Novos tempos demandam novo entendimento

Existe uma escolha que leva à felicidade sustentável e compartilhada. Não é fácil localizá-la quando o cotidiano parece de ponta-cabeça, mas a luz da ética ajuda muito nessa tarefa

Texto Daniela Majori (Associação Palas Athena)/ Ilustrações Tiago Gouvêa

Novos tempos demandam novo entendimento | <i>Crédito: Tiago Gouvêa
Novos tempos demandam novo entendimento | Crédito: Tiago Gouvêa
O que significa viver uma boa vida e como obter a felicidade? Ainda é difícil saber a resposta  para uma dúvida que vem desde há muito tempo. Sócrates e depois Platão, no século VI a.C., concluíram, pelo menos, que uma vida sem análise crítica não vale a pena. E que a compreensão dos dilemas éticos mais recorrentes nas relações humanas e com o meio figuraria como um possível caminho para uma presença mais consciente – e quiçá mais plena – no mundo. Faz sentido. Mas parece que a tarefa de analisar nossas atitudes e nosso estilo de vida para minimizar os conflitos intrínsecos à natureza humana vem se complicando com o avanço da tecnologia e as novas formas de convivência. Esse novo mundo tem sofrido com o embate entre conservação  e inovação, íntimo e público e, ainda em descompasso, aparenta estar de ponta-cabeça. Difícil acompanhar a velocidade com que avançam, por exemplo, as redes sociais, que permitem cometer excessos de todos os tipos e propagar posições coléricas sem que as pessoas tenham formação mais embasada. “Não sabemos como agir porque não conseguimos enxergar com clareza a cartografia ética que poderá viabilizar um futuro de interação saudável consigo mesmo, com os outros e com a natureza”, destaca o psicólogo e engenheiro Fernando Stanziani, que também dá aulas na Associação Palas Athena, de São Paulo.                               

Falta-nos um mapa. Novos tempos demandam novos olhares e um novo entendimento. E cada ser humano deve ser convocado a reanimar sua sensibilidade para rever crenças e ajudar a refletir sobre condutas de desrespeito a si mesmo e aos outros com quem convivem. A ética ajuda nisso. Como se jogasse uma corda capaz de nos puxar e nos recolocar em sintonia tanto na esfera pessoal quanto na coletiva. Especialmente em tempos confusos como o que vivemos. 

Segundo um dos mais importantes sociólogos da atualidade, o polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), consagrado pela obra Modernidade Líquida, vivenciamos uma época de dissolução das tradições. Para elucidar a escolha do título, ele diz, no prefácio do livro: “‘Fluidez’ é a qualidade de líquidos e gases. (…) Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. (…) Os fluidos se movem facilmente. Eles ‘fluem’, ‘escorrem’, ‘esvaem-se’, ‘respingam’, ‘transbordam’, ‘vazam’, ‘inundam’ (…) Essas são razões para considerar ‘fluidez’ ou ‘liquidez’ como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase (…) na história da modernidade”.

Segundo o professor Fernando Stanziani, hoje, há um repúdio ao aprofundamento das tradições porque se entende que só geram obrigações, restringindo as possibilidades de escolhas pessoais. “Um comportamento muito observado é aquele em que as pessoas fragmentam os conhecimentos tradicionais, acumulados por anos na história, e adotam para a sua vida apenas os que mais lhes convêm”, observa. Diferentemente de um olhar crítico para os valores morais adotados por si e pela sociedade (que devem ser revisitados o tempo todo, como destacamos no boxe ao lado e na reportagem de capa à página 32), o que Stanziani desencoraja é uma ideia do mínimo sacrifício para o indivíduo. 

Essa exacerbação dos valores em esfera individual poderia ser apenas isso, uma visão particular, contemporânea, que em nada interferisse no andamento da ordem mundial. Mas não é só isso. O problema é que essa exacerbação está ligada ao aumento do consumo e à visão de que, para sermos felizes, precisamos acumular realizações, objetos, dinheiro... “Essa lógica da individualidade que gera relações de competição entre as pessoas precisa mudar para uma lógica de cooperação”, diz o profissional. Esse é um bloquinho importante na construção de um olhar humanista. 

