Meditação até no supermercado

Segundo o budismo, quando exercitamos o estado de atenção plena podemos tomar melhores decisões. Inclusive no que se refere ao consumo

Texto: André Gravatá (Associação Palas Athena)

Meditação até no supermercado | <i>Crédito: iStock e Shutterstock
Meditação até no supermercado | Crédito: iStock e Shutterstock
Uma monja budista se acostuma com pouco. “Nós tentamos não acumular coisas”, conta-me a monja Karma Lekshe Tsomo com sua voz acolhedora. Ela, que é especialista em estudos budistas e leciona na Universidade de San Diego (USD), nos Estados Unidos, virá ao Brasil pela primeira vez para realizar dois cursos na
Associação Palas Athena, em São Paulo. Nos próximos dias 14 e 15 de junho estará lá para falar sobre consumo, felicidade e escuta. Temas essenciais para ela e para nossos tempos marcados por repetidos excessos e ouvidos bloqueados. “Vivemos em uma economia que oferece uma série de escolhas. O que leva a gente a comprar coisas nada relevantes?”, pergunta-nos a monja Karma, que questiona enfaticamente as necessidades desnecessárias que afirmamos como importantes por falta de consciência sobre os desdobramentos dos nossos atos.

Muitos veículos de comunicação vendem produtos e serviços, mas também perspectivas e comportamentos. Dos produtos se veem os contornos, porém os comportamentos, estrondosamente sutis, são absorvidos pelo público sem que haja uma consciência clara sobre o tamanho da influência da mídia.

A crise vivida hoje está relacionada com os produtos e comportamentos que viemos comprando no decorrer das últimas décadas. Como o budismo pode nos ajudar nesse cenário? Esse sistema religioso e filosófico nos ensina técnicas sobre atenção plena que convocam novas atitudes para substituir velhos hábitos.

Práticas de atenção abrem a possibilidade de nos tornarmos mais conscientes sobre nossos processos mentais e, assim, mais lúcidos sobre o que está acontecendo conosco e ao nosso redor. Quando vamos a um supermercado, por exemplo, estar em estado de atenção plena pode nos ajudar a tomar melhores decisões. Se não estamos com a atenção operante, entramos no estabelecimento como máquinas, distraidamente apanhamos os itens que consumimos por hábito, pagamos e saímos de lá sem sequer olhar para o rosto do atendente do caixa. O convite que a monja Karma nos faz é para considerar cada pequena escolha que fazemos.

Lembre-se: felicidade nunca entra em promoção

Todo mundo precisa comer, mas o que nos leva a comprar além do necessário? É para saciar desejos que consideramos como causadores de felicidade. De tanto saciar desejos, há muita gente com dívidas. E dívidas causam muita ansiedade e estresse. O sistema é um produtor de desejos e nos desa a a levá-los a sério. É
um processo insistente de sedução.

Quando vamos a um shopping, antes de pagar um produto, pense: realmente preciso desse produto? É feito por uma corporação ética? Que consequências esse objeto carrega consigo para mim mesmo e para a sociedade?

“Decisões éticas são comportamentos intimamente conectados com práticas de atenção plena. Se estamos conscientes de nossos atos, há mais chances de tomarmos decisões éticas”, reflete a monja. Isso signi ca pensar não apenas em como nossas escolhas influenciam a nossa felicidade mas também a felicidade de todos os seres vivos. Se na hora de comprar algo no mercado, você escolher levar menos sacolas plásticas estará favorecendo uma realidade onde menos pacotes dançam à deriva nos oceanos – e sufocam animais de repente. “A felicidade depende do sentimento de satisfação com o que você já tem. Quando desejamos mais e mais, não
estamos satisfeitos. Então entramos na ilusão de que acumular mais coisas vai nos tornar mais felizes. Engano. Buda disse: o contentamento é a maior riqueza”, comenta.

