Tudo está onde deve estar

Quando a nossa visão do tempo deixa de ser um traço reto e ganha as curvas dos ciclos, eternos e contínuos, a vida pode se render ao fluxo maior que rege todas as coisas sob o Sol desde a mais remota existência

Texto: Raphaela de Campos Mello

Tudo está onde deve estar | <i>Crédito: iStock
Tudo está onde deve estar | Crédito: iStock
Há quem veja o tempo como uma linha reta com começo, meio e fim. Na ponta derradeira, um deus implacável, Cronos, senhor da medida cronológica, exibe uma ampulheta vazia. Sabemos. Finda a viagem. Fomos devorados.

Essa é uma possível leitura da passagem humana na Terra. Há outra, tão antiga quanto a própria noção da existência, cultuada na Antiguidade por diferentes civilizações
como Índia, Egito, China, Japão, Grécia e os povos pré-colombianos. Para eles, não havia começos nem finais, apenas ciclos, redondos e contínuos como a própria
silhueta de Gaia; infalíveis como os turnos do Sol e da Lua. “O ciclo nada mais é do que a história da alma e seu percurso através de vidas e mortes, nascimentos e renascimentos”, define a jornalista e escritora Simone Boger, de Porto Alegre, autora do livro O Ciclo do Tempo (ed. Brahma Kumaris).

Nos primórdios da Índia, por exemplo, acreditava-se que a humanidade atravessava um ciclo descendente de quatro eras ou idades da consciência, simbolizadas por quatro
metais: ouro, prata, cobre e ferro. Considerava-se ainda uma quinta idade invisível, associada à ideia de ascensão, quando a alma humana tem a oportunidade de se renovar através do autoconhecimento e da proximidade com o Divino. Uma vez cumpridas as cinco longas etapas, tudo recomeçava.

Para os ocidentais, acostumados ao alvoroço dos ponteiros que só sabem urgir e nos empurrar de um objetivo a outro, essa visão oposta ao pensamento linear soa como um calmante natural: “Não se apresse, tudo está onde deve estar”, ou seja, no fluxo da vida, como uma criança tragada por sua brincadeira predileta. É por isso que os chineses costumam dizer que “pessoas inteligentes não correm” – tampouco resolvem problemas sem maturá-los em fogo brando –, e os indianos, “Hamso, so ham”, que significa “aquilo que fui serei novamente”. Há compreensão e harmonia no desprendimento oriental. Há a clara visão do todo, de uma natureza sábia em seus desígnios de se exaurir e se renovar em períodos definidos. “O Tempo, vasto e ilimitado, acompanharia esse ritmo infinito como um incessante relógio cósmico num movimento de eterno retorno”, complementa Simone.

Quando o filósofo alemão Friedrich Nietzsche postulou que “o mundo é um movimento circular que já se repetiu uma infinidade de vezes e que realiza o seu destino até o infinito”, ele estava se referindo a essa noção ancestral, conhecida pelos budistas como a Roda da Vida ou Samsara. Todos nós estamos sujeitos a ela, entendida como um movimento contínuo de ação e mudança. Para nos libertamos de sua perene rotação alimentada por mortes e renascimentos, temos que superar as forças da ilusão e do desejo. Do contrário, regressaremos quantas vezes forem necessárias à evolução interior. “Essa perspectiva tem base no entendimento espiritual da vida, no fato de sermos seres espirituais tendo vivências no mundo físico. Ela explica a eternidade da alma, do ser, da vida”, observa a jornalista.

Harmonizar-se com os ciclos pressupõe, antes de tudo, voltar a atenção para a morada interior. E perceber como o dentro e o fora são espelhos fidedignos. No fim das contas, o tempo lá fora é o nosso próprio tempo. “Se não desenvolvermos intimidade com o templo interno, a relação com o tempo será sempre estressante e superficial”, alerta o terapeuta Mauricio Bastos, criador do Espaço Integração, em São Paulo. Certa vez, ele lembra, o cientista Albert Einstein comparou o tempo a uma rua. E ousou afirmar que os anos não passam por nós, somos nós que andamos por eles. “Podemos passar correndo pelos ciclos da vida – e nem perceber tudo à nossa volta – ou desfrutar cada passo”, sugere o terapeuta, para quem o caminho do autoconhecimento inevitavelmente deságua na sabedoria da impermanência. A certeza de que a um ciclo findo outro novinho se seguirá. E assim por diante.

Muitas vezes, só precisamos deixar a roda girar, abdicando do controle e, no lugar dele, sedimentando a confiança e a gratidão. “Podemos seguir em direção ao centro da roda, sem nos identificarmos tanto com as subidas e com as descidas”, encoraja Bastos. O resto se encaminhará. Como deve ser.

06/09/2017 - 09:00

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Revista Bons Fluidos