Afinal, se a felicidade se dá na esfera coletiva, orientada pela convivência harmoniosa com os outros e com o meio, melhor não descolarmos tanto assim do grupo. A valorização do individualismo observada na atualidade é regida por uma visão de liberdade na qual o pensamento dominante é “eu tenho o direito de fazer o que eu quero”. Mas esse discurso de direitos no nível individual tem um ponto falho. “Como resultado, vemos uma alienação dos deveres. É alta a expectativa de conforto, de uma vida segura, mas para quem ‘sobra’ o sacrifício?”, questiona Stanziani. “Ninguém sabe. O que importa é que não seja para mim nem alguém que eu conheça”, ironiza.

Tal falta de responsabilidade implica, muitas vezes, falta de ética nas relações com as pessoas e coisas. No uso de espaços públicos, por exemplo, a ética consiste em usufruir do que é de todos e, ao mesmo tempo, cuidar para mantê-los nas condições originais de uso. “Algo bem diferente daquele pensamento típico de quem pouco se importa: ‘Já que não é meu, não está sob minha responsabilidade’”, distingue o professor. Para ele, as sociedades somente alcançarão a felicidade compartilhada e sustentável se os seus integrantes tiverem a consciência de que precisam fazer sacrifícios e concessões de determinados interesses pessoais. 

Estou sendo ético? Os conflitos éticos aparecem, principalmente, nos encontros entre culturas distintas, possibilitados pelo mundo globalizado, e se desenvolvem das mais variadas formas. No curso Ética e o Princípio da Conexão, ministrado na Associação Palas Athena, em São Paulo, o professor Stanziani discute alguns desses dilemas. Por exemplo, sobre os costumes aos quais algumas mulheres ocidentais se veem obrigadas a se submeter quando estão no Oriente Médio. Ou mesmo no campo profissional, quando chega um chefe oriundo de outro país e traz consigo os códigos da cultura de onde ele veio, que muitas vezes colidem com os do novo local. 

Segundo pesquisadores, a única forma de resolver um conflito desse tipo é por meio do diálogo (saber escutar, principalmente) e da revisão dos próprios valores morais. Uma solução pode estar em estabelecer um discurso sustentado pelos valores que existem em comum e que podem nortear uma atualização dos repertórios de comportamento e conduta. 

Seguindo a máxima de Aristóteles em Ética a Nicômaco, somos o resultado de nossas escolhas. Por isso, devemos dar tanta importância e compreender a responsabilidade embutida em cada uma delas. Segundo o professor, a melhor forma de fazer opções mais éticas é tentar equilibrar o que nos traz vida boa, digna, próspera com respeito a nós mesmos e aos demais, e a vida prazerosa e confortável. “Vivemos em sociedade, e estar em sintonia com o coletivo é essencial para sermos reconhecidos no todo e assim alcançarmos a vida que vale a pena”, destaca. 

É praticamente uma saga, que começa com a reflexão sobre as nossas imperfeições e o real desejo de nos tornarmos pessoas melhores. Esse caminho exige esforço, persistência e coragem, principalmente para encarar monstros internos, como a agressividade, o egoísmo e condutas de desrespeito a si mesmo e aos outros. Um mito que ajuda a entender esse aprimoramento é o dos doze trabalhos de Hércules. Pinçamos um exemplo descrito pelo especialista em mitologia grega Viktor Salis para ilustrar esse lapidar pessoal: “Ao enfrentar o Leão de Nemeia, animal de pele invulnerável, de nada adiantavam flechas precisas e força; Hércules o encurralou em seu próprio esconderijo e conseguiu sufocá-lo. O leão representa a violência que há no homem e que se deve aprender a controlar”. 

A diferença entre moral e ética

De acordo com o professor Clóvis  de Barros Filho, especialista em  ética, a moral é um diálogo do eu  com o eu. Aquilo que você se impõe fazer, havendo vigilância ou não.  É a capacidade de transcender  aos próprios instintos não por medo  do olhar do outro, mas por você mesmo. A ética tenta viabilizar  um meio de estarmos todos juntos para além das aspirações particulares. Do contrário, vence o desejo do  mais forte. Em sociedades eticamente desestruturadas, a tendência a  abrir mão dos impulsos individuais em nome do bem comum é menor.

4 práticas éticas

1:  Manter um estado de atenção  e avaliação dos próprios hábitos

2:  Revisitar constantemente  com um olhar crítico os  valores morais adotados por si e pela sociedade em que se está inserido. 

3:  Promover por meio do diálogo uma avaliação crítica das decisões e ações praticadas por um indivíduo ou grupo

4:  Ter prudência nas ações a  serem tomadas e no seu impacto. É importante ter em mente que,  por mais que tenhamos direitos,  não é fato que eles serão garantidos.





11/04/2017 - 11:36

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