Há um novo portal para você

Todo começo de ano traz em seu ventre uma possibilidade, como sucessivas portas que se abrem ao longo da jornada humana convidando cada um de nós a atravessá-las e a descobrir uma outra paisagem, um novo conteúdo, uma segunda chance

Texto: Raphaela de Campos Mello

Há um novo portal para você | <i>Crédito: iStock
Há um novo portal para você | Crédito: iStock
Janeiro incorpora a chance de transpor mais um limiar. O calendário se renova e junto com ele nossos sonhos podem ganhar asas mais robustas; nossa ousadia, nos levar além do sabido. Não por acaso, o mês faz referência ao deus romano Jano (em latim Janus), protetor das portas, senhor dos começos e das passagens. Representado com duas faces – uma voltada para a frente e outra para trás –, ele simboliza o início e o fim. O passado e o futuro. Justamente a disposição interna de cada um de nós nesse período. “Ficamos imantados pela energia de Jano. Refletimos sobre o ciclo vivido e, ao mesmo tempo, acalentamos os desejos para o porvir”, observa a analista junguiana
e mitóloga Vera Couto, de São Paulo.

Na percepção da psicoterapeuta transpessoal Monika von Koss, também da capital paulista, é como se uma voz sábia sussurrasse do lado de lá do portal: entre, venha encontrar uma versão mais inteira de si mesmo. “Somos atraídos para o futuro, para o novo, para algo que já está dado, mas nós ainda não alcançamos”, sublinha a psicoterapeuta, que sugere um questionamento renovador nessa hora. “Em vez de focar coisas das quais você quer se livrar, investigue o que pode buscar nesse ano novo
de forma que agregue alegria, felicidade e bem-estar à sua vida.” Assim, fica mais fácil se desprender do que nos amarra ou amedronta e atravessar as clareiras que se abrirem diante de nós com passos firmes e olhos que alcançam lonjuras.

“Um portal é uma passagem entre dois estados, entre dois mundos. O conhecido e o desconhecido, a luz e as trevas, o sagrado e o profano, o consciente e o inconsciente”, define Vera. Segundo ela, não é o caso de se cobrar grandes saltos nos primeiros raios desse alvorecer. Às vezes, providências simples como arrumar um armário, organizar papeladas e resolver pendências com pessoas próximas podem reciclar a energia e nos deixar mais leves para entrar em movimento e ir atrás de projetos mais ambiciosos
no momento oportuno.

O importante é desbravar, um passo após o outro, o horizonte. Essa condição inexorável pressupõe, muitas vezes, escolher uma porta em vez de outra, dilema ancestral. “O homem sempre teve insegurança em relação ao futuro. Daí a necessidade de consultar oráculos e sacerdotisas. Era assim que se colhiam referências sutis: a melhor atitude a ser tomada, a escolha mais sábia, o caminho mais auspicioso”, destaca Vera. Mais do que simplesmente descortinar o que se manifesta do outro lado do
umbral, o convite é para que sigamos adiante cientes de nossos múltiplos potenciais. Não à toa, na entrada do Oráculo de Delfos – localizado no santuário dedicado ao deus Apolo –, na Grécia antiga, havia a inscrição: “Conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, avance e compreenda a sua dimensão humana. “Os oráculos da Grécia, de Roma e do Egito costumavam dar conselhos cifrados para que a pessoa se implicasse na reflexão sobre a própria caminhada, ou seja, para que ela pudesse olhar para suas próprias questões e escolhas, e não simplesmente receber uma solução de mão beijada”, esclarece a mitóloga.

De passagem em passagem, vamos somando despertares e ampliando a consciência. É por isso que, sempre que cruzamos um limiar – seja em direção a uma nova fase na vida, seja a um estágio acima na jornada espiritual – nos reconhecemos em nova pele. A coragem é pré-requisito. “Não tem como espiar. Ou se atravessa ou não se atravessa”, observa Monika. Certos portais nos incitarão a ir mais fundo. E a perceber que somos muito além do que nossas supostas limitações consideravam. Mas, quando a consciência se expande, não tem como regredir ao estado anterior. O mundo passa a ser outro. Maior.

02/02/2017 - 11:05

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