Vamos conversar?

A boa comunicação permite que sentimentos e pontos de vista distintos venham à tona sem atrito e ajuda a dissolver mal-entendidos gerados pela convivência. Saiba agora como articular esse desejável diálogo

Texto: Denise Ribeiro (Associação Palas Athena)

Vamos conversar? | <i>Crédito: Shutterstock
Vamos conversar? | Crédito: Shutterstock
A maioria das pessoas tem horror à simples menção da palavra conflito. Elas confundem com briga, discussão. E se esquecem de que, desde que o mundo é mundo, o conflito permeia as relações humanas. Sem ele não evoluiríamos, não poríamos em xeque aquelas falsas certezas que carregamos, nem nos esforçaríamos para entender o ponto de vista alheio. O problema não é discordar, mas a forma como lidamos com a oposição de ideias e sentimentos, muitas vezes inapropriada, agressiva e violenta.

Há inúmeras definições de conflito. Uma delas é a exposta pelo filósofo francês Jean-Marie Muller no livro O Princípio da Não-Violência (ed. Palas Athena): “É o confronto da minha vontade com a do outro, cada um querendo vencer a resistência alheia”.

Os atritos aparecem porque somos diferentes e pensamos de maneira diferente uns dos outros. Várias vezes por dia somos obrigados a lidar com situações desconfortáveis: o filho que não quer ir à escola, o namorado que faz um comentário machista, a chefe que impõe um processo de trabalho do qual discordamos, a vizinha que implica com o latido do seu cachorro, a amiga de anos que faz seu mundo desmoronar quando curte um post de um político de extrema direita ou esquerda.

Falamos tanto em respeitar as diferenças, mas temos a maior dificuldade do mundo em colocar em prática esse princípio. Entramos em uma discussão muitas vezes dispostos a “vencer” a qualquer preço, cheios de razão e de verdades absolutas, esquecendo que cada um de nós tem sua lista própria de verdades absolutas. Portanto, misturamos conflito – que é cada uma daquelas situações tensas que enfrentamos no dia a dia – com o acirramento do conflito – que é o momento em que as partes não mais se ouvem, se agridem e tornam-se violentas. A professora Maria Fernanda Bernardes Dias de Oliveira, terapeuta familiar especializada em técnicas de não violência, acredita que o embate é o momento em que, ao encontrar o outro, nos deparamos com os pontos de vista que ele traz. “Em cada novo encontro entre seres humanos está implícita a possibilidade de ocorrer o compartilhamento de mundos e histórias, o surgimento de novas ideias e paradigmas, ou seja, o enriquecimento de ambas as partes. Mas as portas para esse novo lugar podem se fechar rapidamente se não há o exercício da empatia (a arte de se colocar no lugar do outro antes de simplesmente julgá-lo)”, explica ela.

Por meio da comunicação não violenta (CNV), que é um modelo criado pelo psicólogo social norte-americano Marshall Rosemberg, é possível abrir caminho
para a construção de espaços humanos com mais consciência e compaixão. Ao contrário do que muitos imaginam, não violência não tem nada a ver com subserviência ou passividade. Tem a ver com a forma como encaramos e acolhemos os conflitos, pois eles fazem parte do interagir humano, parte da vida cotidiana.

Podemos ser assertivos e, ainda assim, gentis, expondo nosso ponto de vista de maneira educada. Ou alterar o tom de voz, assumindo uma postura sarcástica, irônica, mais propensa a ofender. Ou seja, cabe a nós decidir se a nossa reação será agressiva ou não. São nossas escolhas diárias que conduzem por quais caminhos vamos prosseguir.

O acirramento das discussões, por conta de divergências políticas tão atuais, por exemplo, mostra o quanto estamos despreparados para enfrentar uma divergência
de maneira equilibrada, enriquecedora e saudável. Em vez de ouvir sem preconceitos, tentamos impor nossa maneira de resolver problemas ou insistimos em convencer
o outro de que nossa opinião é mais “correta” do que a dele. Para mostrar que estamos certos, deixamos de escutá-lo com atenção genuína, nos fechamos para o que ele tem a nos ensinar e o sufocamos com uma avalanche de argumentos que julgamos definitivos.

