a beleza do processo, que é tão verdadeiro”. 

23/11/2015 - 10:00

Conecte-se

Revista Bons Fluidos