Contentar-se na sociedade do descontentamento é um paradoxo. E às vezes as pessoas exageram e caem em moralismos, entram em um processo missionário de convencimento dos outros, sobre o que deveriam fazer para mudar. Há um desa o claro em apresentar uma agenda ética e paixão por certas causas sem deixar quem está por perto em uma posição constrangedora. Fazer outras pessoas se sentirem culpadas por suas decisões não é efetivo, pode inclusive afastá-las. “Ensinamos pelo exemplo. Muitas vezes as abordagens mais sutis são as mais relevantes: dar um sorriso, por exemplo, envia uma potente mensagem”, ilustra a monja. Pela perspectiva da pessoa que está tentando repensar suas escolhas, é preciso ser bastante honesto consigo mesmo. Não se considerar uma vítima do consumismo é uma percepção fundamental a carregar. Perguntas que não calam: quem são seus amigos? O que é valioso para os amigos com os quais você convive? É importante reconhecer que nossa ilusão consumista tem como pilares os nossos contatos mais próximos – se meus amigos valorizam roupas de marca ou alimentos caríssimos, seja lá o que for, e me deixo influenciar diretamente por essas decisões sem nem me perguntar o sentido delas, seguirei na ilusão consumista. “Seja capaz de aceitar o desconforto. É preciso reconhecer nossos privilégios e suas consequências no mundo”, ressalta a religiosa.

À medida que as pessoas ascendem de uma classe mais baixa para outra mais alta seus desejos materiais expandem também. “Eu cresci em um mundo em que se acreditava que cada membro da família deveria ter um carro. É um desastre. É muito difícil dizer para pessoas que não tiveram certos privilégios: não usem e abusem dos mesmos privilégios quando tiverem oportunidade. No meu caso, como sou uma monja,  z um voto de pobreza. Mas isso aconteceu depois de eu gozar de uma vida razoavelmente abastada. Meu pai tinha um novo carro, um novo barco e uma nova casa praticamente todo ano. Vi, em primeira mão, que esses bens não traziam felicidade para ele”, relata, enfatizando que cada um tem o desa o de reavaliar seus próprios comportamentos de consumo. Em outras palavras, ela não está propondo voto de pobreza para todos, nada disso. O convite que ela faz com seu exemplo é sobre prestarmos atenção nas reais necessidades e, por consequência, abandonar as falsas. Além disso, vale considerar que pessoas diferentes têm necessidades diferentes dependendo do contexto.

A crise do mundo

“Precisamos escutar a crise do mundo”, ressalta Karma. Estar disponível para as histórias que as pessoas contam é o ato essencial rumo a uma escuta plural. E isso inclui ouvir não apenas as histórias dos seus amigos, que foram selecionados por você, mas também as histórias estranhas, com perspectivas distintas das suas. De certa forma, no fundo, trata-se de estarmos preparados para nos sentir desconfortáveis. A maioria das pessoas não é capaz de escutar os outros por causa de uma auto-obsessão, de um apego demasiado pela própria perspectiva. Repetidas vezes estamos diante de uma pessoa que conversa com a gente e não a escutamos verdadeiramente, pois, mentalmente, estamos planejando nossos próximos movimentos. Por não escutarmos cuidadosamente, contudo, acontecem muitos desentendimentos. Deixar nossa visão autocentrada se dissolver é treinar uma escuta atenta. Podemos praticar esse exercício em pares: escutar a história de outra pessoa, em completa atenção, sem deixar que os próprios pensamentos entrem no meio do que a outra pessoa nos diz. Há múltiplos momentos em que isso acontece. No trabalho, quando o filho chega da escola, no telefone com a mãe…

Se separarmos um tempinho, todos os dias, para meditar, estaremos a nando os ouvidos para captar o que está acontecendo com nós mesmos (não estamos acostumados
a ouvir esse mundo interior, não é mesmo?). É um gesto que nos permite olhar para dentro e descobrir infinitas respostas. Karma Lekshe nos estimula a dedicar pelo
menos cinco minutos em silêncio todos os dias, quietos e tentando focar na nossa respiração. Focar na respiração é a meditação mais simples, um pedido para que assistamos ao natural movimento do corpo. Contar as respirações também é um meio de não deixar a mente dispersar. O ponto mais importante aqui é dedicar tempo para aprender a entrar em contato com os mundos interno e externo de maneira atenta. É estar no presente. E essa é uma porta de entrada para a felicidade, pois revela que decisões banais, na verdade, são escolhas determinantes para o presente e futuro. Então, na próxima vez que for ao supermercado, lembre-se da monja Karma Lekshe Tsomo: leve a atenção plena – e uma ecobag também, aliás, assim nem precisa pedir a sacolinha descartável.

04/07/2016 - 09:00

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