“Política e religião, por exemplo, são assuntos de foro individual. Podemos nos perguntar por que seria importante expor nossa opinião ou a do outro. Qual a importância em iniciarmos essa conversa ou continuá-la? Qual a nossa real intenção? Seria incluir ou excluir alguém do grupo ao qual pertenço? Demonstrar poder?”, provoca a professora. De acordo com ela, não pode existir uma comunicação não violenta sem que as intenções sejam claras e baseadas em valores humanos: “Podemos usar o modelo da CNV de uma maneira correta, mas, se nossa intenção não for a de construir um lugar onde o diferente possa ser ouvido e validado, de nada adiantará, pois a intenção é o alicerce. Importante: examine suas intenções diariamente e se perceba, pois é ancorada nessas intenções que qualquer comunicação se estrutura”. Daí a importância do cuidado com a linguagem (escrita ou falada) a ser adotada. “A linguagem nos possibilita exteriorizar o que sentimos, pensamos, imaginamos, sonhamos... Ao longo da história da humanidade, nós fomos nos apropriando do uso desse recurso oral, aprimorando e expandindo significados e tornando-o cada vez mais complexo”, diz a professora. Ela argumenta que somos ricos em palavras e nas diferentes formas de expressá-las: “É como se tivéssemos um enorme baú repleto de todos os tipos e combinações. No entanto, por que a comunicação muitas vezes não nos atende, fere outros, se torna violenta?”

Lugares machucados que gritam

No curso Desvendando Conflitos: Eu e Tu, um Diálogo a Quatro Vozes, que ministrará em julho na Associação Palas Athena, em São Paulo, a professora
convida os alunos a viajar “por aqueles lugares sensíveis” dentro da gente, onde o conflito encontra espaço para se intensificar, obscurecendo a perspectiva do diálogo. “Vamos conversar com esses lugares, tentar entender por que saímos do equilíbrio, entender que necessidades nossas não atendidas estão por trás daquelas vozes que expressam raiva, desespero, indiferença. São vozes que gritam, que julgam e que silenciam, negligenciando pedidos”, explica.

Para Maria Fernanda, essas vozes que se sobressaem expressando raiva são partes nossas que precisam ser olhadas e cuidadas, pois fazem parte de nossa complexidade.
“É preciso amar essas partes, poder acalmá-las, atendê-las, para que se expressem de outra forma”, diz. “Nossas vozes muitas vezes se perdem em um emaranhado sem sentido, mas todas elas buscam ser ouvidas.”

Algumas técnicas de exteriorização podem ser ferramentas úteis para trazer essas vozes à superfície e ajudar a desvendar esse processo de reconhecimento de vozes dissonantes. Assim como a nossa voz, a do outro também pode se expressar de forma violenta. Imagine que, num grande engarrafamento, você, em vez de pisar no freio, acelera e bate no automóvel da frente. Ao sair do carro, você encontra um motorista nervoso, gesticulando muito. Ele vem em sua direção gritando: “Você não olha por onde anda? Não sabe dirigir?” Você olha para o carro em que acabou de bater e vê que há crianças no banco de trás, assustadas. Como reagir de maneira não violenta? “A voz mais agressiva é a que deve ser cuidada primeiro, pois parece ser a menos disposta a negociar”, ensina Maria Fernanda. Como dialogar? “Iniciando por palavras que contem seu interesse pela fala dele. Exemplo: ‘Você está me dizendo que, se eu soubesse dirigir, não teria batido no seu carro e que isso trouxe um grande
transtorno para você? E que, além disso, tem crianças no carro, elas estão assustadas e  fica complicado cuidar delas e resolver a situação, não é?’ Ele provavelmente vai responder: ‘Sim, é isso’”, exemplifica ela.

Nesse momento, uma pequena janela de oportunidade surge para que as partes possam, juntas, elaborar maneiras de solucionar os problemas e de restabelecer um contexto que facilite o diálogo. Mas será que estamos aptos a perceber essas vozes que expressam raiva – nossas e dos outros – e dispostos a abrir espaço para que elas se expressem? “O Eu humano, que traz a possibilidade de refletir, de ponderar sobre o caminho a ser escolhido, vive dentro de cada um de nós. E através dele poderemos acolher essas partes machucadas em nós e no outro. Vamos conversar com esses lugares sensíveis dentro de nós. Cada um tem os seus. Se sabemos quais são esses lugares, podemos encontrar novas estratégias para cuidar dessas vozes”, reflete a professora.

Os caminhos da comunicação

Os vínculos humanos se enfraquecem quando não conseguimos por meio da comunicação – que vem do latim comunicare, ou seja, “partilhar, participar de algo, tornar comum” – nos conectar e nos sentir pertencentes e acolhidos. Sentimos essa desconexão quando nos encontramos em meio a um conflito, que pode transformar
situações confortáveis em desconfortáveis e excludentes.

Se nós, nos momentos em que perdemos a possibilidade de conexão com o outro, não conseguimos respeitar a adoração de um torcedor por determinado time de futebol, por que teríamos, então, complacência com alguém que é contra o impeachment da presidente do Brasil ou acredita em cura gay? É nessas horas, em que
o tom de voz se eleva, a adrenalina nos acelera, provocando até taquicardia, que corremos o risco de descambar para a irracionalidade: passamos a julgar o outro, a
atribuir a ele a culpa por sentimentos nossos, a rotular comportamentos. Toda vez que agimos dessa forma, estamos praticando um ato de violência.

Onde poderemos encontrar em nós as habilidades para ultrapassar esse impacto inicial causado pelo conflito? Antes de mais nada, isso não acontece de uma hora para outra. Precisamos cultivar um espaço onde o diferente possa existir e, a partir dele, cultivar uma escuta cuidadosa e ativa, que é não só um ouvir mas um escutar, pois acolhe e reflexiona sobre o que está sendo dito. “Em momentos de crise, é um desa o necessário para o cultivo da paz trazer à tona, revelar a humanidade latente em cada um de nós."

Como dizia Marshall Rosemberg, morto em fevereiro do ano passado, “a empatia é a capacidade de se conectar com os sentimentos e as necessidades por trás das palavras das outras pessoas, dando a elas a oportunidade de se sentirem ouvidas e de explorar e expressar seu interior com mais profundidade. A capacidade
de sentir empatia por pessoas em situações tensas pode afastar o risco potencial de violência e do acirramento do conflito”. Por fim, a professora recorre a dois ditados populares que simplificam a vida e ilustram seus argumentos. “Um deles é: ‘Quando um não quer dois não brigam’, ou seja, se uma das partes consegue se trabalhar para oferecer empatia ao outro, o que seria um conflito poderá se transformar gradativamente em diálogo. O outro ditado diz: ‘Ninguém pode dar o que não tem’. Em nosso contexto seria dizer que, para podermos oferecer empatia ao outro, é preciso tê-la em nós e para nós em primeiro lugar”.

Lições de um diálogo pacífico

• Pratique a empatia, demonstrando interesse na conversa. Isso implica ouvir atentamente, prestando atenção no que está sendo dito.
• Não interrompa.
• Esteja atento à sua linguagem corporal. Chacoalhar os pés, por exemplo, sugere impaciência.
• Evite termos irritantes tipo: “Eu avisei” ou “Não disse?”
• Faça perguntas do tipo: “Eu queria saber o que você acha disso tudo”, ou “Como você se sente em relação a isso?” e “Qual a sua opinião?”
• Cuidado com o discurso baseado em “achismos”: “Acho que você está me evitando”.
• Prefira comunicar sentimentos: “Estou me sentindo ignorada por você”.
• Não argumente a partir de pressupostos: “Como você não me ligou eu pensei que...”
• Evite os rótulos: “Com essa opinião, só pode ser reacionário”.
• Não ofenda nem altere o tom de voz.

08/08/2016 - 10:07

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